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Contos : 

A Viagem

 
A sereia do navio rasgou a quietude marítima, preenchida de azul longínquo e por bandos de gaivotas, que a distância semelhava a brancas folhas de papel, onde alguém escrevera francas estrofes de liberdade.
Luísa permanecia imóvel, encostada à amurada do convés. Os seus olhos prendiam os derradeiros contornos do cais e ela jurava, ainda vislumbrar, o fugaz aceno dos lenços na margem, como se estes fossem delicadas rosas de sal, a tremular no vento.
Também os últimos resquícios do perfume de Vicente permaneciam no seu corpo, como testemunho efémero, daquele longo abraço de todas as despedidas.
— Não demores em regressar… — pediu ele, numa voz enrouquecida pela saudade que já sentia, apesar de Luísa sequer ter partido.
Ela aquiesceu em silêncio, sabendo que a sua viagem não teria regresso possível. Por isso, desejava guardar num lugar bem fundo de si, cada fragmento daquele amor, que a morte, ao invés de desvanecer, eternizaria…
A única verdade na sua partida, era o facto de embarcar rumo à Austrália, tudo o mais, era uma intrincada teia de dolorosas mentiras.
Havia já alguns meses que assim era… Desde o dia, em que ela entrara naquele desditoso consultório, para saber os resultados dos exames clínicos, que antes fizera. Ouviu, sem nada sentir, como se as palavras graves, que o médico pronunciava, fossem uma sentença imutável, que há muito o seu coração adivinhava.
Nem mesmo, quando, com ar sonhador, Vicente arquitectava planos para um futuro, que Luísa sabia impossível de alcançar, ela lhe contou acerca da tragédia, que sobre eles se abatia.
A brisa insinuava-se de manso ao redor de si, pondo-lhe na palidez das faces, o suave rubor, que possuem as pétalas das camélias. E os longos cabelos ruivos adejavam, revoltos, como um inusitado jardim de algas. O olhar, esse, era preenchido pelo reflexo da água do mar, que, de quando em vez, ameaçava transbordar a frágil prisão das pálpebras e desfazer-se em ondas salgadas de mágoa.
Luísa inalou profundamente o odor marítimo e pensou, para consigo, por quanto tempo mais, conseguiria prender a vida dentro de si…
Os primeiros indícios da doença tinham surgido, havia cerca de um ano. Atribuíra ao cansaço, o crescente mal-estar, que a acometia. Decidiu não partilhar com Vicente as suas desconfianças. Não queria preocupá-lo em vão…
A verdade, é que o passar dos dias, trouxera consigo inequívocas provas de uma sina, há muito traçada, pelas ocultas tramas do destino.
A incerteza ameaçava tornar-se na mais insuportável de todas as dores, o que a impeliu a procurar um médico. Os poucos dias em que aguardou, pelo desvendar definitivo dos exames clínicos, pareceram-lhe intermináveis anos de suplício. Só o amor de Vicente parecia ser o bálsamo capaz de acalentar tão penosa espera. Ainda assim, foi incapaz de falar com ele. Seria para ela insuportável, ler nos seus olhos palavras de compaixão, como se esse sentimento fosse um indelével poema, de versos tristes e piedosos…
Nunca o sorriso de Vicente seria o mesmo, sempre preenchido pelo fulgor dos girassóis; nunca os seus beijos teriam o mesmo gosto, perfeita Primavera com sabor a frutos silvestres; nunca o toque das suas mãos teria a mesma enigmática magia… Apiedados, seriam, talvez, todos os seus gestos. E a fronteira com o amor tornar-se-ia numa linha estreita e esbatida, uma terra de ninguém, onde, aí sim, ela feneceria a cada instante, qual borboleta enleada pela chama de uma vela acesa.
Que importância tinham, naquele momento, todas as mentiras, todos os enganos, das horas em que os dolorosos e inúteis tratamentos, se afiguravam como um bálsamo redentor, um ínfimo raio de luz na sua esperança? Tentou como pôde iludir a morte e, em nenhum momento se arrependia, das histórias que tinha inventado, para que Vicente permanecesse, serenamente, a sonhar, envolto no seu belo conto de fadas. Injusto não lhe dizer nada? Talvez… Talvez ele devesse conhecer a verdade e saber que a crescente palidez e debilidade dela, não eram provocadas pelo cansaço, como Luísa afiançava, mas por uma mão invisível, que lhe ia roubando as forças…
