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Crónicas : 

Indigentes

 
Todos os dias, no caminho para o meu emprego, passo por uma das zonas de Lisboa onde vivem mais indigentes – pessoas a quem a vida não sorri e que se vêem obrigadas a viver na rua.
No Terreiro de Paço, mesmo por debaixo das arcadas, lá estão eles. Nas suas camas feitas de cartão, ou, nalguns casos, com sacos-cama ou cobertores, já roçados e gastos de tantas noites, por certo, mal dormidas.
Todas as manhãs, algumas pessoas fazem a distribuição do pequeno-almoço. Uma sandes e uma garrafa com leite ou chá. Para muitos deles está será a única refeição do dia. À hora que passo está a distribuição a meio. E se alguns se mantêm nas camas enquanto comem, outros levantam-se, tentam fazer a sua higiene pessoal com a água que recolheram em garrafas de plástico e arrumam os seus poucos pertences dentro de caixas, antes de se sentarem, com a dignidade que lhes resta, para comer.
Tentam, quase todos eles, apesar das condições adversas em que vivem, fazer uma vida dita (quase) normal. Há quem vá buscar os jornais gratuitos para poder ler e saber o que se passa no mundo, há quem jogue às cartas e até quem ouça música num qualquer leitor portátil – quem sabe se não será o único bem que tem da vida anterior.
Uma das pessoas que por lá está é uma senhora de idade que pouco anda. São então os restantes que a ajudam a chegar para a sombra quando é preciso, ou lhe vão buscar alguma coisa que necessite. A solidariedade entre o grupo é espantosa. Ou pelo menos assim parece a quem passa.
São pessoas sem outros bens que não sejam aqueles que têm consigo. Alguns, não materiais, que normalmente em outras circunstâncias se esqueceriam, tal como nós nos esquecemos que os temos. São pessoas sem rendimentos que não sejam as esmolas que lhes vão deixando. No entanto, tentam, por todos os meios, manter-se limpos e arrumados.
Quando passam, na televisão, casos de pessoas pobres que vivem em casas sem condições, muitas vezes o que me salta à vista não são as faltas de condições da casa mas sim a falta de limpeza. Falta de limpeza, como me mostram todos os dias os indigentes que vivem no Terreiro de Paço, não significa pobreza. E o inverso também é verdade.
Cada dia que passo pelo Terreiro de Paço renovo a lição que aprendi no primeiro dia que os vi – podemos perder tudo, menos a dignidade. Essa não há quem nos tire.
E é, também, com a realidade destes indigentes que ganho forças para lutar, agir e contemporizar. Onde na memória se grava que a dignidade não tem estatuto social.


Stone
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Pedra Filosofal
O sonho comanda a vida...


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Pedra Filosofal
 
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Enviado por Tópico
Amora
Publicado: 05/08/2009 18:42  Atualizado: 05/08/2009 18:42
Colaborador
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 Re: Indigentes
Olá minha querida!
Não, não há o que pague a dignidade.
E dignidade não é orgulho, brio mundano,
vejo-a acima de tudo como respeitabilidade!

Li tua crônica como olhos de sentir, a tua escrita assim, humana, faz-me falta!

Beijo grande

Amora

Enviado por Tópico
amandu
Publicado: 05/08/2009 18:57  Atualizado: 05/08/2009 19:00
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 Re: Indigentes
NO TERREIRO DO PAÇO TAMBÉM VIVI EU. MUITOS ANOS ATRÁS E TENHO UMA RECORDAÇÃO DE LÁ QUE AQUI VOU PÕR EM CASOS DA VIDA REAL QUE ESCREVO NO LUSO.
SÃO PESSOAS QUE POR VÁRIAS RAZÕES LÁ VIVEM E MORREM.
VIVI MUITOS ANOS ASSIM E EM MUITOS PAÍSES NA MINHA PROFISSÃO DE DEUS POIS NÃO É FÁCIL MO MUNDO SERMOS QUEM SOMOS E NIISSO APENAS EU E NÃO MENTIRA.
NO ENTANTO DEPOIS DE TUDO SOU DEUS O CRIADOR. A VIDA CHEGA A TODOS E NUNCA NOS PODEMOS DIZER ESTOU DE FORA DESTE MUNDO SEM O VERMOS E DE CRIME. É UMA SORTE O MUNDO E PEDIR A DEUS É DEVER E SABER DE TUDO.
ABRAÇO PARA SI E POR SUA OPORTUNIDADE SEMPRE É BOM LÊ-LA E BONITO.
AMANDU

