foram-se os dedos
e mais o que for,
é uma daqui dor
de sombras e cedos
o que se me amputa,
para além da mão
é o céu e a razão,
coisa felina e de gruta
vivo inesperado
e sem surpresa,
de nada à mesa
persigo sem lado
cresce-me a fome
de dar o troco,
que me põe louco,
que me consome
retaliar, doar o fel,
armado sem arma,
espero pelo karma
se agarrar à pele
até a tinta da caneta
extinta, jamais finita,
ninguém acredita
num maneta
Sou fiel ao ardor,
amo esta espécie de verão
que de longe me vem morrer às mãos
e juro que ao fazer da palavra
morada do silêncio
não há outra razão.
Eugénio de Andrade
Saibam que agradeço todos os comentários.
Por regra, não respondo.
Ó mulher, que me tiras do sério
que por ti tudo digo e faço,
que todo o mar, ele é poço, é rio,
tudo posso contigo no braço
Ó mulher, tão cheia de mistério,
que por ti revivo e me desgraço,
guarda-me um lugar no cemitério
e prolonga, além da vida, este laço
Ó mulher, qu’és para mim minério,
ouro, diamantes e de aço
e todo o precioso ar aéreo
que a mim se liga, em tenro abraço
Ó mulher, o teu nome é impropério,
a tua boca beijo, o corpo amasso,
cometo o pecado do adultério,
e o cometo sem remorso lasso
Ó mulher, por ti construo um império,
procuro-o o mais perfeito, escasso,
neste, ou no outro, hemisfério,
de ti, não se compara um pedaço
Ó mulher, és o fruto mais etéreo,
proibido, dona do teu espaço,
par que se torna meu refrigério
que me aumenta a vida e estuga o passo.