Poemas : 

Recanto Do Sossego

 
Capítulo I – A Vizinha

Eram duas horas da manhã e ela não pregara o olho. O barulho era insuportável. Não entendia — e menos ainda suportava — o som que reverberava da mansão vizinha. Ao se levantar, percebeu que o marido roncava uma melodia antiga, conhecida e quase, digamos, reconfortante. Foi até a janela e, mais uma vez, surpreendeu-se com a ostentação: carros importados e jovens estranhos faziam arruaça dentro do espaço sagrado daquele condomínio. Era outra festa em plena quarta-feira.

A vida já não era a mesma desde que aquela influencer se mudara para o Recanto do Sossego — que agora, ironicamente, parecia um palco de tortura chinesa. Camilinha viera da Baixa Pampulha, de um bairro chamado Shangrilá, que, apesar do nome mítico, figurava entre os mais pobres e violentos da Grande BH.

Antes não era assim. Na Alta Pampulha, lugar de gente educada, de família tradicional e cristã, não se viam tais disparates. Tudo mudara quando pessoas da periferia passaram a ter acesso aos privilégios que antes eram exclusivos das diluvianas castas mineiras. Camilinha era carismática; seus vídeos engraçados viralizavam, atraindo anunciantes e uma ascensão tão rápida que, em apenas um ano, permitiu-lhe comprar aquela mansão no famoso Condomínio do Sossego, o mais renomado da região.

A mãe da jovem trabalhara ali, justamente naquele condomínio, por anos. Muitas vezes a menina a acompanhava e ficava pelas cozinhas das madames, invisível, comendo pelos cantos. Agora, era proprietária de uma residência dentro daquele condomínio onde, um dia, sua mãe fora funcionária; e a adolescente sabia desfrutar da oportunidade. Gostava de funk — o ritmo que retratava sua origem — e, agora enriquecida, não esquecia as raízes: quando festejava, trazia os amigos da Baixa Pampulha e outros influencers que, como ela, também tinham ascendido.

Já a vizinha espiã nascera na Alta Pampulha. Fora educada nos melhores colégios e, com sacrifício e mérito, formara-se em medicina aos vinte e quatro anos. Doía no fundo da sua alma assistir o Recanto ser "invadido" assim.Os bárbaros não teriam causado maior dano a Roma do que aquele povo vinha causando ao condomínio.

Sem suportar o desaforo, ligou para o 190.
— Polícia Militar. Em que posso ajudar?
— Quero fazer uma denúncia anônima, urgente. Som alto no Recanto do Sossego em plena madrugada, impedindo as pessoas que movimentam as engrenagens deste país de terem o descanso merecido.

Aguardou. Em menos de uma hora a viatura policial chegou. Observou a abordagem por trás do blindex italiano, fria como o vidro que a protegia. O som cessou. Um sorriso leve surgiu em seu rosto enquanto as primeiras luzes do dia se filtravam pelas venezianas vazias. Apenas o ronco confortante do marido ecoava no recinto. Ela fechou as cortinas e, enfim, deitou-se feliz. O silêncio retornara ao Recanto.

Capítulo II – No Elevador

O que ela mais temia aconteceu: dias depois, a caminho do salão de Madame Mimi — a francesa que atendia a elite local —, a Mulher da Janela encontrou com Camilinha no elevador.

Foi difícil conter o desdém. Fingiu estar absorta em uma mensagem importante no celular, ignorando qualquer cumprimento. Ao seu lado, Camilinha assistia ao seu último vídeo viral, onde pregava uma peça em amigos em sua mansão. O som, embora baixo, parecia ensurdecedor e infernal naquele cubículo de metal.

Aqueles segundos foram horas de terror. Já não bastava cruzar com "essa gente" no trânsito, aeroportos e universidades; agora tinha de dividir o mesmo elevador a caminho de seu momento de cuidado. Quando as portas se abriram no andar do salão, sentiu a repugnância do perfume de Camilinha impregnado em suas narinas. Saltou para fora e, mentalmente, agradeceu ao Eterno pelo fim daquele martírio.

No salão, Madame Mimi, com seu sotaque parisiense afetado de BH, saudou-a com beijos no ar e ouviu o desabafo sobre a vizinha infernal. "C'est du mimimi, chérie, esses novos vizinhos...", disse a francesa, enquanto o vapor de lavanda dissipava o fantasma do perfume da periferia.

Camilinha seguiu viagem, subindo até o último andar. Ia ao consultório dos dentistas mais caros da capital para colocar porcelana nos dentes. Afinal, Camilinha agora era uma estrela, e toda estrela nasce exclusivamente para brilhar.

Capítulo III – No Supermercado

Havia tempos que ela não pisava em um supermercado. Maria, a empregada, não aparecera: teve de levar o filho caçula ao médico e, no mundo de Maria, uma consulta pelo SUS equivale à perda de uma diária. Contrariada, a doutora viu-se forçada a "ir à batalha" pela própria subsistência.

