O sonho de Simón Bolívar
Nasceu como um sol continental:
Uma pátria grande, sem correntes,
Onde as fronteiras fossem apenas rios
E a dignidade, língua comum.
Bolívar sonhou com povos irmãos,
Não tronos,
Não salvadores eternos,
Mas homens livres governando a si mesmos
Com a sobriedade
De quem conhece o peso da História.
A Venezuela, porém, tornou-se um espelho partido.
O petróleo brilhou como ouro fácil
E ensinou o poder
A confundir abundância com justiça.
A palavra “revolução” foi repetida
Até perder o sentido
Como uma bandeira usada para cobrir ruínas.
Hoje, o sonho anda pelas ruas vazias,
Na fome silenciosa,
No êxodo
Que carrega casas inteiras dentro de mochilas,
Nas mães que transformaram a esperança
Em resistência diária.
Bolívar temia isso.
Temia que a liberdade, mal cuidada,
Fosse trocada por novos grilhões
Feitos de discursos, idolatrias
E promessas eternamente adiadas.
A tragédia venezuelana não é só política,
É espiritual.
É o momento em que um povo é forçado
A escolher entre sobreviver
Ou continuar acreditando.
Mas sonhos verdadeiros não morrem.
Eles adoecem, sangram,
Ficam soterrados sob a poeira da História,
Até que alguém, um dia,
Os desenterre com coragem
E os liberte outra vez,
Não em nome de um homem,
Mas em nome da vida e da liberdade.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense