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Poemas : 

boa tarde cura

 
Tags:  desordem  
 
Tive um dia empestado de sonhos,
desses em que acordado se imagina,
não dos que nos abordam ao dormir,
misto de fantasia, desejo forte,
coisa que não faz lembrar o diabo...

Dentro dessa mesma jornada,
com a realidade tão longe,
quase que lhes podia tocar,
sentir o cheiro, estranho aroma,
tão perto do nada.

Lembrei-me até de fazer planos
com os sonhos como alicerces,
sem medo de me diluir engolido
nessa areia movediça, impossível,
mas que me trouxe contentamento.

Iam e vinham como formigas
sem rainha nem formigueiro



Sou fiel ao ardor,
amo esta espécie de verão
que de longe me vem morrer às mãos
e juro que ao fazer da palavra
morada do silêncio
não há outra razão.

Eugénio de Andrade

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Autor
Rogério Beça
 
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Enviado por Tópico
martisns
Publicado: 13/02/2015 22:06  Atualizado: 13/02/2015 22:06
Colaborador
Usuário desde: 13/07/2010
Localidade:
Mensagens: 29490
 Re: boa tarde cura
Sonhos que se traduzem os instantes dos planto momentos, onde as fantasias se faz no imaginar

belo poema

Enviado por Tópico
Margô_T
Publicado: 01/08/2016 09:47  Atualizado: 01/08/2016 09:49
Da casa!
Usuário desde: 27/06/2016
Localidade: Lisboa
Mensagens: 309
 Re: boa tarde cura
Há os sonhos “que nos abordam ao dormir” e há os sonhos de quem “acordado” “imagina”.
É destes segundos, que misturam “fantasia” com “desejo forte”, que este poema (nos) aborda… conduzindo-nos nessa “jornada” galopante, sem destino, em que a “realidade” se torna “tão longe”, e os sonhos, esses, se tornam palpáveis, odoríferos; apesar de tanto o tacto como o cheiro se encontrarem “perto do nada” já que tão próximos do devaneio puro – e veloz - que nos arrasta pelos versos ao ritmo desses sonhos empestados que fizeram do dia “um dia”.
Sonhos há que, de tamanha eloquência e desmesura, nos impelem a “fazer planos”… autênticas trajectórias do que se fará, tendo como “alicerces” somente o que de alicerce nada tem… porque estes mapas que se criam e erigem, criam-se e erigem-se a partir do que é inexistente, ininteligível… Porém, o sujeito poético deixa-se engolir, “sem medo”, por eles, já que a atracção lhe é inevitável, deixando-se, assim, apanhar por esse buraco negro - tão denso de “fantasia”.
Mas esta “areia movediça”, este “impossível”, traz um “contentamento” firme, real, autêntico. E isso nos basta quando, também nós, leitores engolidos pelos versos, nos deixamos transportar por toda esta mirabolante vertigem que nos faz sentir que o passo (se existe) é puro deambulamento, indo e vindo “como formigas”… “sem rainha nem formigueiro” que nos oriente ou trave; e, contudo, sempre indo e vindo… porque os sonhos são demasiado aliciantes para que os ignoremos e a sua voz retumba por entre nós, empestando-nos de toda a extravagante ficção que nos soçobra o pesadelo.