Não era timbrado
nem tinha vinte e cinco linhas,
primo afastado do papiro,
estava em branco
e à espera
e do aparo
cicatrizou-se na carne, assim nua,
um sentir
que assim dizia:
nesta data
aqui e não algures,
conheceste o suor no rosto,
a sina do escravo,
o travo amargo e engolido em seco
das derrotas,
o duro, o vil,
ganhaste o ar humilde,
a marca do servo,
que somente sobrevive.
E
neste poema que não é,
neste auto de fé,
ofereço-te este elogio tarde demais.
Sou fiel ao ardor,
amo esta espécie de verão
que de longe me vem morrer às mãos
e juro que ao fazer da palavra
morada do silêncio
não há outra razão.
Eugénio de Andrade
Saibam que agradeço todos os comentários.
Por regra, não respondo.