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Desvario da madrugada

 
E de súbito, num impulso abrupto, arranquei a máscara que tinha presa à carne e deixei que o sangue jorrasse pelo sobrado fora. Ali, mesmo ao lado, acenava-me com trejeitos cúmplices uma porta escancarada, que, ao que se sabia, quem ousasse por si passar jamais por lá voltaria!
Quis fazer o mesmo ao corpo, mas a cobardia camuflada pelo sorriso que os lábios da máscara ainda ostentava e os murmúrios inaudíveis e imperceptíveis nos ecos das palavras ditas ao longo de um tempo que já não contava e agora se diluía nos salpicos de uma vida, não me deixaram.
Um braço pendia do corpo inanimado, segurando aquele rosto decapitado que se mantinha inexplicavelmente firme na mão que o segurava, talvez na esperança de que ainda pudesse voltar ao sítio de onde havia sido arrancada à força.
Mas as poderosas raízes que entretanto se tinham criado, precisamente no sítio onde deveriam ter nascido as asas, rasgando a pele virgem e agarrando-se às paredes de um muro empedrado, rompendo as frestas como serpentes que se esgueiram e desaparecem na escuridão, desaguando num ninho viscoso e bafiento, onde, enroladas sobre si mesmas em orgias de acasalamento intermináveis, se reproduzem às centenas.
Essas raízes, as tais que o impediram de voar, são as mesmas que agora o mantêm ali suspenso e tombado sobre a culpa do acto praticado, num acesso de loucura ou desespero, como se este fosse um troféu da morte e a prova viva da inevitabilidade da evidência, da fraqueza da alma humana.
É tão ténue e frágil a linha que prende uma vida, tornando insustentável o peso da leveza que a segura...


Publicação original - 22/07/2009


*... vivo na renovação dos sentidos, junto da antiguidade das lembranças, em frente das emoções...»

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cleo
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