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Esmerilhando o Amor em Paixão e Desejo

 
A tirania do frio não tinha lá o mesmo efeito. A mim, arrepiava-me o corpo, fazendo contrair os músculos involuntariamente. A ti, conduzia a algum lampejo de insanidade, força motriz de tuas mais incrédulas arrebatações. Era noite de mais alto inverno, e, os minutos gastos pela tempestade, que se alvitrava lá fora, escorriam lentamente pelas lâminas orvalhadas das folhas, tão alheias às selvagens investidas do vento. Encontrei-te reverenciando a ventania, tirando-a para dançar, logo às primeiras valsas da noite, numa sonata a mim ignorada, mas, que se fazia agir em teu coração. Teu sorriso aquecia-te, e, teus olhos abrilhantavam as idéias que jamais te abandonaram desde a tenra idade. Tinhas lá a tua viagem marcada, e, nem sei mais o quanto havia ali de encantamento pela gélida noite, e, do quanto do teu bater de asas que se avistava.

Contemplei-te ao cabo de um quarto do relógio, e, tu a mim não notaste. Eu bem que o quis assim. Não me recordava haver-te visto tão leve, nem tão feliz. Quis olhar-te de longe, silente, emudecido, decorando cada movimento do teu compasso, cada gesto esboçado ao vento, que pudesse ser reproduzido com qual exatidão e fidelidade, em um daqueles borrões que eu ousava derramar sobre aquelas telas que nunca te deixei ver. Tu bem que tentaste. E em uma dessas tantas noites, descobri-te com teus pés furtivos, em pisadelas almofadadas, a farejar em meu ateliê, alguns vestígios desses meus regalos. Inútil! Tal ato movido à curiosidade e inquietude, só serviram para ganhar o teu semblante, encandeado pela chama de minha vela, a imortalidade das minhas pinceladas. Um dia, mostro-te todas! Mas, não agora. Agora quero apenas me inebriar desse teu gracioso borboletear.

Mas, quando os ponteiros já estavam quase a se beijar, tu viraste os olhos em minha direção, e, o sorriso que antes te cobria as faces, deu lugar ao enrubescer de tuas maçãs. Quedaste os olhos, não sem antes interrogares os meus, como a imaginar quais palavras estariam por vir, aquelas que minha boca ousaria proferir. Mas, palavras minhas não tiveste. Apenas um leve levantar de sobrancelhas, que logo se fez acompanhar do meu movimento de mão, pedindo-te para entrar. Ao todo, a razão começava a dar o desponte e como os termômetros já haviam zerado há algumas horas, tu achaste melhor não ignorar o meu silente pedido, e, foi ter comigo em ambiente interno.

Foi só quando cá dentro estiveste, que os músculos teus cederam ao frio da noite, e, um tremor de queixos impedia-te de me dar as desculpas a que eu já havia me acostumado a ouvir. Peguei do meu edredom, e, cobri-te o corpo, abraçando-te por alguns instantes que não me foram assim tão delongados quanto os meus desejos suplicavam. Quis abandonar-te por alguns poucos minutos sob argumentações sinceras de jogar ao fogo, mais algumas toras de madeira. Mas, ao ínfimo movimento meu, tu me retiveste. Tua mão estava fria, e, teus lábios purpúreos. Fechaste os olhos, deixaste teu corpo desfalecer em meus braços, fazendo-me tomar-te no colo, conduzindo à lareira.

Fomento da lareira, chamas que se alardeam por completo! Lanço-te um olhar, compadecido de tuas loucuras. Afasto-te os cabelos dos olhos, teus lábios se estremecem quase sem força, numa tentativa esvaída de murmurar alguma palavra. Foi então que peguei daquela garrafa do Porto, arranquei-lhe a rolha, e, alforriei o fâmulo vinho. Mergulhei meus dedos naquele rubro tinto para aproximá-los, assim, molhados, de teus lábios ressequidos, contornando-os em trajetos nada rotulados, algumas vezes, resvalados para o interior da tua boca. Tornei teu corpo ainda mais íntimo ao meu, e, quando dos teus sentidos tu te recobraste, foram os meus que por completo se perderam de mim.

Tu me olhaste ainda tendo dos meus braços, o teu leito. Sorriste de me queimar as pupilas. Retiraste a mão que tinhas acolhida sob o edredom, e, tocaste meu rosto. Nunca a ti havia revelado, nem por um olhar furtivamente lançado, o que só o meu peito conhecia. Mas, ali, diante de tua tão entregue insensatez, quis tomar de todas as palavras, dizendo-te ao menos desta vez, o quão amor ali eu tinha. Foi, então, a minha vez de fechar os olhos, e, de me deixar consumir pelas minhas chamas. Tomei da taça, provei do vinho, quando eu mais pensava tomar de tua boca. Era-me impossível abandonar tais pensamentos. E quando fui me valer de mais um gole, tuas mãos me impediram de dar fim ao feito, fazendo-me pensar que do teu jeito, tu o querias só para ti.

Mas, de teu lânguido estado, tu arrebadatoramente levantaste, e, foi tomando de meus braços, envolvendo-me como teu. Tomaste de minhas mãos a taça de outrora, e, a elevaste à altura dos olhos. Os clarões vindos da lareira relfetiam sobre aquele vidro esmerilhado, para só então, revelar-me os delicados traços de teu rosto. Aproximaste a taça dos lábios, e, ao fazer o leve movimento, como quem toma do impuro cálice sagrado, derramaste por todo o colo o líquido ali confinado. O que me fizera o contato de tua pele levemente febril ao receber o derrame doce do vinho, não ouso revelar. Levantaste o olhar a mim, e, laçando-me pelos cabelos arrasta-me ao teu colo. Respirei do calor de tua pele desnudada, alva e delicada, suave e macia, por mim tanto desejada. E como não mais controlar a razão, bebi de todo vinho sobre o talhe de teu corpo.

Tomo do vinho derramado, ascendendo-me do colo ao pescoço. E bem próximo às intensas labaredas de teus lábios, nossas bocas se fundem num só beijo. Fagulhando-nos o peito deste jeito, não importa que haja uma tempestade lá fora, se cá dentro houver um braseiro amor vitimando-nos de paixão e desejo.

"A felicidade vai subir no teu céu."


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Enviado por Tópico
Betha Mendonça
Publicado: 23/08/2009 17:27  Atualizado: 23/08/2009 17:27
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 Re: Esmerilhando o Amor em Paixão e Desejo
Bem escrito, bonito e romântico o texto.Gostei muito!
Bjins, Betha.