Em parte me enganei
porque quis me enganar,
em parte fui esganado
pela verdade a andar,
sempre a escorregar.
A guarda baixa e dor,
o jamais guardado ator,
mas o futuro aguarda.
Nem no passado houve,
no futuro não haverá.
A esperança sincera
no presente sem lugar,
erra ao querer encontrar
no peito a dor ausente —
mente o amor sem par.
Cego em mundo errante,
esquece o que é lembrar.
Como pode então encontrar
vida, singelo descanso,
a vila de passo manso?
A procura é sem sentido,
a dor é cera de ouvido,
o segundo se é contado,
jamais foi um dia vivido,
só o subjetivo arranhar.
Assim, o ser só existe
onde a incerteza há,
falta é poço sem fundo,
do muro a desmoronar —
mora sozinho, sem lar.
Souza Cruz