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Poemas : 

A menina dos fósforos (ou um grito á indiferença)

 

Na rua escura, frio estava
A neve não párava de cair,
O vento sempre a fluir,
Tão forte que a roupa furava.

-Quem quer fósforos baratos?
Assim a menina apregoa,
Antes que a alma lhe doa,
Aos transeuntes ingratos

De pobres chinelos calçados
Entretanto por ali perdidos
Algures na neve escondidos
Lindos cabelos encaracolados

Sua pele de frio roxa
Emprestava-lhe mais beleza
Lábios carmins, olhar de pureza,
Vestido que não lhe tapa a coxa

Mas o dia corria-lhe mal
Cheia de fome abandono e frio
Em longo e triste delírio,
Aconchegou-se num beiral

Para casa assim não iria
Sem os fósforos vender,
O pai irado ia-lhe bater
Ainda mais dor padeceria.

Moravam em água-furtada
Frio e chuva por todo o lado.
A mãe, tinha-se libertado
Pela lei da morte arrancada

Precisava a menina de calor
Tremente de frio e tristeza
Vivendo na triste certeza
De uma vida em constante dor

Decidiu um fósforo acender
Uma chama acesa e acolhedora,
Olhada assim em ar de sonhadora
Naquela luz conseguiu ver

Uma linda lareira refulgente
Onde ardia uma linda chama
Ia sair pelo calor daquele drama
Aquecer-se na luz incandescente

Mas o fósforo logo apagou
Voltou a menina a tiritar
Daquele frio de rachar,
De outro fósforo se lembrou

Logo uma mesa lhe apareceu,
Em toalha alva contra a luz
Uma mesa de comida que reluz,
Que belo manjar lhe apeteceu

Quando ia para comer
E a longa fome matar,
A barriga da miséria tirar,
O fósforo deixou de arder

Rápido, a menina outro acendeu
Apareceu a avó em aura de felicidade
Com seu olhar perene de caridade
-vem! - Disse, e o braço lhe estendeu

A menina deu-lhe logo a mão
Antes que o fósforo apagasse
E a sua avó também levasse
A felicidade do seu coração

Tomou a neta em seus braços
E levantando da terra os pés
Assim sem mais demoras nem revés
Fizeram das nuvens doces enlaços

Voaram num rasto de luz e cor
Assim de repente sem mais dor
As duas abraçadas em puro ardor
O céu curvou-se ao seu esplendor

Nasceu o dia o cadáver ignorando
Da menina que ainda sorria
Da morte que já não padecia
E merecido descanso gozando





(adaptado do conto de Hans Christian Andersen)
 
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jaber
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Enviado por Tópico
Vera Sousa
Publicado: 03/02/2009 11:58  Atualizado: 03/02/2009 11:58
Membro de honra
Usuário desde: 04/10/2006
Localidade: Amadora
Mensagens: 4100
 Re: A menina dos fósforos (ou um grito á indiferença)
Li o conto da menina dos fósforos em pequena e penso que até aquela altura nada me tinha emocionado tanto... Agora relembrei tudo... E mais não digo! Vai para os meus favoritos, para reler sempre!
Obrigada por este momento!

Beijinhos


Enviado por Tópico
Antónia Ruivo
Publicado: 03/02/2009 12:07  Atualizado: 03/02/2009 12:07
Colaborador
Usuário desde: 08/12/2008
Localidade: Vila Viçosa
Mensagens: 3906
 Re: A menina dos fósforos (ou um grito á indiferença)
Arrepiante, beijinhos


Enviado por Tópico
Edilson José
Publicado: 03/02/2009 12:25  Atualizado: 03/02/2009 12:25
Colaborador
Usuário desde: 12/04/2008
Localidade: SP
Mensagens: 5591
 Re: A menina dos fósforos (ou um grito á indiferença)
Com tua consciência nada desdenhosa, digamos: "um belo grito de alerta à indiferença"
Parabéns amigo Jaber!
Edilson


Enviado por Tópico
adelaidemonteiro
Publicado: 03/02/2009 12:26  Atualizado: 03/02/2009 12:26
Colaborador
Usuário desde: 01/01/2009
Localidade: miranda do douro/Sintra
Mensagens: 733
 Re: A menina dos fósforos (ou um grito á indiferença)
Finalmente o descanso, para aquele sofrido ser...
Não tenho palavras.
Parabéns.
Adelaide


Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 03/02/2009 12:51  Atualizado: 03/02/2009 12:51
 Re: A menina dos fósforos (ou um grito á indiferença)
muito triste, a morte, a dor e o esquecimento. bj


Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 03/02/2009 12:58  Atualizado: 03/02/2009 12:58
 Re: A menina dos fósforos (ou um grito á indiferença)
José Alberto, tenho um prazer enorme em te ter como amigo.
Digo-te isto a cada vez que nos encontramos e descobrimos pretexto, seja numa jantarada ou nos copos.
Parece-me que começas a levar esta coisa da escrita mais a sério, o que é para mim uma alegria.
Não conheço o conto original, mas este poema é todo ele sentimento.
Tens características únicas para escrever a desdita, o sofrimento, numa linha neo-realista que sempre me agradou e sempre me agradará.
Parabéns Zé.


Enviado por Tópico
gil de olive
Publicado: 03/02/2009 14:50  Atualizado: 03/02/2009 14:50
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Usuário desde: 03/11/2007
Localidade: Campos do Jordão SP BR
Mensagens: 5046
 Re: A menina dos fósforos (ou um grito á indiferença)
Caprichou nessa heim meu amigo?Ficou 5 estrelas!


Enviado por Tópico
FatinhaMussato
Publicado: 03/02/2009 15:51  Atualizado: 03/02/2009 15:51
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Usuário desde: 17/11/2007
Localidade: Jales (SP / BR)
Mensagens: 2106
 Re: A menina dos fósforos (ou um grito á indiferença) p/ Jaber
Jaber,

Fiz uma viagem aos tempos de criança, quando lia, relia e contava aos amiguinhos este conto natalino que sempre me comoveu intensamente!
Apreciei muito ler este poema feito baseado no mesmo, que produziu em mim as mesmas emoções!

Beijinhos da Fatinha.


Enviado por Tópico
AnaCoelho
Publicado: 03/02/2009 16:50  Atualizado: 03/02/2009 16:50
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Usuário desde: 09/05/2008
Localidade: Carregado-Alenquer
Mensagens: 12082
 Re: A menina dos fósforos (ou um grito á indiferença)
Um poema tocante, um alerta como o titulo diz um grito á indiferença...
Vai para os favoritos.

Beijos


Enviado por Tópico
mim
Publicado: 03/02/2009 22:08  Atualizado: 03/02/2009 22:08
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Usuário desde: 14/08/2008
Localidade:
Mensagens: 2858
 Re: A menina dos fósforos (ou um grito á indiferença)
Lembrei a história, nem sei o que dizer
vou levar para para ler e reler!!!

Beijos em ti piu piu da Costa