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Poemas : 

Morrem no peito Legiões

 
No ciclo eterno das estações, em cada nova reunião
A percepção exacta da palavra, do gesto
Como prolongamento, como extensão da âncora
Fundeada no longínquo mar dos meus ancestrais.

A nítida dimensão onde adormecem os sentidos
A claridade dos dias, a luminosidade das noites
Confinadas aos cantos desta dor
Em demorados rituais, em prolongadas penitências.
...
À luz de outras existências, noutras sangrentas arenas
Tolhidos movimentos, envoltos, por lúgubre manto
Qual pesada lacerna

Na demanda que cruza este avito tempo
Desfaço a alma, contorço o corpo
Esfolo dos pés a pele, em passos sem cáliga.
...
Percorro o vazio da antecâmara até à boca
Revela-se agora um acústico círculo de vozes em coro
Onde se faz murmúrio e do murmúrio a palavra
E da palavra o cântico, rasgado por gritos

A plena evocação, à alma de todos os corpos
À loucura dos massacres
Ao delírio de todas as dores, num único momento.


Viver é sair para a rua de manhã, aprender a amar e à noite voltar para casa.

 
Autor
silva.d.c
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Enviado por Tópico
Gyl
Publicado: 19/07/2017 00:20  Atualizado: 19/07/2017 00:20
Membro de honra
Usuário desde: 08/08/2009
Localidade: Brasil
Mensagens: 15487
 Re: Morrem no peito Legiões
É o que eu chamaria de "luta intestina". O homem e suas indagações, seus reflexos e suas reflexões. Um bom texto para ser ler e para se pensar. Abraços!

Enviado por Tópico
Margô_T
Publicado: 28/05/2020 13:27  Atualizado: 28/05/2020 14:26
Da casa!
Usuário desde: 27/06/2016
Localidade: Lisboa
Mensagens: 309
 Re: Morrem no peito Legiões
Cada ciclo se inicia no fim de um outro ciclo. Entre eles, uma “âncora” (ou um “prolongamento”) que vem do que há de comum nos dois: tal como os nossos “ancestrais” são o fim de um ciclo; ainda participando, todavia, num outro – o nosso. Assim o são, também, as “estações”.
Os “rituais” e as “penitências” são, também, formas de ciclo ao serem repetições e ao pressuporem uma continuidade: o ritual é ritual porque já existiu e se volta a repetir, a penitência é penitência porque pressupõe um acto anterior que a tenha provocado.
Em nós, escuta-se o “círculo de vozes em coro”, o que em nós existe de outros e se propaga inevitavelmente: do “murmúrio” ouvido faz-se “palavra”, da “palavra” o “cântico”, do “cântico” o poema.
E apesar da evocação do já sucedido, se cruel, poder levar-nos ao delírio:
“À loucura dos massacres
Ao delírio de todas as dores, num único momento.”

talvez precisemos desta “percepção exacta da palavra” para prosseguirmos, evitando, assim, que nos tornemos “Tolhidos movimentos, envoltos, por lúgubre manto” “rasgados por gritos”.
Já tinha saudades de te ler, Nuno.

Bjs