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O sorriso do gato invisível

 
Há dias em que o céu não se abre em azul,
Mas em ironia.
Um arco invisível se desenha no alto,
Não de luz,
Mas de intenção.

É o sorriso de um gato que não está,
Mas observa.
Não mia, não salta, não cai:
Paira.
Um riso suspenso, debochado,
Como quem sabe algo
E se recusa a explicar.

O céu, então, deixa de ser abrigo
E vira provocação.
Parece dizer que a ordem é uma invenção humana,
Que o acaso tem humor
E que o absurdo sabe rir.

Esse sorriso pintado no nada
Zomba das nossas urgências,
Das previsões do tempo,
Das promessas de amanhã.
Ele permanece, curvo e calmo,
Enquanto tudo embaixo insiste em desmoronar.

Talvez o céu seja isso:
Uma tela onde o invisível ensaia gestos,
E o gato — esse mestre do desprezo elegante,
Nos lembra, sem palavras,
Que nem tudo precisa fazer sentido
Para continuar existindo.

Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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Odairjsilva
 
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Enviado por Tópico
Aline Lima
Publicado: 30/01/2026 01:48  Atualizado: 30/01/2026 01:48
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 Re: O sorriso do gato invisível p/ Odairjsilva
Olá, Odair.
Esse sorriso lá em cima é como alguém olhando tudo de longe e achando graça da nossa pressa e das certezas que a gente inventa. Acho interessante essa virada em que o céu, normalmente visto como abrigo, passa a provocar quem olha, quase desafiando nossas expectativas. E não tem como não lembrar do gato de Alice no País das Maravilhas, com esse mesmo jeito de aparecer, provocar e sumir, deixando a gente pensando no que é ilusão ou realidade.

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