A rua mastiga passos de breu,
o céu desaprendeu as estrelas.
Procuro-te onde a luz falhou
— não na chama,
mas na cera que escorre
quando finges arder.
Dizes que o peito incendeia,
mas o fogo não aquece.
Há palavras lisas na tua boca
como vidro polido:
não ferem
porque nunca foram verdade.
O meu querer tem peso,
cai.
O teu passa —
vento que aprende nomes
e esquece rostos.
Ergui um castelo com a tua voz,
tijolo de promessa,
argamassa de silêncio.
Hoje sei:
era névoa com forma de abrigo.
No escuro, sem nó nem margem,
não sou rio —
sou a água que ficou
quando o leito desistiu.
Carlos Lopes
"A poesia não deve ser o caminho mais curto entre dois pontos, mas o caminho onde o leitor mais gosta de se perder."