Poemas, frases e mensagens de lobices

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de lobices

Porque te amo?

 
“…amo-te porque te amo… porque me sinto bem quanto te olho… quanto te toco… quando te beijo… quando sinto a tua pele perfumada junto da minha… quando te vejo sorrir para mim… quando ouço a tua voz… quando te ris… quando me tocas, me acaricias e me fazes sentir homem… amo-te quando me dizes que também me amas, quando me dizes gostar de mim, quando me olhas e vejo no teu olhar a tua alma e o reflexo da minha… quando sabemos que nada mais no mundo nos importa… quando sentimos que tudo o que gira à nossa volta está parado e somos o centro de tudo… amo-te quando te digo que te amo, quando te sussurro palavras ternas, quando ouço as que me dizes… amo-te quando me dás um mimo, um sabor, o roçar ao de leve ou mesmo forte… amo-te porque te amo… porque te sinto bem quando me olhas… quando me tocas… quando me beijas… quando sinto que sentes a minha pele… quando te sorrio… quando ouves a minha voz… quando me rio… quando te toco, quando te acaricio e te faço sentir voar… amo-te quando estou aqui ou aí… amo-te mesmo quando não estamos ou não somos… amo-te porque sei que te amo, porque sinto que te amo, porque vivo esse amor duma forma terna, doce, suave e pura mesmo quando os corpos se entrelaçam e vibram em loucura… amo-te assim, tão simples…tão tudo em ti e em mim…”
 
Porque te amo?

graal

 
“... avanço na direcção certa ainda que não saiba o caminho, mas avanço... não me deixo ficar a olhar para a vereda que já percorri... avanço em frente, passo a passo, com cuidado mas com força e determinação... não são os meus pés que caminham mas a minha alma, o meu sabor de caminhar e o meu saber de que o estou a fazer... avanço porque quero... porque espero... porque sei que vou encontrar... o que quer que seja ou qualquer que seja o meu destino, a minha meta, a minha linha de chegada (a linha de partida já se esvaíu da minha memória), eu sei que a recompensa está lá... seja ela minúscula ou enorme... mas não é o seu tamanho que me move... mas sim o ter de ser... o querer, o amor, o desejo de amar... o caminho mais nobre, mais salutar do ser humano: amar!... vou sem olhar para trás... afasto os escombros dos prédios destruídos da guerra que se travou dentro e fora de mim ao longo dos anos e que foram ficando ali à minha frente porque nada pode ficar para trás... não devemos olhar para trás, não, mas tudo o que passou vai connosco na nossa caminhada... é preciso, pois, afastar o entulho, o pó, as pedras aguçadas que nos cortam o ser e continuar a correr... a percorrer... a olhar em frente, erectos, de cabeça erguida, de olhar brilhante e não turvado por uma ou outra lágrima que teime em cair... apenas tenho de ir... e vou... avanço sem medos, sem receio do que vou encontrar... o que lá estiver será o que calhar, o que tiver de ser... o que lá estiver, no final da caminhada será apenas o meu tudo ou o meu nada... mas o que quer que seja, seja tudo ou seja o nada, o que quer que seja, será meu... meu para abraçar, para abarcar, para enlaçar, para gritar ao mundo que por mais desconhecido que seja o fim do caminho, devemos avançar, com ternura, com amor, com garra, com dor se preciso for, com todo o afinco, com todas as nossas forças na procura do nosso “graal”, na busca do sentido da nossa vida, para que no acto final, qualquer que ele seja, eu saiba que fiz tudo o que me foi possível para saber que valeu a pena, que nada perdi, que fui quem fui, que sou quem sou, que serei quem tiver de ser, no aceitar único de que o percurso certo e correcto é apenas saber e querer amar...”

Joaquim Nogueira
 
graal

hoje

 
...e porque hoje gotas de chuva também me lavaram a alma
...e porque hoje também despi meu corpo e me olhei inteiro
...e porque hoje senti a sombra da minha ausência
...e porque hoje sorri à solidão e não fechei a janela
...e porque hoje abri a porta e entrei dentro de mim
...e porque hoje berrei o silêncio e o grito calei
...aqui vim e me quedei sorrindo do choro que ainda não chorei...
 
hoje

poetar

 
"...eu queria compor um poema para ti... queria dedicar-te amor, a mais bela poesia que exprimisse a nostalgia das horas longe de ti... queria dizer-te quão triste é o ciúme que persiste e em minh´alma penetra... oh se eu fosse poeta!... Eu queria cantar o suavíssimo calor do teu olhar e depois rimar com o nosso amor... oh se eu fosse poeta!... Em estrofes dir-te-ia que és o sonho, és a magia que meu coração desperta... e cantaria no final um grande amor sem igual que em sonhos flutua... e com ternura e com paixão dar-te-ía o meu coração amando-te com todo o ardor, pois tu és somente o meu poetizar de amor!..."
 
