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Raquel de Queiroz : Telha de vidro
em 04/06/2011 16:52:36 (5874 leituras)
Raquel de Queiroz

Quando a moça da cidade chegou
veio morar na fazenda,
na casa velha...
Tão velha!
Quem fez aquela casa foi o bisavô...
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
mergulhada na tristura
de sua treva e de sua única portinha...

A moça não disse nada,
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro...
Queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade...

Agora,
o quarto onde ela mora
é o quarto mais alegre da fazenda,
tão claro que, ao meio dia, aparece uma
renda de arabesco de sol nos ladrilhos
vermelhos,
que — coitados — tão velhos
só hoje é que conhecem a luz doa dia...
A luz branca e fria
também se mete às vezes pelo clarão
da telha milagrosa...
Ou alguma estrela audaciosa
careteia
no espelho onde a moça se penteia.

Que linda camarinha! Era tão feia!
— Você me disse um dia
que sua vida era toda escuridão
cinzenta,
fria,
sem um luar, sem um clarão...
Por que você na experimenta?
A moça foi tão vem sucedida...
Ponha uma telha de vidro em sua vida!


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Enviado por Tópico
luisroggia
Publicado: 04/06/2011 17:31  Atualizado: 04/06/2011 17:31
Colaborador
Usuário desde: 12/01/2011
Localidade: Joinville - SC
Mensagens: 2640
 Re: Telha de vidro
Oi!

Muito bom este texto, um simples toque e tudo pode mudar.


Beijo.

Enviado por Tópico
Transversal
Publicado: 08/06/2011 02:45  Atualizado: 08/06/2011 02:45
Colaborador
Usuário desde: 02/01/2011
Localidade: Fortaleza - Lisboa
Mensagens: 3687
 Re: Telha de vidro
Numa entrevista publicado no jornal “O Povo” em 26.09.1998 Rachel respondeu assim ao jornalista sobre vários assuntos (apenas um extracto da entrevista)
- A senhora já escreveu crónica, romance e até teatro. Qual desses géneros prefere?
Rachel - Eu não gosto de escrever. Escrevo porque esse é o meu ganha-pão.
- Se a senhora pudesse, então, ganhar a vida fazendo uma coisa de que realmente gostasse, o que faria?
Rachel - É, escrever é a única profissão que tenho. Não sei. Eu já pensei em ser atriz, mas nunca deu. Cheguei a escrever alguns textos para teatro, mas prudentemente fiquei nesses. Acho que não tenho vocação para nada mesmo, não. Quis ter uma porção de filhos e uma porção de netos, mas nunca tive. Tenho que me contentar com os filhos da Maria Luiza (risos).

Fico para aqui a imaginar, (impossível, é claro) se Rachel gostasse de escrever….
Superior.

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