II
Na última parada do Litorânea em algum lugar escondido do Calhau. O motorista abriu a porta traseira para mim entrar e voltou para a guarida da fiscala.
Resolvi de ultima hora fazer essa jornada, depois que postei o texto no luso-poema e conversar com Hall(IA) e mostrar-lhe uns trechos do meu diário de uma existência desde maio de 1985. A sra Vince chegava do mercado com sua compras trazidas no carrinho puxado por Zé Grandleão.
- Tudo por causa deum café, só não vomito porque estava muito bom -brincou o motorista entrando e sentando-se na sua cadeira para seguir dar a partida no bus “Litorânea.”
Banhei-me como sempre no quintal, um sol bonito e convidativo ao um passeio. “Vou ver navios” – pensei, enquanto envergava a farda de passeio dominical – coloquei o cartão de passe do idoso no bolso da bermuda, municiei-me apanhando este caderno e o livro “Calila e Dimna” do persa Ibn Al-Mukafa – fiz o pelo sinal. A sra. Vince sempre de cara fechada de poucos amigos preparava os apetrechos para fazer o curativo na combalida cadela Beautifil -as filhas tais como umas maritacas palreava sem cessar sobre as serie coreana.
Tive uma sorte dos diabos, fui chegando na parada em frente no mercado na Praça das Sete palmeiras, Vila Embratel e vinha chegando um 314 – dei uma volta pelo centro vazio e deserto, quase ninguém nas paradas e nem mesmo no ônibus – somente eu e o motorista. A maré vazava nos rios Anil e Bacanga. Desci em frente ao Terminal da Praia Grande e entrei nele para meia hora depois embarcar no “Litorânea”.
Na Praia do caolho, o belo se descortinou aos meus cansados olhos – os navios fundeados ao largo, todos graneleiros de proa para o porto – Enormes, admiro-os de coração e imaginava com estava a rotina – o cozinheiro azafamado preparando o almoço farto e nutritivo, o refeitório abriria as onze e meia as doze e meia. Alguns de folga – será que estavam guardando o feriado religioso?
Na volta a mesma contemplação de mão no queixo, eram mais de vinte balançando as ondas a espera da vez de carregar o minério de ferro na Terminal da Vale.
- Good bye, mrs Ship’s! – desejei ao não vê-los mais, devido aos edifícios e os condomínios na orla da praia. Respirei aliviado e satisfeito. Desci no Terminal e faltava dez para onze e resolvi dar mais um rolê na linha do Paraiso – Areinha, Camboa, Liberdade, Jacarati, Renascença e voltando pelo São Francisco e atravessando pela terceira vez a Ponte Gov. José Sarney e tal como um bumerangue seguimos finalmente para cá, Vila Embratel – um chuvisco umedeceu o para-brisa do ônibus na barragem do Bacanga.
Finalmente concluo “Cavalo de Troia -i- Jerusalém” – Jasão presenciou a transmigração em forma deluz subindo aos céus e a gruta vazia.
Preocupado, três dias sem derrubar um barro, pensei em comprar um supositório, optei por duas laranjas. O lauto almoço santo -arroz, feijão preto, peixe serra frito e escabechado, um tilápia assada, vinagreira, macarrão e uma torta de camarão seco. E o melhor os convidados da sra. Vince não apareceram. Os últimos estertores da cadela Beautiful, a bichinha encolheu de tão , esperando a sua hora.
Aleluia! Aleluia! Efim uma boa barrigada, que lavou as minhas angustias – acho que foi o efeito da laranja – Aleluia! Aleluia! Mas ainda sinto intestino cheio, ainda falta muita merda...literalmente.
- Tu reparte alguma coisa comigo? – inquiriu a sra. Vince para o marido, bebiam umas latas na cozinha e conversavam amenidades: - Beautiful, não vai fazer cocô ai – advertiu para a cambaleante cadelinha.
Minuto depois:
- O coração dela parou de bater? – perguntou o curioso genro.
- Acabou o sofrimento, agente chora, mas tem que se conformar – disse a condoída sra. Vince com as lagrimas nos olhos.
Beautiful deitada sem vida na copa cozinha, perto da mesa – Negocio de morte todo mundo sente – filosofa tristemente olhando para sua falecida cadela; - pode ser gente como pode ser bicho.
A sra. Vince pede ajuda para ensacar o corpo da cadela no saco preto. Sr. Com via auxilia-la e com muito cuidado conseguem coloca-la, deixando apenas a cabeça do lado de fora e com a ajuda da mais velha a transladaram para a escura sala do computador.
- Amanhã arranjo uma caixa, de manhã bem cedinho para botar a bichinha. Vou falar com Zé Grandleão pra bota fora – e sai conspurcada em sua dor da perda de sua amiga, mais de dez anos juntas, voltando minuto depois: - Já falei com ele, amanhã ele vem com o carro de mão.
Sábado de Pascoa, 04 de abril
Antigamente os bonecos de judas amanheciam pendurados nos postes, batizados em nome de um figura que se saiu mau ou fez algo pior. O clímax era no final da tarde, quando liam o famoso pasquim, ou seja, o testamento do judas, onde arrolava todos os podres da comunidade, as vezes dava até em briga e finalmente desciam o boneco e começava a malhação e enfim a queimação, expurgando e exorcizando todos os males através dessa figura bíblica.
No meio da madrugada, a rede de sr. Com rasgou abruptamente e longitudinalmente. Ele já esperava o desfecho, mas não tão cedo, não faz nem quatro meses que comprou nas mãos de seu cumpadre.. A desamarrou e a esparramou sobre o frio ladrinho – deitou e tentou dormir, mas o incomodo era grande – levantou-se e foi merendar um bom sanduba de torta de camarão com café. Alguma coisa acontecia nas entranhas de seus intestinos -e para diminuir a dureza, a acolchoou com uns lençóis velho e deitou-se – Sentiu-se um pouco mais confortável e lembrou-se de seus irmãozinhos de rua, dormindo nos papelões sobre as calçadas e bancos da praça ao ar livre – sentiu-se com um deles – a diferença, era que estava abrigado e seguro debaixo de um telhado. E conseguiu dormir, mesmo com a dureza e os mosquitos zumbindo ao seu redor.
As seis, despertou e correu literalmente para o sanitário, temendo uma nova onda de diarreia – graça a Deus evacuou normal. Sentiu-se aliviado. Banhou-se no quintal, guardou as tralhas na gaveta da cômoda e foi procurar o icônico “Fernão Capelo Gaivota”, mega sucesso dos anos 70 de Richard Bach e o achou debaixo de Balzac e Sayoran e outros.
Botou o orgulho de lado e procurou o fulero de seu cumpadre (que lê a boneca de “O Mundo do Sr. Con” – onde é um dos personagens – tá gostando) e negociaram uma nova rede. Foi na casa da sogra do Comandante Lasierra, o mesmo continua no Turu na residência de Mama Grande cuidando do pés que inflamou e a esposa está lá com ele. Na volta passou na padaria renascer da Praça das Sete palmeiras, Vila Embratel apnhou seus pães e se recolheu a sua concha.