Capítulo II – No Elevador
O que ela mais temia aconteceu: dias depois, a caminho do salão de Madame Mimi — a francesa que atendia a elite local —, a Mulher da Janela encontrou Camilinha no elevador.
Foi difícil conter o desdém. Fingiu estar absorta em uma mensagem importante no celular, ignorando qualquer cumprimento. Ao seu lado, Camilinha assistia ao seu último vídeo viral, onde pregava peças em seus amigos. O som, embora baixo, parecia ensurdecedor e infernal naquele cubículo de metal.
Aqueles segundos foram horas de terror. Já não bastava cruzar com "essa gente" no trânsito, aeroportos e universidades; agora tinha de dividir o mesmo elevador a caminho de seu momento de cuidado. Quando as portas se abriram no andar do salão, sentiu a repugnância do perfume de Camilinha impregnado em suas narinas. Saltou para fora e, mentalmente, agradeceu ao Eterno pelo fim daquele martírio.
No salão, Madame Mimi, com seu sotaque parisiense afetado de BH, saudou-a com beijos no ar e ouviu o desabafo sobre a antipática vizinha. "C'est du mimimi, chérie, esses novos vizinhos...", disse a francesa, enquanto vapor de lavanda dissipava o fantasma do perfume periférico.
Camilinha seguiu viagem, subindo até o último andar. Ia ao consultório dos dentistas mais caros da capital para colocar porcelana nos dentes. Afinal, Camilinha agora era uma estrela, e toda estrela nasce para brilhar.
Gyl Ferrys