sem chegar ao fim
sem saber onde o fim ficava
dei por mim
onde não dava
não dando
fui
andando
de vagar para a ré
navegando nesta terra sem firmeza
como qualquer um é
basta um pouco de atenção e esperteza
a caminho
não vi
ruas, estradas, carreiros, avenidas, sinais
só
memórias
um pouco, já, confusas
histórias
de desalinho, mulheres nuas estafadas
dias inteiros a mais
preso à televisão
gatinhava
largar a mão enorme até ao murete do vizinho
largar a mão do selim e voar na bicicleta que estraguei de ferrugens e derrapagens
largar a mão e nadar, no mar
amar
depois
os passos
prá frente
para trás
e pró lado
como se vivesse num quadrado
sem espaços, diferente e fugaz
[tenho tido a maior sorte que há
neste planeta e em qualquer outro
com ou sem sol ou Rá
a prole
de beta ou ómega a alfa
todo um alfabeto
que não tem versos
só sentires
universos]
fez-se silêncio
tanto tempo
e
a minha calçada
perdeu o tom verde
perdeu o dourado,
tornou-se acastanhada
que se funde e confunde com a terra
Sou fiel ao ardor,
amo esta espécie de verão
que de longe me vem morrer às mãos
e juro que ao fazer da palavra
morada do silêncio
não há outra razão.
Eugénio de Andrade
Saibam que agradeço todos os comentários.
Por regra, não respondo.