poetar

elegia

 
"...eram extremamente apelativos… estavam ali à minha disposição… em cima da mesinha de cabeceira... era uma caixinha escura que ela usava para ter à mão os comprimidos que a faziam dormir... nunca liguei qualquer importância ao valor daquela caixinha e, no entanto, ela
"...eram extremamente apelativos… estavam ali à minha disposição… em cima da mesinha de cabeceira... era uma caixinha escura que ela usava para ter à mão os comprimidos que a faziam dormir... nunca liguei qualquer importância ao valor daquela caixinha e, no entanto, ela continha o passaporte para uma viagem, uma sem retorno... nunca houvera pensado nisso, excepto naquela noite… uma noite em que ela não estava ali deitada comigo (nunca mais estaria)… uma noite em que acabara de chegar de mais um bar e depois de ter ingerido um bom pedaço de álcool para me aquecer a alma tão fria e tão dormente que já nem a sentia... também, para que queria eu uma alma?... que é que ela me dá ou me faz?... a caixinha preta continuava ali... quantos comprimidos teria ela deixado desde a última vez que a encheu depois de os tirar da embalagem de marca do medicamento?... a minha mão direita estendeu-se para aquela caixinha preta tão apelativa como tão consoladora pelo imaginário que já me estava a provocar... não custaria nada e dormiria para sempre… tão bom... era disso que eu estava a precisar ou seria de mais um pouco de gin?... mas para tomar os comprimidos eu precisava de beber alguma coisa e essa coisa estava também ali à mão… debaixo da cama, talvez também deitada no chão por cima do tapete… teria ainda algum líquido?... o suficiente para engolir os comprimidos?... já não tinha forças para me levantar e ir buscar outra garrafa... a caixinha preta continuava ali e a minha mão já estava em cima dela... senti aquela textura (penso que era marfim) sob os meus trémulos dedos mas senti-a fria e um arrepio percorreu-me a coluna… ou teria sido outro tipo de arrepio?... não sei quanto tempo estive com aquela caixinha na mão... não sei quanto tempo demorei a tomar uma decisão... não sei quanto tempo a olhei com um turvo olhar... não sei porque razão não a segurei… dei por mim a olhar para ela sem saber para que é que ela servia e naquele momento apenas me apeteceu dormir… tão perto do derradeiro sono… tão desejado… ali tão à mão... reparei então que estava deitado sobre o lugar dela com o braço direito estendido para a mesinha de cabeceira segurando a caixinha preta que continha o passaporte para a derradeira viagem… tantas vezes assim estivemos… tantas vezes senti o seu calor, o seu respirar, o seu arfar… tantas vezes assim ficamos depois de fazermos amor... e, neste estúpido momento, repetia aquela posição estendendo a minha mão para uma viagem... não consegui conter o choro… não consegui aguentar as lágrimas… não consegui segurar a caixinha preta... não consegui partir... restou-me a certeza que no dia seguinte teria mais uma noite de frio..."



Joaquim Nogueira
 
elegia

desenho

 
"...desenhei meu corpo nas águas profundas do rio que em mim corre e nele me percorri em tons de azul, cor do céu que nunca morre... desenhei minha alma nas ondas do poderoso mar que fora de mim se move e nele a desenhei em tons de branco nobre, leves, mas sóbrios... desenhei meu corpo em minha alma e a mistura se fundiu em tons vermelhos de puro sangue... e minha alma, pária de si própria, desenhou no meu corpo a felicidade de se saber comigo e não mais solitária... desenhei, por fim, no mais profundo de mim, um campo de flores, de todas as cores, exalando todos os perfumes, completamente preenchidas com todas as vossas dores..."
 
desenho

toque

 
"... deito a cabeça no teu regaço... olho-te a face serena... e teus lábios sorriem... tuas mãos se envolvem nos meus cabelos e a massagem leva-me ao sonho... fecho os olhos e deixo-me vogar no teu corpo... dentro de ti... à tua volta... mesmo sem te tocar te sinto... tuas mãos tocam o meu ser como se nos meus lábios estivesse todo eu, como se a minha boca fosse todo o meu corpo... teus dedos leves e suaves me transportam, nesse toque, para lá de mim mesmo e me deixo ficar por momentos apenas nesse espaço, nesse limbo, nesse suave sentir de seda e com sede de um beijo... é esse beijo que acontece a seguir... é esse toque que me faz emergir de mim para imergir-me em ti... apenas um leve sabor a pétala duma qualquer flor... apenas um leve sabor e tudo o que nos rodeia a seguir é tão-somente o amor..."
 
toque

inexistente

 
“…tens razão, meu amor: nunca te escrevi uma carta de amor… interessante notar que mesmo num tom frio dito assim, sinto a dureza do saber que algo tão simples ainda não foi feito… talvez não tenha jeito… ou será apenas preconceito?... mas, na verdade, nunca te escrevi uma carta de amor, daquelas que levam as mágoas e as saudades
em torrentes turvas de rios alterosos em direcção a um mar onde o horizonte se confunde com as cores de majestosos tons… são cartas de amor em que as palavras se confundem com os sentimentos que queremos transmitir e não os sabemos… são cartas de amor em que as palavras se misturam numa amálgama de tonalidades que não duram… são cartas de amor que perduram no tempo sem um lamento mas onde o sentir de um breve sentimento mais não é do que o dizer da palavra em dado momento… são cartas de amor que não escapam ao estereotipo dos sons que se ouvem na escrita e se escrevem com a voz… o som que se debate dentro de nós sem sabermos que já não temos o poder de gritar a sós… cartas de amor dizendo o que não é preciso dizer… cartas de amor falando de coisas que sabemos sentir, possuir, ver… cartas de amor com palavras que transmitem o toque, o cheiro, a visão, o sabor e a audição dos nossos corpos em fusão… na verdade, meu amor, nunca te escrevi uma carta de amor… uma carta que repetisse o que desde o início sempre te disse: que te amo… para quê então, meu bem, escrever o que já se sabe, o que já se tem?... mas um dia vou tentar escrever-te uma carta de amor, uma carta que te leve as palavras que me preenchem e se derramem sobre ti num sabor a tudo o que qualquer homem e mulher podem querer: que se amem a valer sem preciso ter de escrever uma carta de amor, perfeita, bela, cheia de luz e de cor…”



