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Escrever ao som de... 2015

 
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Mais uma semana que passou, com excelente poesia inspirada por boa música! Tivemos a oportunidade de ler textos de fracafigura007, Alemtagus, Benjamin Pó, Luxena, Alpha, agniceu, Aline Lima, AlexandreCosta e Liliana Jardim.
Todos eles já constam da versão inicial do nosso livro, que iremos completar ao longo das próximas semanas. Continuamos a esperar por si, que ainda não participou!

A viagem no tempo continua, agora com 2015.

A primeira canção é de Rubel, cantor e compositor brasileiro que ganhou projeção com um percurso independente e uma abordagem intimista ao formato canção. “O Velho e o Mar” integra o álbum "Pearl", gravado de forma caseira e divulgado inicialmente na Internet. O disco destacou-se pela simplicidade dos arranjos e pela proximidade da voz, tornando-se um caso de sucesso e abrindo caminho para o reconhecimento do artista no panorama atual da música brasileira.

A segunda canção – “A Despedida: A Maçã de Adão” – faz parte do álbum "Romance(s)", de Aldina Duarte. Neste disco, a fadista portuguesa canta um romance escrito em verso por Maria do Rosário Pedreira, embalado por melodias do fado tradicional. Trata-se de um álbum duplo porque a elas se juntou Pedro Gonçalves, dos Dead Combo, produtor musical do disco, que inventou uma segunda versão das mesmas canções, numa espécie de banda sonora para a mesma história.

Rubel – "O Velho e O Mar"


Aldina Duarte – "A Despedida: A Maçã de Adão"


O som está lançado. O poema, agora, é seu.

Nota: Caso não se identifique com nenhuma das canções sugeridas, pode inspirar-se numa outra, desde que seja do ano a que se refere o post.


 
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Enviado por Tópico
Alemtagus
Publicado: 13/04/2026 19:10  Atualizado: 13/04/2026 19:10
Moderador
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Mensagens: 4174
 Re: Escrever ao som de... 2015
Quantas vezes o silêncio diz tanto
E o orgulho fere a gente de morte
Dia sim ou não, talvez seja assim
Pinta céus de estrelas num pranto
Preg'as mãos na cruz em cor forte
E canta esse teu fado só para mim

Quantas vezes o silêncio é distante
Se contorce pelas avulsas palavras
Parte sem volta e esquece sem dor
Desse calor a esfriar num instante
Dessa terra que docemente lavras
E semeias quando gritas por amor

Quantas vezes o silêncio foi fome
Das tuas mãos ali olhos nos olhos
No chamego destas, saltimbancas
No breve aperto que lhe consome
As horas gastas de tempos velhos
Fazem negras duas almas brancas

Enviado por Tópico
klopes
Publicado: 13/04/2026 20:15  Atualizado: 13/04/2026 20:15
Muito Participativo
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Localidade: Lisboa
Mensagens: 61
 Re: Escrever ao som de... 2015
Rubel- "O Velho e o Mar"

Faina

Nós de dedos gastos,
grossos como raízes que a areia não prende.
O sal morde a bacia —
lateja, ferro frio, no fundo das costas.
Tanto peso. Tanto.

Ali, onde o azul se faz abismo e muro,
o sopro veio de feição — empurrando a sorte.
É o balanço,
mas o corpo já não tem prumo que o sustente,
mesmo aqui, mesmo firme, no que não mexe.

O que o sopro trouxe, a boca mastigou:
pão amargo, arrancado aos dentes da espuma.
Um homem não envelhece —
endurece, apenas,
couro curtido pelo que fustiga.

As juntas chiam, chiam, como roldanas de outrora:
falta o óleo — sobra o desgaste.
A marinhagem agora é interna,
maré contra maré,
subindo, surda, na mente.

Olho as mãos:
escamas de pele,
sulcos de quem puxou o mundo para terra
e ficou — só — com o frio.

Amanhã,
o horizonte voltará a ser dono,
e eu, entre a duna e o abismo,
esmagado,
medirei a distância entre o que fui
e o silêncio —
que range.

