~Metamorfose~
Ó meu senhor:
essas pétalas exuberantes
essas pétalas singelas
mães do brilho sedutor
donas do crepúsculo,
donas do hálito matinal,
- são hienas
que te podem comer a vida
num segundo.
Nem tudo que brilha é ouro!
~5~
antes
que a chuva
beba os rios
antes
que polvos
lavrem nuvens
no útero de deus
antes
que o sol renuncie
o pêndulo da sua caligrafia
antes de tudo:
- matar-te-ei
para que a vida te habite.
~8~
no delírio azul
das madrugadas
bebo o sangue último
das estrelas
e vejo o teu nome
renascer
nas partituras
do tempo futuro
- aurora
~12~
mandíbulas entesadas
fome e medo
aprisionando os últimos
fragmentos do tempo
holofotes
a emanarem escuridão
nas entranhas
da madrugada
what goes around comes around
o futuro
alicerçado
num pretérito
cheio de brumas
~15~
cabem no olhar
todas as substâncias preciosas:
sorrisos não meditados
abraços que além de corpos
aproximam almas - destinos
serenidades absolutas
cabem no olhar
todos os nomes de deus
~10~
tenho imensos vácuos
no peito
nos pulmões
albergo a vertical ousadia
das aves
sou o grito
da nuvem talhando
seu último voo
~1~
gémea
da água
águia e meia
luz oblíqua
estampada
no relevo
da infância
metáfora
na carne do tempo
primeira
e última esplanada
de presságios
- onda!!
~2~
o invisível
espelha-se na via láctea
espalha-se na voz
da mão volátil
que lacrimeja
fonemas rebolam
no peito das nuvens
ouve-se a noite
a levitar no vazio
sombras
entreolham-se pela retina
de HUBBLE
porque
o Karma
que internamente se observa
vê-se nos outros
quando por fora vê-se a si
~19~
a noite dorme na boca
é uma agulha
construindo azáfamas
fogo sob os glaciares
- insónia
~7~
eis a concha
da insónia
destilando o cansaço
das ruas
uma mão
cheia de vozes
e muralhas de água
despertando o orgasmo das pedras
eis o tempo
bebendo-se no frontispício do inverno
- carpe diem