Joaquim Nogueira
 
inexistente

amor de lobos

 
"...seriam cerca das 3 da madrugada quando na esquina da velha igreja daquela velha aldeia lá muito ao norte, quase a perder de vista a sua própria existência, se juntaram em silêncio 4 esbeltas mulheres de longos cabelos à solta, todas elas vestidas de branco... um branco alvo, como vestidas de noivas, sem véus nem grinaldas mas de branco... sentia-se um vento meio gélido naquele campo verde que se estendia para além das traseiras daquela velha igreja daquela velha aldeia... mas não se notou qualquer tremor de frio em nenhuma daquelas 4 esbeltas mulheres... a cor dos seus corpos roçava a cor do leite que, momentos antes haviam bebido dum mesmo canado... seus olhos negros, profundos, brilhavam quando os raios do luar daquela lua cheia lhes batiam nas faces em todo o seu fulgor... era uma lua grande, de prata, brilhando num brilho baço mas ao mesmo tempo ofuscante... deram-se as mãos umas às outras e continuaram o seu caminho... para trás ficava tão-somente um cheiro a flores... seus pés estavam nus e pareciam caminhar por sobre a erva daninha daquele campo verde... lá ao longe, um pouco mais para cima, divisava-se um morro e no cimo desse morro uma frondosa árvore, erguia os seus ramos numa espécie de posicionamento de espera e de aceitação... como que esperando por elas e pronta a abraçá-las... o silêncio era total e entre elas não se ouvia um único som... quem as visse de longe para cá daquela velha igreja daquela velha aldeia, pensaria que as 4 visões voavam ou pelo menos deslizavam... cada uma das que ficavam na ponta levava um cesto de verga coberto por pano branco de linho feito... e eis que chegaram aos pés da árvore... pousaram os 2 cestos de verga no chão e deram-se as mãos num círculo que abraçou o tronco da árvore frondosa e num misto de magia a árvore como que se baixou sobre elas como que as cobrindo num acto fálico enquanto as suas folhas roçavam os seus corpos... dos cestos, depois de terem desfeito o círculo, tiraram algo que não era visível aos olhos dos outros seres humanos e que não era possível descrever... entretanto, algures, num outro ponto daquela aldeia, deitado numa cama de doces sonhos, um homem alto, bem constituído fisicamente, com o corpo nu coberto de pelos negros, dormia e via-se que estava possuído por algum sonho de lascívio prazer, pois notava-se através da roupa da cama que o cobria que o seu sexo estava excitado e algumas gotas de suor lhe cobriam o peito forte... repentinamente, num passe de feitiço, esse "sonho" transportou-o para os pés daquela árvore frondosa onde se encontravam as 4 mulheres lindas vestidas de branco... ele olhou para ele mesmo e viu-se nu, tal como viera ao mundo e ao ver aquelas mulheres instintivamente levou as mãos numa tentativa de tapar o seu sexo erecto... a partir desse momento aquele homem entrou num espanto e seus olhos não queriam crer naquilo que estavam a ver... elas se começaram a despir e apenas tinham aquele vestido branco sobre as suas peles acetinadas cor de leite... e ele olhava... elas começaram a sorrir e os seus sorrisos eram como um convite ao sonho... daqueles cestos retiraram uns frascos que continham vários fluidos e começaram a untar os seus corpos... e ele olhava e começava a compreender o que via... elas o fizeram ver... uma se untava de mel, uma outra de untava de leite puro de ovelha uma outra de água salgada do mar e a outra de um creme que cheirava a jasmim... e ele não resistiu e o sexo se tornou novamente erecto e o seu corpo parou de tremer... aqueles corpos untados cintilavam quando os raios da lua cheia lhes batia na pele e elas continuaram com o ritual... todo o seu corpo foi untado incluindo os seios, o pescoço, as pernas,... apenas os cabelos soltos ficaram secos... então, elas se aproximaram daquele homem e se roçaram por ele de tal forma que o corpo dele ficou totalmente embebido daquela mistura de fluidos...apenas as mãos dele ficaram secas... e num acto quase que instintivo elas se deitaram no chão sobre os vestidos brancos que faziam de leito, o leito do Amor, o leito da procura do Amor, o leito da descoberta do Amor... e ele se misturou com elas e começou a possuí-las, uma a uma, e também numa mistura arbitrária de escolha... o seu corpo confundia-se agora com o corpo delas e já não existiam 4 mulheres ali... apenas existia uma única mulher onde ele se fundia numa escolha impossível... os ventres juntavam-se e os costados também... ele as tomou por detrás agarrando-se aos cabelos delas com as suas mãos possantes e puxava as cabeças delas num misto de prazer e dor, de agonia e êxtase, como se tudo se pudesse perder num só instante, numa avidez de gozo indescritível ... de repente ele sentiu os diversos odores que o cercavam e aos poucos foi deixando uma a uma até que ficou olhando aquela que cheirava a mar... e, nesse momento, algo de mágico se passou: um raio de luar atingiu-o e ele numa nova forma de sentir, viu lentamente o seu corpo transformar-se em lobo, um corpo coberto de pelo sedoso negro e brilhante ao mesmo tempo que a mulher que cheirava a mar se posicionava como fêmea do lobo... e ele a agarrou pelos cabelos puxando a sua cabeça para o seu peito e com firmeza a penetrou fundo num acto de posse total, num acto de prazer inimaginável onde a fusão foi possível tão-somente por magia... o seu corpo ofegou e o instinto animal veio ao de cima e, no mesmo momento em que lambia todo aquele mar, ele, num último uivo lancinante de prazer, espalhou sobre ela todo o fruto do seu Amor... então os corpos se misturaram e apenas se divisava um casal de lobos fazendo Amor... os seus corpos não conseguiam parar e num espasmo final ela se transformou em maresia, como que alva espuma misturada com o fluído dele... então, naquele silêncio de corpos se amando, um último uivo, não o dele mas o dela, se fez ouvir por aquela encosta abaixo, no preciso momento em que os primeiros raios de sol começavam ao longe, bem perto daquela velha igreja daquela velha aldeia, a despontar... nesse momento, o homem acordou de repente na sua cama e olhou e viu: uma mulher linda, vestida de branco, dormia profundamente ao seu lado..."
 
amor de lobos

acordei (última carta)

