Poemas : 

Depois do Expediente

 
Quanto tempo tenho estado aqui?
Adormeci lendo a tradução de um romance grego que eu jurava ser de um romance espanhol. Cheguei à biblioteca do bairro às seis da tarde, depois de um expediente estafante como almoxarife numa empresa de ônibus de viagem. Hoje não quero ir para casa. Já são oito da noite e ninguém veio me acordar. Até que horas esta biblioteca comunitária fica aberta? Ninguém me espera. Os livros são as melhores companhias que eu poderia ter. Meu celular descarregou. Não faz diferença. Ninguém me liga mesmo.

Outra sexta-feira. O mundo se agita lá fora. Pessoas sem rostos transitam sem saber por quê. Carros endiabrados enlouquecem o ar — menos os meus ouvidos. Por isso me recolho sempre a esta biblioteca nos meus momentos de martírio. Hoje foi um dia de cão. O dia foi de suor, de sangue e de lágrimas. Todos os dias são assim. Hoje matei um leão. Amanhã não mato nem uma jaguatirica. Amanhã eu repouso nos braços do ócio.

Enquanto isso, fico por aqui. Até agora não vi a bibliotecária. Não quero mais perder tempo com este livro. Nunca continuo a leitura de um livro que me faz dormir. Livro tem que despertar a mente e provocar o espírito, não o sono. Hoje preciso descansar a alma — e os livros costumam me dar esse alívio, mas não este que me levou ao equívoco. Esta biblioteca é antiga, cheia de exemplares gastos pelo tempo. Quase nunca vejo pessoas aqui. Nem a bibliotecária. Sempre que venho, encontro-me só entre os livros — e é justamente por isso que aqui estou.

Levanto-me e passo os olhos pelo corredor da Literatura Nacional. Não gosto de escritores contemporâneos. Ali está *Quarto de Despejo*; logo à frente, *Dom Casmurro* e, acolá, repousa *O Triste Fim de Policarpo Quaresma*. Hoje não vou para casa. Vou ficando por aqui, como se o tempo também pudesse ser guardado nessas estantes.

Do nada, Fernanda me vem à cachola. Lembro daquele dia no parque ecológico. Era uma excursão da escola. Eu odiava os passeios escolares, mas eu amava Fernanda e isso me bastava. Fernanda era a carta de alforria do regime ao qual eu estava atrelado. Por isso fui. *O Ateneu*, *Os Sertões*… o que *Ivanhoé* faz aqui? Não gosto quando retiram um livro da prateleira e o colocam em outra. Talvez tenha sido eu mesmo. Fernanda não me sai da cabeça. Por onde andará? A última vez que a vi foi na noite em que brigamos. O meu amor-próprio afasta as pessoas de mim. Foi assim com meu irmão, com minha mãe e com Fernanda. Estou falando do meu irmão caçula. Com os mais velhos ainda me relaciono, e minha mãe já não está mais entre nós. Ele foi embora para os Estados Unidos em 2009. Nunca mais nos falamos. Tudo por causa de Fernanda, que foi morar com ele. Não quero remoer esse sentimento, mas ele insiste em voltar.

Ali, na prateleira do meio, vejo alguns clássicos universais. O que mais se destaca é o tomo imenso de *Dom Quixote*, capa dura, verde. Aquele Balzac eu nunca li. Gosto do cheiro que sai dos alfarrábios. Sei que, com meu irmão, Fernanda está melhor. Ele pode dar a ela tudo o que ela merece. Eu só podia dar a mim mesmo — e, muitas vezes, só a gente não é o suficiente.

O último Natal foi tão ruim quanto os outros. A mesmice natalina e a hipocrisia capitalista me aborrecem. Não é porque não tenho capital. Não. Não é isso. Tenho o suficiente para sobreviver. O que eu queria mesmo era lecionar História. O pecúlio de almoxarife garante o aluguel da kitnet. O almoço eu pago com o ticket-refeição.

Minha vontade era lecionar História em povoados com menos de mil habitantes. Abordaria o século XVI com tal euforia que Gabriel Soares de Sousa se orgulharia de mim. Não faria como Ambrósio Brandão. Tampouco seria tão minucioso quanto Frei Vicente do Salvador, prolixo como o Padre Vieira ou aborrecido como o Padre Perereca. Relataria o Ciclo do Pau-brasil com maestria. Levaria os alunos aos engenhos de açúcar sem sequer citar Antonil. Quando chegasse ao Ciclo do Ouro Mineiro, contaria todas as nuances do entusiasmo de Tiradentes e do carrasco Januário. Tenho tantos planos na mente… mas 2009 ficou com uma parte de mim. Os Estados Unidos também levaram um pedaço.