Quantas foram as vezes, que ela mergulhou bem fundo na alma dele e, ainda que em pensamento, lhe revelou o adeus próximo… Porém, ele estava cego de paixão ou fingia essa cegueira, ela não sabia bem... Com frequência, Vicente repetia, que se acreditasse com muita força num sonho, eventualmente, este acabaria por se concretizar…
Luísa sabia o quão utópico seria crer nisso, porquanto, uma vaga revolta lembrava-a de que já não tinha o direito de sonhar…
A ideia de ir para a Austrália surgira de repente, quando ouvira o chefe de redacção do jornal onde trabalhava, dizer que estavam à procura de alguém, que ocupasse as funções de correspondente nesse país.
Quando ela disse ao chefe que estava disponível, este olhou-a boquiaberto. Pois, apesar de Luísa possuir todos os requisitos profissionais para o cargo, o homem sabia que ela e o Vicente estavam a ponderar casar daí a alguns meses. Tal proposta não fazia sentido. Pensou que ela estivesse a brincar, mas o ar determinado de Luísa, não lhe deixou margem para dúvidas.
— Mas… Não entendo… Tu e o Vicente não estão a planear o casamento? Isto não é uma viagem de ida e volta… Entendes? Será por tempo indeterminado…
Luísa assentiu. Nem o chefe calculava, o quão acertadas eram as suas palavras. Aquela seria uma jornada sem regresso possível…
— Eu sei… Peço, por favor, que me indique para o lugar e se alguém perguntar alguma coisa, diga que não existia outra opção… Que foi o próprio chefe a nomear-me para este trabalho… E que só estarei fora por dois ou três meses…
— Que estás tu a pedir-me?!
— Por favor, confie em mim…
— Mas… — balbuciou o homem, em absoluta confusão — E… O Vicente?...
— Se quer a minha felicidade, faça aquilo que eu lhe peço…
O chefe acabou por condescender, sem ver, no entanto, no rosto de Luísa, qualquer vestígio dessa felicidade. E alguns dias depois, teve mesmo de pôr à prova a sua lealdade para com a jovem, quando, ocasionalmente, encontrou na rua o Vicente e este lhe perguntou, o porquê de Luísa se ausentar, de forma tão inesperada. Com alguma relutância, o homem conseguiu justificar a partida dela, afiançando-lhe que seria pouco demorada, a permanência dela na Austrália.
Quando o chefe de redacção chegou ao jornal, contou a Luísa o sucedido e fez questão de manifestar o seu repúdio por tão incompreensível embuste. Com os olhos rasos de lágrimas, Luísa implorou-lhe que mantivesse a sua palavra e não revelasse a ninguém o seu misterioso pedido. Com ar reprovador, o chefe comprometeu-se a nada dizer.
Luísa delineara um plano de fuga perfeito. Doía-lhe a consciência ter de enganar, não só o Vicente, mas também o pobre chefe, pois ela não fazia tenção de trabalhar como correspondente do jornal. Assim que chegasse à Austrália, desapareceria do contacto de todos. Viveria o tempo que ainda lhe restava, como uma trivial passageira, clandestina no ventre de uma vida, que por ela passava a alta velocidade, sem, em nenhuma paragem, se quedar.
Conhecia bem o Vicente. Preferia mil vezes, que ele se julgasse abandonado por ela, a que soubesse a realidade. Sentir-se traído, acabaria por fazê-lo seguir em frente, descobrindo força no ódio e no orgulho ferido. Só o ódio dele compensaria o amor dela. Uma ideia louca, contudo, o amor não tinha que fazer sentido. Ela tinha a certeza, de que um dia Vicente voltaria a ser feliz e as recordações que dela possuía, aparecer-lhe-iam, como uma velha fotografia, amarelecida pelo tempo, onde o doce-amargo da saudade, elevaria a fatalidade, ao mito… Quanto a ela, seguia a um só tempo, para o outro lado do mundo, para o outro lado da vida…
O crepúsculo ia pintando de sombras douradas toda a superfície do oceano, que, célere, o navio fendia, deixando atrás de si um imenso rastro de espuma, que, de quando em quando, as gaivotas vinham beijar… E se Luísa escutasse a voz do mar, com as margens do coração, poderia nele ouvir, o triste fado, que à noite, sob as estrelas, gemem as guitarras ao desafio, num já longínquo reino lusitano…

Menção Honrosa nos V Jogos Florais de Avis, na modalidade de Conto.
 
Autor
LurdesBreda
 
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