 
“…já é habitual eu acordar a meio da noite; é sempre naqueles intervalos entre o efeito das drogas que me dão; aproveitei sempre esses momentos para te escrever, meu amor; porém, estou convencida que esta será a minha última carta e, sinceramente, não sei o que te quero dizer… meu amado, meu bem, meu doce, meu tudo, meu ser, minha alma, minha única razão de existir: não sei sequer se irás ler estas minhas palavras; como é hábito e tu sabes, devem ser 4 da manhã; está na hora de mais uma dose e a enfermeira deve estar a chegar; restam-me poucos minutos e estas serão as últimas que vou poder te escrever; as outras cartas que te enviei, onde recordava tudo o que de belo e bom tivemos durante os tempos em que estivemos juntos, também não sei se foram parar às tuas doces mãos, (tão doces de todas as carícias que me levaram ao êxtase e ao delírio, tão suaves que eram, meu amor, tão doces que as sentia em mim como se minhas fossem, como se me pertencessem desde sempre); não sei se te disseram como estou, não sei se sabes no que me tornei… mas, há cerca de meia dúzia de dias (como se contam os dias aqui?... não me perguntes porque não te sei responder…) ouvi-os dizer que já não havia nada a fazer e que a única forma era o isolamento total e final… vão, pois, privar-me da única coisa que tinha vinda do exterior: a luz da lua nas noites frias porque sem ti e da luz do sol gelado porque não a teu lado; tiram-me também o bater das gotas da chuva que me faziam contar os segundos em que olhava o tecto e recordava tudo o que fomos… vão, portanto, enviar-me para longe de mim mesma, encharcar-me de drogas e mais drogas para que eu não possa reagir e gritar como tenho gritado estes últimos anos; gritado por ti, meu amor, gritado pela tua ausência, pelo amor que tivemos, por tudo de bom que passámos, por tudo o que está gravado na minha alma, na minha pele, no meu ser, na minha totalidade… como dizer-lhes que não estou louca, como dizer-lhes que o que sou é apenas o resultado do que fomos; como dizer-lhes que nada tenho porque apenas e só tu me faltas e que nada mais desejo que não seja o que um dia fomos… queria, antes de ir, antes (eu sei) de morrer de falta de ti, olhar-te apenas mais uma vez; fixar teus olhos e sorrir no teu sorriso; tocar teus lábios e tornar-me num beijo; sentir tuas mãos nos meus seios e ser eu mesma esse toque; sentir teu sexo me penetrar e ser eu mesma a penetração… meu amor, apenas uma última vez e eu ficaria curada… mas tenho consciência (sabes aquela consciência que nos resta no intervalo curto entre as injecções) de que tal não vai acontecer e sei que o meu túmulo estará naquelas 4 paredes sem grades porque sem janelas; já tinha ouvido falar delas quando cá entrei… ouço passos; deve ser a enfermeira do turno da noite; deve ser a próxima toma de mais um calmante… o habitual, a norma, o gesto, o ritual, a morte em ensaio… sei que já não vou ter mais tempo; o tempo terminou… vou levar comigo todas as recordações que me restam porque nada mais tenho nem nada mais quero: quero apenas que não me tirem a recordação do som do teu riso, o sabor do teu toque, o brilho do teu olhar… isso eles não me conseguem tirar… é isso o que vou levar comigo… quando partir para sempre deste corpo físico que já nada sente, irás dentro da minha alma e serei sempre feliz para onde quer que eu vá, tu estarás lá… eu sei, meu amor, eu sei… me despeço para todo o sempre… deixo-te a minha paz, a paz que obtive na loucura do nosso amor, a paz que me toca ao de leve enquanto sonho contigo… nada mais resta… perdoa-me por te ter amado tanto; perdoa-me por não conseguir deixar de te amar; perdoa-me por te levar comigo no meu coração… adeus, meu amor..."
…a tua Maria
 
acordei (última carta)

acordei (primeira carta)

 
“...acordei por volta das 3 e 15 da manhã... sim, era isso... olhei para o relógio da mesinha de cabeceira e marcava 3 e 15... é um relógio daqueles de ponteiros luminosos. Olhei para o tecto sem saber porque razão acordara, mas lembro-me que talvez tenha ouvido a porta de um carro, lá fora, a bater ao fechar-se... olhei de seguida para os buraquinhos das frinchas da persiana da janela e divisei a luz da noite... a rua tem candeeiros e vê-se essa luz ainda que difusa mas vê-se. Senti o corpo morno e passei a minha mão pelos meus seios acariciando os bicos do peito. Deixei a minha mão descer pela barriga até sentir o meu sexo e desejei ter-te ali comigo... a minha mão acariciou os pelos púbicos e lentamente introduzi um dedo na minha vagina. Deixei-me estar assim durante uns momentos e lembrei-me de ti... lembrei-me de todos os momentos que te tive e que a meu lado te senti... Sabes, quando me abraçavas e me sentia pequenina, dessa forma mágica que tens de me abraçar... quando me beijavas e me sentia desfalecer ao sentir a humidade dos teus lábios... sabes, não sabes? Sei que sim. Lembras-te daquele dia em que nos encontramos pela primeira vez? O dia em que nos olhamos e os nossos corações bateram? Aquele dia mágico que marcou o resto dos outros nossos dias?
...Acordei sem saber por razão acordava mas penso que a saudade marca o sonho e, se calhar, estaria a sonhar contigo. Lembras-te daquele dia em que estavas sentado no sofá da nossa sala e me ajoelhei a teus pés? Lembras-te de termos feito amor na mesa da cozinha? Lembras-te daquelas férias que tivemos na montanha e lembras-te de certeza de termos feito amor deitados naquele chão branco de neve... lembras-te de, no fim, teres lavado o teu sexo com a fria neve que estava ao nosso lado? Lembras-te como ele ficou pequenino por causa do frio? Lembras-te como nos rimos às gargalhadas? E daquele dia que fizemos amor no carro? A meio deste um grito porque te aleijaste numa perna no travão de mão? Sim, porque não te haverias de lembrar, se eu me lembro tão bem... e daquela outra vez na praia, escondidos numa duna, quando eu fiquei cheia de areia...
...Acordei às 3 e 15 e já são 3 e 40!... 25 minutos a pensar nisto... sinto-te em mim, meu amor e não estás aqui presente... mas sinto-te... sei que sou eu que me acaricio mas é como se fosses tu... sinto como se fossem as tuas mãos, o teu corpo quente, o teu hálito a maçã que costumavas comer a toda a hora... eras doido por maçãs... nunca soube porquê... nunca considerei isso importante mas era importante para ti, não era? Os teus beijos quentes e húmidos num saltitar constante entre os meus mamilos e a minha boca. Como beijavas tão bem... mas sei que mesmo que beijasses mal, para mim era sempre bom, doce, quente, por vezes abrasador... como eu costumava dizer que acendias em mim o fogo da lareira sempre acesa... eu sei que fui sempre “louca” por ti mas tu sempre gostaste de mim assim... eu sei que sim... eu sentia que tu gostavas de mim assim... tu também eras louco, sabias? Sim, a tua loucura me incendiava e quando nos rebolávamos na cama parecia que tudo se partia e a cama chiava... como nós nos riamos disso... coisas giras e loucas, não eram? Meu bem, como me lembro de ti assim? Porque acordei eu a pensar em ti? Porque é que ainda penso em ti ou porque é que estou sempre a pensar em ti? Sabes que não há um único momento da minha vida que não pense em ti?
...Eu sei, eu sei que dizem que estou louca... mas eles não sabem que já não estou louca, já estive, sim já estive louca por ti... agora já não estou... estou feliz, triste mas feliz e tu sabes porquê, não sabes? Sabes, eu sei que sabes.
...Já são 4 da manhã. Acho que vou dormir um pouco. Penso que vou sonhar contigo e depois... depois voltar a acordar para pensar mais uma vez nos nossos dias felizes, nos dias que passamos juntos, naqueles dias em que a loucura era permitida e nada mais interessava... até ao dia em que te foste. Nunca soube porquê, porque me deixaste, porque não me quiseste mais... porquê, meu amor? O sono está a regressar... sabes, deram-me mais uma injecção e vou ter de dormir, sim? Eu vou dormir mais um pouco, meu amor... mais um pouco... mais um pouco... como ainda te amo... sim, serei sempre a tua Maria, meu amor... tua para sempre... para sempre...
a tua Maria..."
 