Onde estará a bibliotecária? Já são oito e meia da noite. Como estará Fernanda? Será mesmo feliz ao lado de Augusto? De repente, passos arrastados ecoam pelo corredor da Literatura Francesa. Não os percebi de imediato. Pareciam passos de Fernanda. Eu gostava de vê-la caminhar quando andávamos de mãos dadas da escola até a casa dela. Sendo honesto, eu gostava de tudo nela — até quando se chateava com minhas brincadeiras sem graça. A graça estava na fisionomia daquela garota. A gente nunca se cansa de alguém assim. Era inteligente. Leitora de Kafka e Dostoiévski. Só conheci Tolstói por insistência dela. Hoje, Fernanda é apenas uma lembrança boa de algo que se foi.

Os passos eram da bibliotecária. Pela primeira vez eu a via. Uma senhora adiposa, pernas inchadas, cabelos curtos e olhos perdidamente verdes. Disse que a biblioteca fecharia às nove e meia. Eu não queria sair dali. O perfume dos livros velhos me sedava deliciosamente. Abri ao acaso um volume e li:
“Após uma noite de sonhos inquietantes, Gregor Samsa amanheceu transformado…”

Se hoje flerto com a poesia e se hoje estou nesta biblioteca, é porque aqui foi o lugar do nosso primeiro beijo — entre Tchékhov e Cervantes. O primeiro amor a gente nunca esquece. Nunca me esqueci de Fernanda. Fernanda me amou durante nove meses. Quando nosso amor ia parir um filho, algo abortivo surgiu dentro do útero do afeto, do carinho e da consideração. O útero se tornou túmulo. Ninguém sabe como começou. Augusto não escondeu, nem traiu o irmão. Ele também sofreu, e ninguém é culpado por amar. Fernanda também não pôde se conter. Começaram com brincadeiras pueris, risinhos, convivência diária e, quando menos se espera, uma serpente nos envolve e vai nos apertando tanto que, quando abrimos a boca, ela nos pinga o fatal veneno, como diria um conhecido escritor. Ninguém tem culpa em amar. Augusto amou Fernanda — e foi retribuído.

Já estou na rua e já são onze horas da noite. Caminho sem saber aonde ir. Faz meses que não chove. Os telhados e as avenidas estão imundos. A chuva lava a alma. A chuva lava tudo. A chuva só não lava 2009. Parece que ele está lá, pregado, estático, na parede da minha memória. Um corvo alantesco pousa nos umbrais da minha vida, sempre repetindo: “Never more! Never more! Never more!”.

A cidade se agita. Eu me recolho dentro de mim mesmo, caramujamente. A cidade nunca dorme. Mãos nos bolsos, mochila nas costas e mil pensamentos intrusivos na cachola. Luzes de néon sinalizam um bar onde salgados se perpetuam dentro de oleosas estufas. Peço uma cachaça e um cigarro picado. Bebo, fumo e encho a mão com um pacotinho de amendoim torrado. Tudo ali me lembra miséria: sujeira, putrefação, bolor, gente estranha igual a mim — cada um com seus problemas, alegrias e tristezas. Na TV de tubo, algo se ensaia. Augusto é um bom rapaz. Fernanda certamente está muito feliz com a escolha que fez.

Saio pela cidade em ronda de Vanzolini. Conheço o centro como quem conhece uma cicatriz: sem precisar olhar. Encontro Célia na mesma esquina de sempre. Já a homenageei num poema; disse que ela me chamava para “brincar”. Célia se aposentou das ruas; vem aqui apenas para se entorpecer. Eu também. O ar é nauseabundo e tudo isso me basta. Hoje eu não estou para brincadeira. Hoje eu não volto para casa.

Meus passos se perdem na calçada. Velhas feridas vêm e vão como as vagas marinhas num dia de ressaca. Fecho meus olhos por um instante e vejo Fernanda. Éramos amigos, além de amantes. Fernanda era fuga. Eu era prisão. Augusto era a liberdade. Por isso se foram para os EUA. Lá tem uma estátua que os representa. Aqui, a estátua… sou eu.


Gyl Ferrys

 
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