Poemas : 

Na Bitínia

 
Bitínia, aos 5 dias de Martius.

Ah, Lucílio! Quanto tempo não nos vemos, meu estimado e muito amado amigo! Envio-te essa missiva pelas mãos de Herculano para que saibas as novidades que acontecem na minha estadia na Bitínia e das infinitas alegrias que acometem as fibras vivas do meu saltitante e acelerado coração!

Como bem sabes, fui convidado para representar meus trabalhos por aqui, nessas paragens estrangeiras. Mal cheguei e já fui abordado pelas pessoas logo no porto de desembarque. Vieram cronistas, escribas públicos e pessoas de todas as classes, distintas entre si, para me receber. Não imaginas, Lucílio, o quão fiquei feliz em ser reconhecido em outros países! Eu já sabia que minha fama tinha ultrapassado fronteiras, afinal, sou um dos melhores escultores da nossa contemporaneidade, mas não imaginava que era tão amado e admirado assim.

O magistrado da cidade me recebeu efusivamente, todo sorrisos, e me concedeu as chaves da cidade. Houve sons de oboés, harpas e pífaros pelos talentos locais e até vestais descalças com alvas vestes que varriam as ruas por onde eu passava em meio ao tumulto da turba enlouquecida pela minha preciosa presença. Confesso-te que o ego não se envergonhou ao se sentir massageado, e o espírito foi amansado pelos tantos afagos, presentes e homenagens que recebi.


Bitínia, aos 8 dias de Martius.

Ah, meu amado Lucílio! Como estou feliz de estar respirando estes novos ares! Nem imaginas, Lucílio, o bem que estes ventos têm feito ao meu espírito e à minha inspiração! Ontem fui recebido pela comissão que irá julgar a obra que me foi encomendada pela cidade. Disseram-me que fui o escolhido entre dezenas de outros artistas que nosso profícuo mundo ocidental oferece ao universo.

A comissão julgadora quer que eu faça uma estátua que represente as virtudes, a coragem e a resiliência da Bitínia. Sou o mais afamado escultor do mundo clássico. Disse a eles que faria tal estátua somente à noite e que teria o luar como única referência luminosa. Confio no meu cinzel e em minhas talentosas mãos, Lucílio!

Manda minhas condolências aos nossos amigos romanos. Dize a eles que Philautos, teu velho amigo, será um dos poucos artistas da nossa civilizada terra que será lembrado pelos homens do porvir!


Bitínia, aos 12 dias de Martius.

Ó, Lucílio, querido! Não imaginas as desgraças que acometeram este teu fiel e amado amigo! Estava eu concluindo o trabalho a mim encomendado, de que fiz menção nas passadas epístolas, quando uma desgraça sem igual acometeu o meu destino!

Como eu estava lhe dizendo, Lucílio querido, eu estava lapidando a pedra bruta somente nas noites de lua cheia. Eu queria mostrar ao mundo o meu talento, a minha magnitude; que meu cinzel era o bastão de Esculápio, não o calcanhar de Aquiles! Ai, Lucílio! Ai!

Fui podando a pedra pelo tato, descascando-a, buscando a beleza artística. Quando Aurora, com seus dedos rosados, iniciava abrir as cortinas do dia, eu parava e cobria o resultado do trabalho com um pano.

Ai, Lucílio! Agora é que são elas! Ai, Lucílio! Ao invés de óbolos, recebi opróbrios! Ao invés de ovações, recebi escárnio! Ao invés de beijos, recebi escarros! No dia da inauguração da estátua houve festejo na ágora da Bitínia. Todo o povo estava no evento, todos esperando a queda do linho ao chão, quando abriram-se as cortinas... Ai, Lucílio! Quanta decepção! O que surgiu foi uma estátua horrorosa, disforme e deformada... de mim mesmo!





Gyl Ferrys

 
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