acordei (primeira carta)

dizer

 
“...eu tinha qualquer coisa para te dizer, algo que já anda dentro de mim há milhares de anos e nunca tive essa oportunidade... há dias, quando surgiste na minha vida, um pouco alheada do próprio mundo, quando ali surgiste espelhada na minha
“...eu tinha qualquer coisa para te dizer, algo que já anda dentro de mim há milhares de anos e nunca tive essa oportunidade... há dias, quando surgiste na minha vida, um pouco alheada do próprio mundo, quando ali surgiste espelhada na minha alma, eu estive quase para te dizer... penso que me faltou a coragem e a voz se me embargou… calei dentro de mim o que deveria ter gritado… talvez tenha esquecido a forma de gritar, talvez só saiba calar... não sei... já não sei... mas eu tinha qualquer coisa para te dizer, algo que me possui e me rasga a mente, num acto demente do meu próprio ser de aqui estar sem saber falar, sem saber o que te dizer, sem saber gritar o que tanto tenho calado... milhares de anos de silêncio dentro de mim... milhares de anos de solidão da minha própria voz… milhares de anos de espera que surjas ali à esquina, em qualquer lugar, e num momento de paz eu te possa gritar todo o meu amor... dor que dói e me corrói a alma de tanto calar esta tão louca forma de te amar... dor de aqui estar e não saber o que te dizer, de não saber traduzir esta minha forma de tão-somente te sorrir... e sorrio-te a todo o instante, aqui, ali, em qualquer lugar ainda que distante... não me preocupa se me ouves, se escondes as palavras que tão docemente me são devolvidas porque não enviadas… doces palavras de paz, ternura, carinho, amor... em doses de candura mas plenas de sabor... estão aqui mas sei que tinha qualquer coisa para te dizer… como posso gritar se a voz se me tolda em silêncios ocos e sem eco ou se com eco ecoam apenas dentro do meu vazio, um vazio que não preencho ou se preencho apenas o preencho com a minha própria alma já de si tão gasta por durante todos estes milhares de anos não me teres dito que só gritar não basta!...”

Joaquim Nogueira
 
dizer

despedida

 
Acabo de chegar de um lugar indeterminado; não o sei localizar; fica algures na minha memória, já um pouco esbatida pelo tempo; gastei muito do meu tempo a lembrar o que não deveria ter sido recordado. Mas o arrependimento não trás nada de novo, apenas revolve o velho e não deixámos de ser o que somos, apenas almas errantes neste mundo de contrastes e de negações. Somos apenas e tão somente os "dejectos" dum mundo imperfeito. Não nos foi dada a possibilidade de esboçar a nossa própria vida e assim temos de nos contentar com os constantes ensaios que fazem de nós, indeterminando a solução final.Perdemo-nos na amálgama do tempo e da insanidade.Já não somos quem queremos ser.Somos apenas o que nos "dão" para ser.Permitem-nos viver de memórias e de factos que de novo se transformam em lembranças.Mas, lembrar para quê? Para sofrer? Para verificar que afinal de contas de nada serviu o esboço que de mim fizeram em constantes ensaios que a nada me levaram? Apenas à negação, só me levaram à negação.Não sei quem sou. Talvez nem queira saber: Não foi para isso que aqui vim; vim a este mundo para ser feliz, disseram-me um dia; e eu, parvo, acreditei.Vivi correndo nesse sentido; esbocei sorrisos e ensaiei risadas. Tropecei, caí mas de novo me levantava. O horizonte estava sempre perto e me bastava estender a mão; a ajuda nunca me era negada; acreditei que o esboço que de mim fizeram em alguma coisa de bom se haveria de tornar, um dia, quando não sabia, mas haveria de me realizar.Engano. Puro engano. Quando dei por mim estava caído, só, perdido, fendido em mil pedaços de mim, dorido de dores que não imaginava existirem.Mesmo assim olhava em frente na expectativa de que o esboço que fizeram de mim, depois de tantos e tantos ensaios, me permitissem olhar e sorrir de novo. Fiz isso muitas vezes. E havia sempre uma mão, ali, expectante, sorrindo para mim (engano). Para que foi que me sorriram? Porque me enganaram? Porque me disseram que sim? Porque razão me arrastei até aqui?Porquê?Que ganhei eu?Derrota após derrota?Claro que ganhei muitas batalhas, claro que sorri muitas vezes, claro que dei gritos de espanto e de prazer, claro que sim, mas, para quê? Para chegar a este fim?Para verificar que tudo o que vivi foi uma dramatização de mais uma história igual a tantas outras histórias de amor e sofrimento?Foi para isso?Foi para isso que me trouxeram até aqui?Foi para verificar que "isso" não existe? E, o que é o "isso"? O "isso" é um sarcástico riso dum engano simples mas preciso; dizem-nos: Vai e sê feliz, foi para isso que aqui vieste. E eu vim, olhando, sorrindo, esboçando e ensaiando o que poderia vir a ser e a ter: um amor, o amor!Amei e fui amado.Quis ficar pela simples razão de ter gostado. Então amei e fui novamente amado e numa infindável sequência de vidas eu percebi que estava a ser traido pelo esboço que fizeram de mim; o ensaio não tinha tido ensaio-geral; o pano subira para a representação da vida e eu não sabia o papel.Destruiram-me, logo ali, logo à partida.Negaram-me a possibilidade de estudar melhor as deixas e as palavras, os tregeitos e a forma de colocar o corpo no palco da vida; o esboço havia sido mal concebido; o ensaio não havia servido de nada.
Não havia ponto.
Não havia nada. No entanto, pensei que havia tudo e de nada me servi a não ser da minha inadaptação ao papel. Fui um mau actor
As lágrimas caiem-me agora e ninguém as vê; só eu as sinto aqui ao meu redor; os olhos se me toldam numa profunda mágoa e a tristeza me invade.
Quis amar e ser amado.
E, sou-o!
Para quê?
Onde é que ele está? Aqui, ao meu lado? Ali, depois daquela esquina? Depois, um pouco mais para além do horizonte? Ou a seguir àquele arco-íris colorido de vida mas que nada mais me traz para além dessas mesmas cores.
Isto não é um grito.
É para dizer que não me contratem mais; não há esboço e ensaio que cheguem para me reconstruirem de novo; a "argamassa" foi totalmente utilizada quando havia um sorriso, quando havia riso e olhos brilhantes.
Já não sei o papel de cor e já não consigo ler.
No entanto, o amor não precisa de esboços nem de ensaios; no entanto, o amor não precisa de saber o papel, nem de ponto, nem de palco; o amor precisa de actor, de alguém que grite que está vivo, que ainda não perdeu a única "coisa" que tem para dar e isso está ainda dentro do meu coração, ainda pulsa e me diz que é, que existe, que sente, que vibra.
Grito, no meio de uma lágrima escorrendo sobre um sorriso, que por muitos esboços e ensaios, eu ainda o sinto e que esse amor (latente, vivo) não acabará nunca, morrerá comigo, levá-lo-ei para onde eu for, será presa de mim mas não estará preso em mim, será livre de ser o que tiver de ser, será o advir.
 