Odiava o rito das compras. Enquanto dirigia, amaldiçoava Maria em pensamento. Tudo lhe causava ojeriza: o trânsito, a disputa por vagas, a vulgaridade de carregar a própria cestinha. Entrou no estabelecimento ignorando o "bom dia" cortês de um funcionário.

Dirigiu-se imediatamente à seção de orgânicos e hidropônicos. Ali, entre verduras selecionadas e queijos de soja, sentia-se em seu reduto de distinção. Porém, ao se aproximar do corredor de bebidas, onde ia comprar sua água mineral gaseificada, deparou-se com o caos: Camilinha.

A influencer estava radiante, com dentes de uma brancura artificial e agressiva. Estava acompanhada por Vitória, sua mãe. De longe, a médica estacou. O sangue fervia; a alegria daquelas duas era um insulto pessoal. A surpresa veio com um choque de memória: ela reconheceu Vitória. Lembrava-se dela circulando pela mansão da Família Mendes Barroso de Azeredo, mas na condição de servidão. Agora, ali estava Vitória, empurrando o próprio carrinho, comprando para si e não para uma patroa.

O carrinho das duas era o espelho de tudo o que ela detestava: achocolatados, iogurtes e refrigerantes berrantes. Para a mulher dos orgânicos, aquela visão era nauseabunda, um ambiente "insalubre". Incapaz de suportar a cena, fugiu para o caixa rápido sem saber que, mesmo sem intenção, aplicava a Régua de Procusto. Saiu às pressas, emputecida com a constatação de que o mundo, definitivamente, já não respeitava as fronteiras que ela tanto lutava para manter.

Capítulo IV – Na Academia

Fim das festas natalinas. Início de ano novo. Depois de tanta fartura e viagens, a Mulher da Janela voltou à academia do condomínio. Nova legging, rabo de cavalo alto, tênis brancos reluzentes. Serelepe, cumprimentou o personal trainer. Aquecimento. Alongamentos. Um, dois, três! Um, dois, três!

Então, o golpe: Camilinha.

Esbanjando curvas impossíveis, e uma juventude que fere, lá estava ela: Roupa colada como segunda pele, mostrando sua graça e formosura, em remadas baixas , no aparelho de musculatura. A médica congelou. Nem na academia havia sossego. Não era inveja — ela amadurecia bem, não brigava com o espelho. Era a invasão. Era a gentalha profanando seu território sagrado.

Subiu correndo para o andar superior. Esteira. Velocidade 5. Fones de ouvido. Olhos fechados. Imaginou o mundo antigo. Salão de Madame Mimi sem perfume de periferia. Supermercado sem carrinhos de achocolatado. Academia sem... aquilo.

Abaixo, risadas ecoavam. Funk baixo pulsava. A Mulher da Janela acelerou para 6. O Recanto do Sossego morria. Ela sentiu o corpo tremer, o coração galopando. Cada passada na esteira era resistência, fuga, expulsão do intruso. O mundo inteiro se reduzia àquele compasso, àquele suor, àquele silêncio interior que insistia em resistir.

Capítulo V – Na Janela

Sexta-feira. Camilinha acordou mais tarde. Tivera sonhos deliciosos. Sentia-se realizada. Estava ansiosa com a entrevista que concederia ao meio-dia, em uma rádio local. Ao abrir a janela da mansão, deparou-se com a alegria do dia: as flores de seu jardim e as dos jardins vizinhos — sobretudo as da casa ao lado, pertencente a uma senhora de poucas conversas, que Camilinha supunha ser médica. Os raios solares invadiram as enormes janelas da mansão de Camilinha, deixando todo o ambiente repleto de luz.

De repente, o olhar curioso da menina do Shangrilá se depara com a Mulher da Janela, na janela. Camilinha, num gesto natural e simpático, exibiu o mais sincero dos sorrisos e acenou com um "tchauzinho". A Mulher da Janela rosnou um impropério qualquer e fechou as cortinas ferozmente, como se tivesse sido violentada ao ser descoberta em seu momento de voyeur. Sentira vergonha por ter sido flagrada espionando a casa alheia.

A Mulher da Janela achava a residência vizinha de um mau gosto sem igual. O projeto daquela casa não fora traçado pelas mãos de seu querido e conhecido amigo, Laerte Camargo Vasconcellos e Castros. A sua, ao contrário, fora a primeira do condomínio a ostentar o risco do renomado arquiteto. Nem tudo se podia permitir. Não era apenas poder de compra. Era classe. Achava aquele azul tão démodé! Tudo o que se referia à residência e à pessoa de Camilinha lhe cansava a beleza e lhe provocava os nervos.

