Poemas : 

recomeçar a meio

 
sem chegar ao fim
sem saber onde o fim ficava

dei por mim
onde não dava

não dando
fui
andando
de vagar para a ré
navegando nesta terra sem firmeza

como qualquer um é
basta um pouco de atenção e esperteza

a caminho
não vi
ruas, estradas, carreiros, avenidas, sinais
só
memórias
um pouco, já, confusas
histórias
de desalinho, mulheres nuas estafadas
dias inteiros a mais
preso à televisão

gatinhava

largar a mão enorme até ao murete do vizinho
largar a mão do selim e voar na bicicleta que estraguei de ferrugens e derrapagens
largar a mão e nadar, no mar

amar

depois

os passos
prá frente
para trás
e pró lado

como se vivesse num quadrado
sem espaços, diferente e fugaz

[tenho tido a maior sorte que há
neste planeta e em qualquer outro
com ou sem sol ou Rá

a prole

de beta ou ómega a alfa
todo um alfabeto
que não tem versos
só sentires
universos]

fez-se silêncio
tanto tempo

e

a minha calçada
perdeu o tom verde
perdeu o dourado,

tornou-se acastanhada
que se funde e confunde com a terra





Sou fiel ao ardor,
amo esta espécie de verão
que de longe me vem morrer às mãos
e juro que ao fazer da palavra
morada do silêncio
não há outra razão.

Eugénio de Andrade

Saibam que agradeço todos os comentários.
Por regra, não respondo.

 
Autor
Rogério Beça
 
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