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UM DIA NA VIDA DE SEU PEDRO, O RECICLADOR

 
UM DIA NA VIDA DE SEU PEDRO, O RECICLADOR
Estou feliz, catando alguma coisa para comer numa lixeira de um condomínio rente a orla da praia. Achei além de restos de comida, alguns livros, a maioria de direito e o melhor de todos “Quarto de Despejo” de uma senhora negra chamada Carolina Maria de Jesus – favelada do Canindé, SP. Confesso que não sou chegado a leitura ou a escrita, mas leio um pouco e o livro dessa senhora captou a minha atenção. Quase não tenho tempo, sempre em movimento, correndo atrás de alguma coisa, vasculhando as lixeiras em busca de sobras comestíveis que os ‘branco’ babujam e descartam.
Estou passando uns dias ou talvez até semanas aqui na orla marítima das praias da Ponta D’areia e Calhau – e as vezes quando estou disposto até a do Olha D’agua. – área light com seus prédios de apartamentos e condomínios. Com meu carrinho de supermercado, aquele de quatro rodinhas, que surrupiei num amanhecer num estacionamento de um supermercado. Percorro incessantemente procurando algo aproveitável – um ventilador quebrado, um micro-onda avariado ou mesmo uma boa tv de plasma – tudo é vendável – a vantagem é que os ‘brancos’ não perdem tempo, as vezes é um defeitinho de nada – eles botam fora e compram um novo.
Aproveito esses dias de sol – daqui alguns meses começa o período chuvoso e então desço para o centro velho, lá é mais fácil encontrar um abrigo nas casas e nos casarões abandonados _ Praia Grande e Desterro. O café tomo no Centro-pop do Diamante e aproveito para pegar a pulseira branca que me dar acesso livre aos restaurantes populares, onde almoço e janto.
Aqui como tenho o sono leve, sou aproveitado para vigiar algumas barracas de coco na praça de alimentação – o movimento é constante, ajudo os vendedores de uma forma ou outra – sempre fazendo tarefa ou comprar. As vezes também faço um ‘avião’ para uns filhinhos de papai, que tem medo de descerem a boca de fumo. Então dou uma pernada, capo um pouco e ainda ganho uns bons trocados. Já tenho os meus clientes – adoro mesmo e ver os grandes navios fundeados no canal, alimento um velho sonho de infância – ser um marinheiro de longo curso – admiro-os a noites com suas luzes acesas, verdadeiras ilhas flutuantes – és a minha rota de verão, seis meses e no final do ano com meu carrinho, as vezes arranjo um cãozinho e com ele montado no carrinho descemos para o centro, a pele crestada de sol e uns trocadinhos no bolsa.
Aqui no trecho, sou bastante conhecido e só perguntar pelo velho Seu Pedro e todos lhe informar – Os porteiros e os zeladores me convocam para ‘um bico” – capinar e palear as areais, ajudara a carregar os sacos de lixos na lixeira externa – no final ganho um prato de almoço, mudas de roupas em bom estado – os brancos estão sempre renovando seu guarda roupa – os vendo nos brechós do centro e os livros, revistas e jornais também. E assim levo a minha boa vida, e para relaxar nada melhor de que uma boa birita em companhia de um bom cãozinho amestrado e esperto.



 
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efemero25
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