Camilinha não podia conter a própria felicidade. Ainda ecoava em sua mente o evento da noite anterior. Parecia ouvir, mais uma vez, as vozes empolgadas dos apresentadores:
— "Senhoras e senhores, bom dia! É com enorme prazer que recebemos hoje aqui uma mulher que dispensa apresentações. Ela que conquistou milhões de seguidores, que virou referência, que transformou sua história em um verdadeiro fenômeno nacional. Com vocês, a influencer mais comentada do país: carisma, sucesso e autenticidade em pessoa, Camilinha!"

Se regozijou em júbilos e quase entrou em nirvana com as doces lembranças dos efusivos aplausos.

Do outro lado, detrás da janela vizinha, a doutora ruminava pensamentos esparsos. Lembrou-se dos filhos, que há muito não via. O mais velho fora estudar na Austrália e acabara se casando por lá. O caçula tivera de cursar faculdade em outra cidade, pois não conseguira passar nos preparatórios da UFMG. O marido nunca estava presente. Quando não se encontrava na clínica de estética da família, estava no Clube do Recanto, arriscando alguma jogada de golfe. Não sabia jogar — nem gostava —, mas era uma forma de se firmar perante os vizinhos.

Após o fechamento abrupto das cortinas, voltou a reinar a penumbra naquela imensa morada. A mulher detrás daquela janela foi tomar o chá em sua xícara de porcelana chinesa com caracteres indecifráveis, ruminando, pensativa, em completa solidão.

Capítulo VI – Em Miami

Ufa! Enfim, as tão sonhadas e desejadas férias chegaram. Partiram do Aeroporto de Confins numa sexta-feira à noite. À noite, o trajeto da Alta Pampulha até o aeroporto é belíssimo: a escuridão protege — e colabora — diante de certas realidades inconvenientes.

Embarcou. Observando pela janela do avião ela pode ver as luzes de Belo Horizonte e do Brasil se dissipando na escuridão. Sentiu um alívio imediato. Nasceu um tímido sorriso em seus lábios maquiados pelo batom francês comprado no salão de Madame Mimi.

A doutora e o marido encontrariam os filhos em Miami. Lá se reuniriam, como faziam religiosamente a cada seis meses. Eram nesses encontros fugazes que ela esboçava algum sorriso — breve, ensaiado, mas ainda assim um sorriso. Ah, Miami! Recanto da beleza, do bem-estar, da verdadeira civilização!

O voo foi tranquilo, sem escalas. Chegaram. Novos ares! O marido dormira o tempo todo e só despertou para desembarcar, com aquela expressão de quem atravessara um túnel sem perceber o caminho. Ela, ao contrário, estava quase esfuziante. Ao pisar em solo americano, lembrou-se de Carlota Joaquina regressando a Portugal após mais de uma década e quase bateu as sandálias, como quem sacode o pó do Brasil. Amava Miami. Só não residia ali porque os negócios da clínica de estética da família iam muito bem no país de origem — caso contrário, já teria atravessado a América com malas e ilusões definitivas.

Ah, Miami! Ah, América! Berço civilizatório da democracia contemporânea e da liberdade! Tudo ao redor parecia conspirar a seu favor: mansões impecáveis, pessoas exuberantes, trânsito organizado, ruas limpas, ordem social obedecida com naturalidade quase moral. Sentia-se outra mulher. Precisava de férias — e somente fora do Brasil poderia encontrar o repouso que julgava merecido.

No trajeto do aeroporto até o hotel, contudo, algo desferiu um golpe seco em seu estômago, azedando o vinho da chegada: um outdoor monumental à beira da rodovia. Era Camilinha. Mas não a Camilinha das dancinhas; era uma Camilinha institucional, blindada por uma beca azul e preta que exalava uma autoridade acadêmica que a doutora julgava ser propriedade de sua casta. Numa mão, o canudo de formatura era erguido como um cetro; na outra, o dedo em riste apontava impiedosamente para o espectador, mimetizando o gesto convocatório do Tio Sam. O sorriso, de uma brancura de porcelana agressiva e artificial, parecia iluminar a própria estrada. Acima da imagem, em letras garrafais que gritavam contra o azul do céu da Flórida, lia-se apenas: “YOU!”.

Era o anúncio de um curso de inglês para o aperfeiçoamento da “língua nativa americana”. Aquela imagem, imensa e onipresente, feriu-lhe o coração com a precisão de um bisturi. Nem em seu momento de júbilo e regozijo a figura de Camilinha lhe concedia sossego. Camilinha a encontrara. Camilinha a convocava. Camilinha, enfim, a vencia.

Engoliu a sensação sozinha. Não podia compartilhá-la com o marido — o que, de resto, não resolveria nada. Ele já dormia novamente, agora no banco traseiro do táxi, alheio a tudo: à cidade, à esposa, ao incômodo silencioso que crescia dentro dela.

Chegaram ao hotel. Subiram para o quarto. Aproximou-se da janela e observou Miami de cima, iluminada, ordeira, quase irreal. Tentou sorrir. Não conseguiu. A lembrança do outdoor furtou-lhe aquele gesto raro, mais uma vez.


Gyl Ferrys

 
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