Fachada agora virou casa?
Um crucifixo é devoção?
Há gelo que se torne brasa?
A vida cabe em certidão?
Na tela, a pose esta perfeita,
maquiagem, o filtro basta;
fora do quadro a dor se deita,
chora a noite que se arrasta.
Enquanto a pista dança e gira,
a própria voz abafa e cala;
o riso ensaia outra mentira
e a máscara, vazia, fala.
Mas um dia o letreiro cede
e o corpo, já torto, cai;
desiste, e a vertigem pede
palmas, mas o bando trai.
Viver é verbo: constrói casa,
fora do caixão, transborda;
só a lenha se torna brasa:
e a vida tropeça, e acorda.
Quem teve o chão no rosto
sabe o quanto custa levantar
e reconhece, pelo gosto,
a pedra que se funda o lar.
O sonho é ponte, nunca teto;
casa exige a mão, o prumo;
resistir, qual aço e concreto;
insistir, e sustentar o rumo.
A dor, que a tela disfarçava,
abre na pele a cicatriz;
e o medo, antes era trava,
é semente, e se fez raiz.
Por isso te pergunto, e sigo:
que mora por trás da aparência?
gelo ou fogo que virou abrigo?
é carne, escolha e consciência?
Souza Cruz