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O tempo é um malvado de um vândalo

 
Teria pouco mais de vinte anos quando a vi entrar por aquela porta, carregando todas as certezas que conseguira extrair dos livros em que estudara. Vinha de mão dada com a irreverência da sua juventude, mostrando-se airosa em cada passo seguro que dava. No olhar, trazia ainda todos os sonhos do mundo, que fazia questão de ordenar nas linhas daquele caderninho de capas rosa, que, de quando em vez, sacava da sacola e os ia espreitar. Embevecida no seu mundo, escrevia, riscava, voltava a escrever de novo. E entre toques de telemóvel e outras tantas chamadas perdidas, lá ia compondo como quem compunha poemas, aqueles que deveriam ser os seus projectos de vida de então. Férias para aqui e para ali, viagens a perder de vista, não fosse o mundo fugir com toda a sua fortuna!
"Ah! Então e o Tomé? Não esquecer de levar o Tomé!" --- Dizia para si mesma de cada vez que fazia a mala. O Tomé era um sortudo boneco de peluche, com honras de acompanhante privado, imprescindível e insubstituível companheiro de aventuras, com quem sempre viajava, mundo fora.
Namoros que não foram, desejos flamejantes no olhar lascivo dos homens que em seu redor saltitavam como gafanhotos, amores e desamores de uma noite apenas e outros desaires que se impunham pela urgência do momento. E desilusões, tantas... sempre as malvadas das desilusões que nos trespassam a alma, ao virar de qualquer esquina da vida!
Mas quê? Quase sem dar por isso, foi deixando que o manhoso do tempo lhe assaltasse e vandalizasse os projectos, entretida que andava com as promessas de uma felicidade, que, no fim de contas, não passava de um faz de conta.
Hoje, já não a vejo escrever no caderno de capas rosa, nem tampouco lhe encontro nos olhos os sonhos que antes lhe escorriam até ao sorriso.
Mas amanhã, é sempre um novo dia. A esperança renasce como fénix renasceu das cinzas!


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*... vivo na renovação dos sentidos, junto da antiguidade das lembranças, em frente das emoções...»

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cleo
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Enviado por Tópico
Valdevinoxis
Publicado: 24/09/2011 00:21  Atualizado: 24/09/2011 00:21
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 Re: O tempo é um malvado de um vândalo
Bem escrito, cleo.

Será que a terceira pessoa não é uma projecção da primeira?

Gostei de ler pela forma limpa e fácil do texto. Dá mesmo a sensação que não foi preciso pensar nele, simplesmente foi saindo e no instante ficou nascido.

Valdevinoxis