Carlos Lopes

Enviado por Tópico
AlexandreCosta
Publicado: 13/04/2026 23:39  Atualizado: 13/04/2026 23:41
Administrador
Usuário desde: 06/05/2024
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Mensagens: 1602
 Re: Escrever ao som de... 2015
"A Despedida: A Maçã de Adão" - Aldina Duarte


(A)Trevo

são três partes que te encomendo
três folhas de um pé, amassadas
três cabeças-cobra atiçadas
de má sorte, azar sem remendo

hás-de ir ao chão, por um de quatro
entre as urtigas, mas descrendo
na contrição terás, sofrendo
a maçã podre, o fim mais atro

inútil será o innuendo
ou paga oposta, bruxaria
a quem da morte já sabia:
eu... que aos poucos fui morrendo


14-04-2026

Enviado por Tópico
Benjamin Pó
Publicado: 14/04/2026 16:32  Atualizado: 14/04/2026 16:32
Administrador
Usuário desde: 02/10/2021
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Mensagens: 948
 Re: Escrever ao som de... 2015
.
um velho a armar

não sonha com leões
na praia
nem com espadartes
no veleiro
talvez se distraia
com explosões
estandartes
e um mealheiro
que arremessa como criança
que se cansa depressa
do novo brinquedo
conto-vos um segredo
é possível
que no seu jacuzzi
de combustível
use e abuse
da cobardia alheia
esquecendo que o fogo
que agora ateia
e finge que não vê
atingirá o patinho de pvc
e a sua mão esticada
como ave romana
e a grandeza que agora emana
será punho cheio de nada

(inspirado em "O Velho e o Mar", de Rubel)

Enviado por Tópico
Alpha
Publicado: 14/04/2026 17:26  Atualizado: 14/04/2026 17:26
Membro de honra
Usuário desde: 14/04/2015
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Mensagens: 2327
 Re: Escrever ao som de... 2015
A carta que te deixo

A carta que te deixo
nasce no fim do silêncio
dobrada em noites longas
onde ainda eras casa.

Escrevo devagar
como quem se despede
de um lugar que amou
mais do que devia

Entre o que fomos
e o que já não somos
fica este espaço suspenso
onde a vida se esfumou

Levo comigo o que fomos
em gestos que o tempo
não soube apagar
nem ensinar a ficar

E deixo-te em cada linha
um adeus sem regresso
como quem fecha a porta
sem a voltar a abrir!

Enviado por Tópico
AlexandreCosta
Publicado: 15/04/2026 11:56  Atualizado: 15/04/2026 15:49
Administrador
Usuário desde: 06/05/2024
Localidade: Braga
Mensagens: 1602
 Re: Escrever ao som de... 2015
"O Velho e O Mar" - Rubel


Setenta e sete toneladas

Já não me lembro ao certo de quando acordei
sei que foi algures onde a cegueira era
um mamute ancestral em frente a mim
e eu tão pequeno fora dos olhos
tinha comido um patagotitã
mesmo, mesmo ainda antes de nascer
setenta e sete toneladas, dizem
eu acho que eram mais
nem sei se alguma vez haverá balança
capaz de ponderar o real peso
queria tanto desfazer-me dele
libertar tanto excesso
sem nexo
mas isso por si só não interessa, de todo
importa lembrar o outro
o tiranossauro rex que nasceu comigo
e o dia em que ele me saltou fora
comeu o mamute
e o mundo abriu-se
respirei fundo
finalmente tinha conseguido a visão
vi no horizonte a possibilidade de horizontes
com olhos de absorver mundo, mundos
coisas essenciais para digerir o titã
e tudo passou a resumir-se a um papel
com a ajuda do tirano
a pingar sangue dos dentes
infelizmente a vida ser-me-á curta demais
para a consumição que se acomodou em mim
sei que até morrer
não terei digerido mais que umas células
enfim, suspiro
é o que me calhou
de ser
tão enfartado e sem tempo


15-04-2026

Enviado por Tópico
agniceu
Publicado: 15/04/2026 21:26  Atualizado: 15/04/2026 21:26
Colaborador
Usuário desde: 08/07/2010
Localidade:
Mensagens: 804
 Re: Escrever ao som de... 2015 Aldina Duarte – "A Despedida: A Maçã de Adão"
A valsa dos distraídos

Não dançam,
não passeiam,
nem caminham.
Imóveis,
olham
para o espectro dos seus reflexos,
aquele lado oculto depois do íntimo,
alienado de todos os ciclos.

Há muito
que deixaram de ser sombra
para os sapatos.
Anoitecem os passos.
Afastam o caminho.

Tornaram-se ocos troncos,
despidos de ramos,
deixando cair as folhas
antes das palavras florirem,
secando a tinta dos seus dedos
sem nunca assinarem
o início.

