Se fachada agora é casa,
um crucifixo é religião?
Pode o gelo virar brasa?
A vida cabe em certidão?
Basta reboco à toda vista,
igual ao sorriso no cartaz?
A alma se faz na conquista
de quem constrói a sua paz.
Sonho é ponte, jamais teto.
Fuga, no colchão, é ilusão;
acorda, planeja, faz projeto,
põe mão à obra e há solução.
Na tela, a vida é satisfeita:
o filtro recorta a perfeição;
mas fora dela a dor se deita
chora pedindo a aprovação.
Vale maquiagem, o disfarce,
e a máscara da ostentação?
A verdade mostra a sua face
quando se encara o coração.
Às vezes nosso corpo dança,
a consciência quer dormir;
a fachada então avança
mostra que é fácil desistir.
Mas quem já provou do chão
sabe o peso de levantar;
resistir sempre é decisão
de insistir sem se enganar.
Problema jamais é maldição,
é enigma a ser decifrado;
além do papel e da razão,
da moldura, título dourado.
É verbo frente à escuridão,
é escolha, é ferida, é soma;
é brasa que derrete a solidão,
é dor escrita em seu genoma.
Por isso te pergunto e sigo:
tua vida é mais que aparência?
É chama que atravessa o perigo,
é carne, escolha e consciência?
Souza Cruz