Bitínia, pridie Nonas Martias - (6 de Março)
Ah, Lucílio! Quanto tempo não nos vemos, meu estimado e muito amado amigo! Envio-te esta missiva, pelas mãos de Herculano, para que saibas das novidades que acontecem na minha estadia na Bitínia e das infinitas alegrias que acometem as fibras do meu saltitante coração!
Como tu bem sabes, fui convidado para representar meus trabalhos por aqui, pelas maravilhosas paragens dessa " Mikrá Asía". Mal meus pés tocaram o cais do porto e já fui abordado por uma multidão de adoradores. Vieram cronistas, escribas, agentes públicos e pessoas de todas as castas, distintas entre si, para receber-me. Não imaginas, Lucílio, o quão feliz fiquei em ser reconhecido ao longo do Mar Euxino! Eu já pressentia que minha fama tinha ultrapassado os picos nevados e as margens do Rio Don. Afinal, sou reconhecido como um dos mais exímios escultores da nossa contemporaneidade. Entretanto, não imaginava que eu era tão amado e admirado assim.
O magistrado da cidade recebeu-me de forma efusiva, esbanjando sorrisos e concedeu-me o honroso Título de Proxenos, ato que quase me comoveu publicamente. Houve sons de harpas, liras e cítaras, tocadas de forma esplendorosa pelos bitínios, e até vestais vieram, descalças, com alvas vestes que varriam as ruas por onde eu passava, em meio ao tumulto da turba ensandecida pela minha preciosa presença. Confesso-te que o ego não se deteve ao sentir-se massageado, e o espírito foi amansado pelos tantos afagos, presentes e homenagens que recebi.
Bitínia, VIII Idus Augustas - (6 de Agosto)
Ah, meu amado Lucílio! Como estou feliz de estar respirando estes novos ares! Não poderia deixar de escrever-te, essa que agora trazes em tuas mãos, e diante dos teus olhos, para relatar-te o que se passa nas férteis margens da Propôntida! Nem imaginas, Lucílio, o bem que estes ventos têm feito ao meu espírito e à minha inspiração! Ontem fui recebido pela comissão que irá analisar a obra que a mim fora incumbida. Disseram-me que fui o eleito entre dezenas de outros artistas que só o nosso profícuo mundo romano pode oferecer à posteridade!
A comissão julgadora concede-me a honra de criar uma escultura que represente as virtudes, a coragem e a resiliência da Bitínia. Como bem sabes, sou o mais afamado e aclamado escultor do mundo clássico. Eu relatei aos organizadores que faria tal monumento somente à noite e que teria o luar como minha única referência luminosa. Confio piamente no meu cinzel e em minhas prodigiosas mãos, Lucílio!
Mandes minhas considerações aos nossos patrícios romanos. Dize a eles que Philautos, teu velho amigo, será um dos poucos artistas da nossa civilizada terra que será lembrado pelos homens do porvir!
Bitínia, VIII Idus Decembres - (6 de Dezembro)
Ó, Lucílio, querido! Não imaginas as desgraças que acometeram este teu fiel e amado amigo! Estava eu concluindo o trabalho a mim encomendado, de que fiz menção nas pretéritas epístolas, quando uma desgraça sem igual acometeu o meu desalentado destino!
Como eu estava lhe dizendo, Lucílio querido, eu estava lapidando a pedra bruta somente nas noites de lua cheia. Eu queria mostrar ao mundo o meu talento, a minha magnitude; que meu cinzel era o bastão de Esculápio, não o calcanhar de Aquiles! Ai, Lucílio! Ai!
Fui lascando a marmórea pedra, descascando-a e buscando a beleza artística. Eu findava o hercúleo trabalho, e o cobria com um sedoso pano, quando a Aurora, com seus longos dedos rosados, iniciava a abrir as sanguíneas raias do dia.
Ai, Lucílio! Nunc vero res se habent! Ao invés de óbolos, recebi opróbrios! Ao invés de ovações, recebi escárnios! Ao invés de beijos, recebi escarros! No dia da inauguração da tão esperada estátua, houve festejo nas casas e o povo se reuniu na ágora da Bitínia. Todos esperavam a queda do linho ao chão, quando abriram-se as cortinas... Quanta decepção! O que surgiu foi uma estátua horrorosa, disforme e deformada! A minha criação era minha cópia distorcida! Era uma aberração de mim mesmo!
Vide: Agora compreendo, Lucílio, quando dizias- me que "somente quem se desprender dos desejos poderá ser livre, que só tem prazer aquele que despreza os prazeres".
Gyl Ferrys