As máscaras colaram nas faces,
Não ficaram só nos disfarces.
Nos laçaram,
Nos puxaram para o rio,
Causaram arrepio.
Nos deixaram de cara lavada.
Com a alma ensopada, olhando pro nada.
Nessa maré, o ser no parecer não aparece.
O urutau bate asas, cobre o sol e escurece.
A fotografia,
Que não retrata o que o fotógrafo percebia,
Abre espaços para a assombração, para o açoite,
Para a serpente, que engole o dia e rasga a noite.
Meu coração murcha nessa festa insípida,
Feita por quem se aproveita dessa sociedade líquida,
Que assim como a água se ajeita onde é jogada,
Sem forma, levada pela gravidade e pelos ventos.
Nesse estabelecimento,
A alma é enlameada.
Esse ar corrói as sementes,
Faz surgir safras doentes.
De bom não vai surgir nada
De sementes envenenadas.
Em cima de uma árvore apodrecida,
Não se pode construir uma casinha cheia de vida.
Construir é difícil, demorado.
Destruir é fácil, num piscar está acabado.
Nesse ar envenenado
Pelos que colhem o que não plantam,
A flor murcha, os pássaros não cantam.
O sol, a lua, as estrelas não brilham.
O ar está pesado.
O mar, o rio, o riacho... nada está pra nado.
O vento
Não sopra as árvores, não há movimento,
Põe no freezer alma e coração
E nas faces, lágrimas que refletem a destruição.