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Poemas : 

Fernado Pessoa - Álvaro de Campos - com as malas feitas e tudo a bordo

 
Fernado Pessoa - Álvaro de Campos - com as malas feitas e tudo a bordo
 
"Com as malas feitas e tudo a bordo
E nada mais a esperar da terra que deixamos,
Já com os trajes moles característicos dos viajantes, debruçados da amurada
Digamos adeus com um levantar da alegria ao que fica,
Adeus às afeições, e aos pensamentos domésticos, e às lareiras, e aos irmãos,
E enquanto se abre o espaço entre o navio lento e o cais
Gozemos uma grande esperança indefinida e arrepiada,
Uma trémula sensação de futuro.
Eis-nos a caminho, e quase a meio do rio
Aumenta a nitidez deixada na terra
Dos alpendres e dos guindastes ou das mercadorias descarregadas
E não é a nós, felizmente, que diz adeus aquela família
Aglomerada no extremo do cais, com um cuidado subjectivo e visível
De não cair dentro de água no meio da emoção.
Olhemos para os companheiros de bordo. Como são diversos!
Uns vão em trânsito. Não é com eles nenhuma destas despedidas.
Outros, com um ar palidamente sorridente de não querer chorar,
Acenam com um gesto deselegante e pouco afoito com os lenços
Para lenços que se acenam de outra gente que ficou no cais
No cais — ah reparem — subitamente tão mais longe do que notámos.
A amargura alegre da ida,
O sabor especial a começo de viagem marítima, a mistura com nossos sentidos
De cheiro das malas, de cheiro a navio, de cheiro a comida de bordo,
E a nossa alma é um composto confuso de cheiros e sabores
E tudo é a viagem indefinida que faremos vista através do paladar e do olfacto,
Tudo é a incerteza sensual da vida sentida pela espinha abaixo...
E nós não deixamos ninguém...
Se deixássemos, ah os lenços que lindos!, o navio que se afasta
Afastar-se-ia de mais do que da terra;
Afastava-se do nosso passado todo, de nós-mesmos, ficados no cais e aqui a caminho,
Do sentimento doméstico com que beijamos a nossa mãe,
Da alegria com que às vezes, brincando, arreliamos as nossas irmãs...
Partir! partir é viver excessivamente. O que é tudo senão partir...
Todos os dias do cais da nossa vida nos separamos, navios (...),
E vamos para o futuro como se fossemos para o Mistério,
Mas que sabemos nós para onde vamos, ó dor, e o que somos,
E que proteico e fluido Deus é tutelar das partidas?
Olha, de longe, já os guindastes ainda mexendo,
Olha as figuras no cais, negras figuras, manchadas de lenços que se acenam,
Olha os casarões de zinco ondulado dos cais e docas, às portas deles,
O sossego destacado e acostumado a isto dos empregados e dos carregadores...
Vai tal angústia, tão inexplicável angústia na minha alma,
Que não sei como têm coragem, vendo que eu grito assim, para estarem parados
No cais, tranquilamente os descarregadores e os guardas fiscais!
Bebedeira da vida... ligeiro nervoso nas nossas sensações...
Perturbação alcoólica dos nossos sentidos íntimos...
A nossa alma sai um pouco para fora do seu lugar
E as rodas da nossa vida quotidiana começam a cambalear como se fossem sair do eixo...
Pelo convés fora a gente que já está acostumada a estar aqui a bordo
Está alheia a isto e interessada contudo
(Ah [enquanto eu atirar meu directo olhar, nunca?] olhar tranquilo,
Fremem em mim os nervos vibrados de todos que vejo que sentem,
Correm-me dos olhos as lágrimas de todos que choram porque se separam,
Tenho nas mãos os gestos circulares de mãos saudosas já que acenam com lenços,
Sou todas as penas que toda esta gente tem de se ir embora...
Sou as esperanças que levam consigo e agora lhes fazem mais trémula a dor da partida,
Estou [...] por dentro deles todos, na roupa que compraram para a viagem,
Nos pequenos objectos que, na véspera («Lá me ia esquecendo» dizem, e era uma coisa inútil)
Compraram de noite numa loja feérica cheia de malas de couro e que ia fechar...
Ah, com todos os nervos de toda a gente, os meus nervos vibram...
E com os estremeções das máquinas do navio, e com o estralejar da bandeira ao vento
E com o túmido tremor das enxárcias e com o ondular dos toldos
E toda a minha alma é uma dolorosa vibração física em ritmos de mim).
Vida cosmopolita atirada aos quatro ventos...
Vida de tanta gente real a bordo de tantos navios...
Embriaguez de lidar com outra gente e saber que eles existem e têm vidas passadas, preparadas, gozadas,
Sofridas, e tão curioso o traje, interessante a moral, de cada pessoa,
E tão cheio de enigmas e de metafísicas o modo como falam, como riem, como arranjam o cabelo, como se entendem uns com os outros...
Sensação metafísica das outras pessoas e das suas realidades, e do seu décor...
Ó doença humanitária dos meus nervos vibrando cheios de outras pessoas,
Volúpia de gozar e sofrer através de hipóteses dos outros...
E eu ser só eu, só eu eternamente, e não ter outras vidas senão a minha!
Como se tocassem o fado de repente à meia-noite numa aldeia na América do Norte,
Um fatalismo metafísico com os nervos de toda a gente vibra em mim a cada momento
Quando reparo cosmopoliticamente nos outros, e ouço várias línguas
E vejo nos gestos e nos trajes — que parecem idênticos mas são tão diferentes — várias pátrias, vários costumes,
E entre vejo lares diversos, vidas comerciais complexas, amores desconhecidos, mas de cidades que desconheço,
Tudo como num animatógrafo num teatro do tamanho do Universo,
Onde se soubesse que acabava o mundo e saindo para fora,
Não há casa para onde se regresse, nem automóvel que nos leve para um lugar qualquer,
Mas a Noite Absoluta, e Deus talvez como uma Lua Enorme significando"

