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Textos : 

Vivendo & escrevendo - XIII

 
ACORDEI PREGUIÇOSAMENTE sonolento, depois de uma noite mal dormida e sonhos surreais que me alegraram momentaneamente. Minha irascível cunhada brigava com os seus bichanos e quem aparecesse pela frente. As sete e meia cheguei na oficina, levantei a porta com cuidado, poeira por todos os lados, as rachaduras. Conectei a tomada do transformador de solda, suspirei aliviado constatei que funcionava. Mudei de roupa, vestido minha bermuda sujíssima e sem botão e sem zip, amarro com um barbante velho e comecei o trabalho na grade de seu Budy. Cansado com as costas doendo. Um gato filho duma égua urinou no colchão e outros defecaram debaixo da cama. Imaginem o fedor nauseabundo que sou obrigado a inalar cada vez que respiro. Professor ronca, Adrielle com sua vozinha arrastada conversa com a avó que esta gripada. Ganhei os dez reais quando terminei as soldas e a coloquei a grade na calçada encostada na janela. Seu Raimundo, pedreiro moreno oriundo da baixada,que mora com a irmã de Seu Valter no bairro do São Benedito, perto da casa de meu conhecido Jailson perguntou0me o preço de uma grade, disse-me que semana que vem irá me procurar. Pura balela e conversa fiada. Lendo Amos e sua interessante narrativa - uma troca de cartas entre um ex-casal e um filho problemático, a estrutura é quase igual ao do "Sofrimento do Jovem Werter" do mestre Goethe. O sol cedeu lugar para a escuridão de mais uma noite que cai suavemente sobre a vila. Um vento ameno com cheiro especifico de lama e sal. As colheres batem nos pratos, anunciando que alguém esta jantando na sala. O velho e bom Saramago em "Evangelho Segundo Jesus Cristo" me acompanhou quase a trade toda nesse terraço, onde os gatos saem para as suas rondas noturnas. Um irmão do Salão vem entregar a chave, digo-lhe para jogar ao lado da cadeira. Estou feliz, o poeta Ferreira Gullar, conterrâneo foi eleito para Academia Brasileira de Letras aos oitenta e poucos anos. Um escritor francês foi laureado com o Premio Nobel de Literatura e a pequena paquistanesa Malala de 17 anos agraciada com o Nobel da Paz - os olhos ardem um pouco, ainda encucado por que não escrevo bem com Kerouac ou Bukowski, ou Fante e Miller - mas teimo e luto para desbravar esse emaranhado caminho. Sendo ou não escritor, escrevo bem ou mal - continuou escrevendo.

PROFESSOR ACORDOU COM uma intensa dor no pescoço e mal-humorado. Reflexo de sua ignorância recalcada com ele gosta de gabar-se - é mau. Às vezes fala umas asneiras sem refletir bem o seu significado. Devemos ter cuidados com que falamos para não ofender ou humilharmos os outros. E meu irmão mais velho não tem esse discernimento. Anteontem faleceu um amigo dele vitima de sua própria ignorância, diabético como ele, não fazia dieta, não ouvia ninguém, era um mau - olha o resultado. Continuou absorvido na leitura de Amós, mestre israelense que merece um Nobel. Outra gata pariu mais quatro gatinhos para atazanar as nossas vidas. Seu Pietro Tranquilo refestelado no sofá onde dorme assistindo televisão. Minha cunhada preparando para ir fazer as compras na Feirinha e divagando sobre a política defendendo a presidenta. A internet e o telefone fixo fora do ar. Larissa novamente esquiva-se para não fazer um favor para a mãe, que pediu que escrevesse uma lista com os itens: "A senhora vai entender a minha letra? Minha letra é igual e de um medico." O gato abusado chamado Ling, o favorito de Larissa passa bem perto de sua algoz com seu rabo para cima. A mãe dele foi amamentada pela cadela que de uma hora para outra tornou-se o seu pesadelo, levando minha cunhada a acorrenta-la no pé da cama. A jovem Larissa tal qual uma formiga laboriosa levava os sacos de lixos para coloca-los na calçada. Encerrei a leitura de Amós e o reverencio e gostaria de ler outros livros de sua autoria, assim com faço com Rushdie E Saramago. Vou coar o meu mestre, o velho dicionário Aurélio, uma rajada de vento esbarra no telhado. Seu Pietro irrequieto atende ao telefone, louco para o sinal da internet voltar. Um passeio pelo mercado e sua vielas poéticas, os comerciantes sentados nas portas de seus estabelecimentos a espera de seus clientes. Matraquinha estava sozinho sentado a sombra de barricudeira desfolhada. Segundo me relatou bebera uma garrafa com seu fiel parceiro gato que conversava com a s Tia em frente da lojinha dela dentro do mercado. Professor cumpriu a sua promessa e pagou as duas contas de energia. Minha cunhada exasperada com a inoperância de Larissa que não quer fazer nada, apenas o essencial quando acionada. Leio Saramago. "Não fresca que te meto o pé" reclama minha zangada cunhada para os gatos que estão rodeando seus pés e miam por algum restolho da galinha que corta para o almoço.; "- Já quer comer?" - Perguntou para o impassível companheiro deitado na cama vendo televisão. "- Bota " foi a resposta monossilábica que respondeu sem emoção. A verdade é que meu irmão não gosta mais de sua companheira com quem mora quase uns trinta anos e tem uma filha. -"Os caras enganaram a gente " - reclama para Seu Pietro, o seu filho adotivo sobre a falha no sinal da internet. As coxas doloridas devido aos momentos de ontem pela manhã na oficina, quando passei a maior parte do tempo agachado, subindo e descendo, movimentando-se de um lado para outro. Minha cunhada mesma gripada vai lavar as roupas, antes pede a Seu Pietro para ficar atento a chegada da água. Umas meninas de idades avançadas vêm buscar água, pois na casa delas, não dar. Uma delas enfileiram os baldes perto da cisterna onde a mangueira as enche. Daqui do terraço, onde as pequeninas brincam cada um no seu brinquedo que ganharam de presente. Pedro Jorge toca bateria, Adrielle no patinete. O barulho da água no cano que vem da rua. O trabalho perigoso dos eletricistas no alto de um poste de alto-tensão. A jovem mãe empurra o seu bebe num carrinho. Gosto do estilo irônico e peculiar de Saramago, principalmente na relação de Jesus e Maria de Magdala.

 
Autor
r.n.rodrigues
 
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