despedida

ensaio sobre a solidão

 
“…depressa me canso de mim... olho à minha volta e só vejo recordações... uma terna claridade invade o meu quarto e me rodeia de mansinho... já reparei várias vezes: vem sempre acompanhada do silêncio!... nunca soube o porquê de tal evento... é uma luz difusa, lenta, como
“…depressa me canso de mim... olho à minha volta e só vejo recordações... uma terna claridade invade o meu quarto e me rodeia de mansinho... já reparei várias vezes: vem sempre acompanhada do silêncio!... nunca soube o porquê de tal evento... é uma luz difusa, lenta, como que surgindo a medo e com ela, um opaco silêncio… algo que nada traz a não ser paz... mas trazê-la já é bom... e é nesses momentos que me sinto só... e sabem porquê?... porque não tenho com quem partilhar esse momento!... algo que sempre desejei fazer um dia na minha vida: partilhar a minha solidão... dizer a alguém: “…Vês?... Estás a ouvir?... A minha solidão está aqui, é isto que vive aqui comigo... Entendes?...”… mas nunca consegui e nunca o consegui porque nos momentos em que a solidão me visita eu nunca estou acompanhado… engano, estar acompanhado estou mas apenas de mim mesmo e dessa luz e desse silêncio... já somos três... estendo-me então no leito dessa luz e deixo-me levar pelo barulho do silêncio que me invade... nunca é tarde para experimentar novas sensações, só que esta é já demasiadamente minha conhecida e então apenas nos olhamos e nos aceitamos mutuamente... nada mais fazemos senão partilhar aquele momento, uma partilha a três numa solidão solitária de um só... estendido nela e com o silêncio deitado a meu lado, olhamos o tecto que lentamente se separa de nós em tons de cinzentos cada vez mais escuros… passo os braços pelo silêncio e aperto-o de encontro ao meu peito... sinto o seu respirar lento e compassado… é um som simpático, eu sei, mas ao mesmo tempo ousado na medida em que invade o som do bater do meu coração… e o silêncio deixa de ser silêncio para ser um baque surdo ritmado aqui, ao meu lado, deitado... no entanto, continuo abraçado a ele e ele sente-se bem porque acarinhado... é um abraço puro mas forte… ingénuo mas apaixonado... é apenas um abraço de silêncio compartilhado num leito de claridade a escurecer em lentos tons que tem o anoitecer... porém, já quando o tecto se separa de nós e nos abandona entregues que ficámos à luz das trevas que entretanto nos envolvem, o silêncio se aperta contra mim e me possui... penetra-me fundo e a respiração torna-se ofegante, sufocante... o que até então era um prazer compartilhado passa a ser dor e algo que corrompe... penetra-me cada vez mais fundo e a dor aumenta... o bater e o som do meu coração ultrapassa o silêncio que entretanto se esvai num orgasmo de sons delirantes de espasmos gigantes que se avolumam dentro de mim... o tecto já não existe, a obscuridade ainda persiste com mais intensidade... é um estar sem vida, sem morte e sem idade... apenas habita em mim numa eterna cumplicidade... respiro o espaço que me rodeia... e a escuridão cai sobre tudo e me envolve como uma teia... já tenho mais uma companhia... o doce sono vem de mansinho amparar meu corpo e cobre-o com carinho... adormeço lento, extenuado de tanta amargura, numa vã procura do próximo amanhecer que de novo me vai trazer o fim de tarde, neste terno ciclo de amor e ódio em que espero pela eternidade…”