Enviado por Tópico
poesiadeneno
Publicado: 05/08/2009 19:45  Atualizado: 05/08/2009 19:45
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Mensagens: 1407
 Re: Indigentes
Pedra Filosofa,

Tenho grande admiração por essas pessoas.
As más experiências da-lhes um conhecimento profundo da raça, que se diz, humana.

Um texto feliz que aborda a infelicidade.


Beijo

Enviado por Tópico
Paulo Afonso Ramos
Publicado: 05/08/2009 21:12  Atualizado: 05/08/2009 21:12
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 Re: Indigentes p/ Pedra Filosofal
Cara Amiga,

Acho o texto fantástico, primeiro por ser, de facto, muito bem escrito, depois pelo cuidado e respeito, que demonstras com a escrita, ao abordares um tema tão sensível e que muitos preferem ignorar. E para terminar, dentro do que escrevi, uma pequena abordagem a palavra escolhida para o título – indigentes – que tão-somente significa, pobre ou mendigo, podendo ir do “necessitado ao miserável”, e tu, com uma grande consciência e dignidade preferiste dar-lhe o respeito que provavelmente merecem. Muito bem! Este texto, se me permitires, e permitirás porque não tens qualquer alternativa, vou guarda-lo nos meus favoritos.

Um terno beijo

Enviado por Tópico
Lara Adam
Publicado: 05/08/2009 23:01  Atualizado: 05/08/2009 23:01
Da casa!
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 Re: Indigentes
Ás vezes a correria da vida, faz com que a gente não pense muito nos outros, estes outros, refiro-me a pessoas, seres humanos que necessitam da nossa ajuda! Sabe, somos tão egoístas, terrivélmente egoístas, por vezes não temos 5€ para dar a quem precisa, mas logo de seguida até vamos comprar uns óculos de sol, verdade!! Sabe, às vezes não sei o que pensar, ou o que fazer, por vezes paga o justo pelo pecador, não sei em quem acreditar!! Tenho tanta pena das pessoas que dormem na rua, que se calhar passam fome, mas eu sou uma pequena partícula neste mundo, que o pouco que faço não chega a nada, mas gostava de fazer mais, muito mais! Beijinhos e obrigada por nos abrir os olhos para o que se passa ao nosso redor.

Enviado por Tópico
Vera Sousa
Publicado: 05/08/2009 23:34  Atualizado: 05/08/2009 23:34
Membro de honra
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Localidade: Amadora
Mensagens: 4100
 Re: Indigentes
Faço meu o comentário do Paulo Afonso Ramos e também o da Amora.
Sem mais palavras... excelente! O tema e o texto!

Um beijo cheio de orgulho

Enviado por Tópico
António MR Martins
Publicado: 07/08/2009 10:56  Atualizado: 07/08/2009 10:56
Colaborador
Usuário desde: 22/09/2008
Localidade: Ansião
Mensagens: 5064
 Re: Indigentes
Magda,

Junto ao meu local de trabalho (Anjos/Intendente) testemunho, diariamente, essa situação. Uns mais limpos, outros menos. Alguns há que fazem as suas necessidades na zona circundante ao meu emprego. Uns têm mais educação que outros. Uns também são mais afáveis. Uns foram-se perdendo na vida, mas outros há que se acomodaram neste desiderato e dele fazem o seu estar na vida, todos os dias...
Os governantes deveriam estudar todas estas situações e agir em conformidade com as necessidades das mesmas.

Gostei da tua alusão ao assunto, por deste teu texto.

Beijinho