 
Autor
MelissaOwenAlways
 
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Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 31/01/2015 00:48  Atualizado: 31/01/2015 00:48
 Re: Fernado Pessoa - Álvaro de Campos - com as malas feit...
diz Pessoa ortónimo que Campos terá feito todas as viagens que ele nunca realizou. a alma de Pessoa é a alma à janela que sonha, observa, escreve sobre o que vê através de Campos que não é outro se não ele mesmo. Campos é quem tem a coragem de embarcar, de seguir viagem, de se embeber do barulho das máquinas e da civilização moderna que Pessoa rejeita...


complexo mas sublime


pensemos... não seremos nós vários no nosso íntimo?

feitos de sonhos e contemplações, temos dias uma vez que nunca nos despersonalizamos como Pessoa, nem escrevemos como ele, criámos um mundo - uma aldeia - como ele diz.

e isso é sublime, é mais do que viver apenas rsrs

já lhe tinha dito que adoro FPessoa ou não? rs

bjs para si com Sorrisos









Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 02/02/2015 15:26  Atualizado: 02/02/2015 16:01
 Re: Fernado Pessoa - Álvaro de Campos - com as malas feit...
se soubesse que abanava o mundo
pintando de azul mar o retrato do meu
tudo o resto seria o tema proposto
do manifesto que deixaria por fazer cá

pros outros depois de mim terem
como que pintar à sua maneira tudo
toda a moldura de baixo cima e trás
da razão porque aqui vim estou

e abalei sem dizer nada vou por isso
tentando tudo dizer com rosto
pros que ficarem me entenderem
de frente pra trás e às avessas

se soubesse que abalava do mundo
"às pressas" (:::)






Enviado por Tópico
MelissaOwenAlways
Publicado: 03/02/2015 01:26  Atualizado: 03/02/2015 01:26
Da casa!
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 Re: Fernado Pessoa - Álvaro de Campos - com as malas feit...
estou a ver que Fernando Pessoa é mesmo um mundo... já sei o que vou fazer amanhã... perder-me aqui e postar para vocês o que descobri. :)

Enviado por Tópico
MelissaOwenAlways
Publicado: 04/02/2015 00:53  Atualizado: 04/02/2015 00:53
Da casa!
Usuário desde: 28/11/2014
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Mensagens: 309
 Re: Fernado Pessoa - Álvaro de Campos - com as malas feit...
Frases que destaco até agora do Livro Desassossego:

E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa.

Não tomando nada a sério, nem considerando que nos fosse dada, por certa, outra realidade que não as nossas sensações, nelas nos abrigamos, e a elas exploramos como a grandes países desconhecidos

E, se nos empregamos assiduamente, não só na contemplação estética mas também na expressão dos seus modos e resultados, é que a prosa ou o verso que escrevemos, destituídos de vontade de querer convencer o alheio entendimento ou mover a alheia vontade, é apenas como o falar alto de quem lê, feito para dar plena objetividade ao prazer subjetivo da leitura.

Ser pessimista é tomar qualquer coisa como trágico, e essa atitude é um exagero e um incómodo

Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.

Enviado por Tópico
MelissaOwenAlways
Publicado: 04/02/2015 13:10  Atualizado: 04/02/2015 13:12
Da casa!
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 Re: Fernado Pessoa - Álvaro de Campos - com as malas feit...
o tal que a professora já tinha falado

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.





Enviado por Tópico
MelissaOwenAlways
Publicado: 10/02/2015 00:07  Atualizado: 10/02/2015 00:07
Da casa!
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 Re: Fernado Pessoa - Álvaro de Campos - com as malas feit...
oh pessoal, mas afinal eu estou aqui a "tertuliar" sozinha com o Fernando Pessoa???? XD hihihi Professoraaaaaaa!!! Joooorgeeee!!