Joaquim Nogueira
 
ensaio sobre a solidão

equilíbrio

 
“…Há uma coisa que é necessário definir: todos nós, quando escrevemos (ou falamos), dizemos coisas reais e dizemos coisas irreais... fazemos um misto de retórica vã e não só… colocamos muito de nós e também muito daquilo que vai no nosso imaginário… não só falamos do que
“…Há uma coisa que é necessário definir: todos nós, quando escrevemos (ou falamos), dizemos coisas reais e dizemos coisas irreais... fazemos um misto de retórica vã e não só… colocamos muito de nós e também muito daquilo que vai no nosso imaginário… não só falamos do que sabemos como também falamos do que não sabemos mas, principalmente, falamos com a Alma, com aquilo a que eu chamo de "desejo"... falamos do que "desejaríamos" que assim fosse... quando não "foi assim" então fala-se do desejo de não ter sido como desejáramos que tivesse sido... somos todos duma ambiguidade angustiante (quer se queira admitir isto ou não)… mentimos a nós mesmos para nos desculparmos de tudo, só que nos esquecemos que não somos culpados de nada... a ilusão não está em nós mas em tudo o que nos é dado como perceptível, ou seja, o que nos rodeia é que pode ser ilusão… nós não somos uma ilusão... ela gira à nossa volta e tenta-nos de forma a que se perca a noção do que é a verdade e do que é a mentira… ficamos, então, apenas com o que temos… e o que é que temos?... a esperança de estarmos enganados ou de nos termos enganado e de que há ou vai haver solução... desesperadamente procuramos resolver esse problema... doutras vezes, desistimos e deixamos que tudo "morra" no limbo do esquecimento… no entanto, esse limbo é também ele mesmo uma ilusão pois o esquecimento não é viável… não podemos "cortar" ou "apagar" a memória... e esta é a que nos devora… engole-nos por vezes duma forma assustadora e noutras vezes duma forma mais suave mas não deixa nunca de nos engolir... somos como que absorvidos por esse buraco negro que é a lembrança… lembramos tudo, principalmente o bom porque subconscientemente escondemos num recanto da nossa memória tudo o que foi mau… até porque nunca tivemos a culpa do mal ou do mau acontecido... somos uns eternos inocentes... fazemos assim, ao longo da vida, exorcismos aos nossos demónios em vez de lançarmos louvores aos nossos anjos… passamos uma vida inteira a lamentar o inlamentável em vez de nos alegrarmos com tudo o que não deve ser esquecido... e tudo, tanto o bom como o mau, deve ser contabilizado na nossa passagem por esta dimensão do aqui e agora... e só há uma forma de se "conviver" nesse estádio de vida: é aceitar o que nos é dado viver… é aceitar o que nos é dado pois nada daquilo que "temos" é nosso… foi-nos concedido passar por isso, foi-nos concedido vivermos nisso, foi-nos concedido vivenciar determinados factos, factos estes que serão única e exclusivamente nossos e de mais ninguém… mais ninguém no universo sente o que eu sinto, mais ninguém no universo sente o que tu sentes…. somos seres únicos, individuais, solitários e totalmente imperfeitos... vamos a caminho da perfeição mas que tarda em chegar... vamos ter muito que caminhar ainda até conseguirmos a espiritualidade do ser... porém e como ainda somos imperfeitos é-nos "concedida" a capacidade de "chorar"... é por isso que nada nos satisfaz... é por isso que buscamos a felicidade (quando ela está aqui, dentro de nós)... é por isso que sofremos... é por sermos ainda imperfeitos que não sabemos (ainda não aprendemos) aceitar... no que me diz respeito, tento duma forma lenta mas sistemática, tentar aceitar mas, na verdade vos digo, que não é fácil e, por vezes, preciso de "gritar" e de usar a tal forma de equilíbrio que me permita lentamente sentir o caminho que piso numa caminhada que sei tenho de fazer, sem olhar para o caminho mas apenas com a vontade enorme e grandiosa de caminhar…”

Joaquim Nogueira
 
equilíbrio

acordei (segunda carta)

 
"...continuo a acordar todas as noites... não há forma de o evitar... a tua ausência incendeia-me os sentidos... a tua falta provoca-me esta ânsia de te sentir presente... sofro neste sofrimento sofrido de dor e solidão...já não sei quem sou... também não interessa... lembras-te da última carta que te escrevi... sim, daquela em que acordei às 3 e 15 da manhã? Essa...sim, quando senti a tua falta e me acariciei como se fosses tu que o estivesses a fazer... oh meu amor, como sinto a tua falta!...
Não, não sei que horas são... até o relógio me tiraram deste sepulcro... olho pelas frinchas da janela e vejo luar... não sei a quantos estamos... mas isso tem importância? Que valor terá o dia em que me encontro se não te encontro num só momento? Desespero neste tormento de sentir a tua falta e não te sentir a presença... Como poderia sentir se tudo o que sinto é dor? Todos os nossos momentos me passam pela memória e esta lembrança chora, chora como se fosse ela a minha própria alma e eu não existisse...
Aqui onde estou não me lembro do que sou, só me lembro de ti e de todos os momentos em que estive contigo e contigo vivi... Sim, agora não vivo, apenas recordo... Dizem que recordar é viver... oh meu amor como pode ser viver se cada vez que me lembro, sinto que estou a morrer... as tuas mãos estão aqui no meu peito apertando-me os seios como tu tanto gostavas de fazer... a tua boca na minha boca e a humidade da tua língua na minha língua... o doce beijo nos meus mamilos e como as tuas mãos me penetravam com doçura e força ao mesmo tempo... oh meu bem, como te amo tanto... como te quero tanto... oh meu bem que lágrimas tão amargas estas que broto a todo o momento... olha, devem ser 4 da manhã... vem aí a enfermeira com a injecção do costume... continuam a dizer que esta minha loucura não tem cura... eu sei que não tem, como poderia ter? Como me posso curar da tua ausência? Como posso viver nesta minha morte? Não sei meu amor, não sei.
A enfermeira me aconchegou os cobertores... sabes, está frio e sinto frio dentro de mim... já não consigo falar... apenas olho no vazio... neste vazio que me preenche... Mas não preciso de mais nada, basta-me a lembrança dos momentos que vivemos... basta-me esta dor que vive comigo... bastam-me estas lágrimas... o meu pão de cada dia... o meu alimento neste vazio... sinto os olhos pesados... sei que vou dormir mais um pouco mas estou feliz pois vou dormir contigo nos meus braços, nestes braços que não te sentindo te lembram, te tocam, te apertam contra mim... lembras-te de quando adormecíamos assim? Como era bom acordar a meio da noite com os braços dormentes e sentir o calor do teu corpo abrasar este meu ser que de tanto te querer te perdeu... oh meu amor, como te amo... como sinto a tua ausência... vou dormir... até mais logo... lembra-te de mim como me lembro de ti... um resto de noite feliz, meu amor...
a tua Maria..."
 
