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Fernando Pessoa : A espantosa realidade das cousas
em 04/06/2008 00:40:00 (9137 leituras)
Fernando Pessoa

Alberto Caeiro

A Espantosa Realidade das Cousas


A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.




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Enviado por Tópico
jessé barbosa de oli
Publicado: 04/06/2008 14:26  Atualizado: 04/06/2008 14:27
Da casa!
Usuário desde: 03/12/2007
Localidade: SALVADOR, Bahia
Mensagens: 334
 Re: A ESPANTOSA REALIDADE DAS COUSAS --- Alberto Caeiro
na minha concepção,
pessoa, como alberto caieiro,
lançou a pedra fundamental para
a poesia concreta,
pois ele trabalha muito com a
premissa da sublimação da realidade,
a sua supervalorização.
ele a apresenta,
não com o olhar frio, cientificista,
mas com olhar translúcido plástico e
emocionado, embora desprezando o derramamento,
com a beleza emanada da natureza das coisas em
seu estado primitivo.

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