acordei (segunda carta)

antítese

 
"...Porque te sentas de pernas cruzadas sobre a nudez do teu silêncio? Para te ouvires desejando não ouvir o que não és capaz de pensar? Porque te sentas de costas voltadas à treva se da treva vem a luz que te cega? Para não olhares, para não veres o que sempre desejaste ver? Porque me dizes que sim quando do teu peito sai um gritante não? Para não teres de balbuciar um talvez? Porque pensas que pensas o que não pensas? Para pensares no que eu penso que tu pensas? Não, o melhor é mesmo não pensares. Porque sentes que a vida te foge por entre os dedos se as tuas mãos estão presas e cheias de dúvidas? Porque desejas libertação se o que intimamente queres é estar quieto na bonomia do turbilhão? Porque calas o teu grito se do fundo da tua mansarda revelas a negrura da alma que te compõe o sentir? Porque não mentes se é tão doce mentir? Porque não calcas a doçura do mel? Porque não espezinhas a palavra calada? Porque não escreves o nada que temos para dizer? Que te disse eu que tu já não soubesses? Aprendeste algo mais para além daquilo que já não sabias? Que sabes tu da ignorância que te cerca se a certeza de saber é apenas uma incógnita que nos abala a consciência de nada sabermos, ou apenas de sabermos que nada sabemos? Para que viemos aqui? Para que é que estamos aqui? Para dizermos tudo quando apenas dizemos nada?..."

Joaquim Nogueira
 
antítese

saudades

 
“…tenho saudades tuas... queria ter-te aqui comigo, a meu lado, de mãos dadas ou de olhos nos olhos... cingir-te a cintura e apertar-te contra mim e sentir teu corpo... desejar o teu desejo... ouvir teu coração bater com a minha face sobre o teu peito... beijar-te a boca e saber-me dentro de ti... sentir-me mais uma vez como as muitas que senti... tenho saudades tuas... chamar pelo teu nome... ouvir a minha voz pronunciar esse som e saber-me respondido com o teu sorrir... estar onde estás e saber-me contigo, aberto de mim para te receber em plenitude... entrar no teu ser e saber-me lá residente, não ontem nem hoje mas, sempre... perder-me no teu labirinto e jamais encontrar a saída… viver os caminhos e as esquinas que se cruzassem à nossa frente e deixar de conhecer o tempo que nos cerca… olvidar a dor da ausência do teu doce amar... como tenho saudades tuas...”

Joaquim Nogueira

“…tenho saudades tuas... queria ter-te aqui comigo, a meu lado, de mãos dadas ou de olhos nos olhos... cingir-te a cintura e apertar-te contra mim e sentir teu corpo... desejar o teu desejo... ouvir teu coração bater com a minha face sobre o teu peito... beijar-te a boca e saber-me dentro de ti... sentir-me mais uma vez como as muitas que senti... tenho saudades tuas... chamar pelo teu nome... ouvir a minha voz pronunciar esse som e saber-me respondido com o teu sorrir... estar onde estás e saber-me contigo, aberto de mim para te receber em plenitude... entrar no teu ser e saber-me lá residente, não ontem nem hoje mas, sempre... perder-me no teu labirinto e jamais encontrar a saída… viver os caminhos e as esquinas que se cruzassem à nossa frente e deixar de conhecer o tempo que nos cerca… olvidar a dor da ausência do teu doce amar... como tenho saudades tuas...”

Joaquim Nogueira
 
saudades

desejo

 
...te vejo ali, parada, me olhando só... não há palavras, nem medos, nem lágrimas... há apenas um olhar profundo e um toque suave como se fosse o toque mais importante deste mundo... te olho e te fixo a alma... te possuo mesmo antes de te tocar, de te amar, até mesmo antes de te olhar... é tudo muito mais forte do que o meu querer... olhar-te bem dentro mesmo sem te ver... sentir-te só de te desejar, ali, parada numa pose linda, somente a me olhar... fixo tua boca e te sorvo completa... te abraço sem te abraçar... te afago sem afagar... te penetro sem te penetrar... está tudo ali, em ti, a meu lado... basta te desejar... e teus olhos já me possuiram... e teus olhos já me abraçaram... e teus olhos já me sentiram... ali, sem questionar, te estendo a mão... vejo teu corpo a arfar.... e sentes minhas garras te tocar... e teu corpo em minha alma se entregar... tudo tão simples: apenas o desejo de te desejar...
 
desejo

e em ti me eternizo

 
"...Os meus olhos pousam em ti e todos os meus sentidos te olham num delirar mútuo de atenção... Vejo o teu corpo e deleito-me na tua alvura... Cheiro o teu cheiro e aspiro a tranquilidade da tua paz... Ouço o teu respirar lento, como um lamento que não lamento... As minhas mãos tocam os teus cabelos e envolvem-se neles... Acerco-me de ti e te toco... Te sinto global e ali inteira frente a mim... Beijo a tua boca e tudo se torna como num festim de doces carícias e sabor a sal... Estou inteiro no teu corpo inteiro e me sinto nele como sinto o teu corpo em mim... É apenas um abraço, um enlace de braços que apertam sem apertar, sentindo apenas o teu respirar... Minhas mãos percorrem a tua pele acetinada linda... Fecho os olhos procurando apenas sentir... E sinto o desejo crescer em mim e o teu arfar sobe de tom... Como é bom... A minha boca se cola na tua boca e a minha língua se funde dentro dela como se da tua se tratasse... É apenas mais um enlace... Sinto o teu peito quente junto ao meu e beijo teus mamilos num acto de procura da loucura... Loucura que me invade lentamente, premente ali presente ou então como se tudo mais estivesse ausente... Meus braços te envolvem e se descobrem momento a momento como se fosse a primeira vez que no teu corpo se movem... Sinto o cálido odor do teu corpo quente de amor, oferecendo-se como numa espécie de orgia sem pudor... Minhas mãos tacteiam centímetro a centímetro toda a tua pele, todos os recantos de teus encantos e se encontram, de repente, sobre o teu ventre quente, dolente... Afago tuas coxas e as tuas ancas e as aperto contra mim... Procuro o teu sexo e o acaricio... Beijo-te completamente num único beijo e me torno desejo do teu próprio desejo... Te envolvo num abraço mais e te penetro... És tu que me possuis... Não te tenho, és tu que me tens... Movimentos se entrelaçam como se não fossemos dois mas um só... Os nossos corpos se fundem num arfar profundo de loucura... Já não sei o que sou, apenas em ti estou... Eu sou tu e tu és eu numa fusão de ser e estar... Na verdade és tu que me possuis, eu não te tenho, és tu que me tens, em ti eu me dou...E em ti me eternizo..."
 
e em ti me eternizo