Suas raízes perderam o primitivo solo,
nascendo no novo chão
sem fundo,
chamado de solidão
no antigo território do coração.

Enviado por Tópico
FragmentosdeSonhos
Publicado: 16/04/2026 15:03  Atualizado: 16/04/2026 15:04
Da casa!
Usuário desde: 03/07/2025
Localidade:
Mensagens: 247
 Re: Escrever ao som de... 2015/ "O Velho e O Mar"
"O Velho e O Mar"
.
.
.

O Mergulho que Revela

Não é na espuma que a vida se diz
Nem no brilho breve do que é feliz
O raso encanta mas logo se vai
Como onda leve que beija e se desfaz

O profundo chama inquieta e revela
Ali onde a alma se encontra com ela
É no abismo calmo escuro e inteiro
Que o homem descobre se é verdadeiro

Pois o tempo leva o que é superfície
Mas sela no íntimo o que é raiz
E aquele que ousa descer sem temor
Encontra no silêncio a sua cor

Se os anos passam que passem com vida
Não como sombra mas chama erguida
Que o mar não seja apenas cenário
Mas espelho vivo do que é necessário

E que ao final da travessia cansada
Mais que a pesca ou a rede lançada
Permaneça em nós como eterno pulsar
A coragem profunda de saber se entregar

16/04/2026

Enviado por Tópico
Liliana Jardim
Publicado: 17/04/2026 15:41  Atualizado: 17/04/2026 15:42
Colaborador
Usuário desde: 08/10/2007
Localidade: Caniço-Madeira
Mensagens: 4524
 Re: Escrever ao som de... 2015
Feito de silencio e mar

Lá vai o tempo em que ria e chorava
e as risadas ecoavam aos meus ouvidos
como cânticos de pássaros chilrando
agora a palidez das cores
seca o meu olhar
e um esgar atordoa a mente

É a saudade a embalar-me
como se ainda fosse uma criança
punhais aguçados desbravando
as cordilheiras do pensamento
pedaços de brisas balouçando
no peito feito amor

E nos cantos da memoria
vive o teu eco
feito de silencio e mar

Escrito a !6/4/26

Enviado por Tópico
Luxena
Publicado: 17/04/2026 19:40  Atualizado: 17/04/2026 19:45
Da casa!
Usuário desde: 07/03/2025
Localidade: Brasília
Mensagens: 237
 Re: Escrever ao som de... 2015
Ressublimação

a aranha subindo pelas paredes
chega às minhas entranhas
planejando mais façanhas
e isso me convém

o "rancor" condensado sai
aos litros, vazão
revelando um outro lado
enquanto cai pelo chão

e dá uma lição
que repete:
— isso te apetece
comigo querendo ou não

Enviado por Tópico
Aline Lima
Publicado: 20/04/2026 02:01  Atualizado: 20/04/2026 02:49
Administrador
Usuário desde: 02/04/2012
Localidade: Brasília- Brasil
Mensagens: 1180
 Re: Escrever ao som de... 2015
.
Abaixo do Nome

Acorda.

Não por vontade,
por ruptura.

O peito já vinha cheio.
Algo cede
e te empurra.

Não pensa.
Vai.

Sem motivo
é mais exato.

O que sobra
atrapalha.
Fica na areia,
encalha.

Qualquer explicação
já é atraso.
Desfaz o caminho
da ideia até a boca.

E quando vê,
já está dentro.

Foi levado.

Só há avanço
lento, contínuo.
Mar por baixo,
sem pedir licença.

Água na cintura.
Depois no peito.
Depois em tudo.

Não pergunta
se há fundo.
O fundo já não responde.

Não há direção limpa.
Só o que puxa.

E isso dói
sem nome.

Não pede.
Não solta.

Afunda em silêncio,
como se ainda fosse possível voltar.

Mas não é.

Enviado por Tópico
gillesdeferre
Publicado: 20/04/2026 10:57  Atualizado: 20/04/2026 10:57
Colaborador
Usuário desde: 14/06/2024
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Mensagens: 558
 Re: Escrever ao som de... 2015
"A despedida"

nessa voz
tangente de asa
na vaga imediata

disse o fim nos teus lábios
quando os corpos se afastavam

líquidos
lentamente rarefeitos

pingos ácidos
de horas verticais

adeus
língua morta

Enviado por Tópico
DCM_78
Publicado: 24/05/2026 18:00  Atualizado: 24/05/2026 18:01
Super Participativo
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Localidade: Lisboa
Mensagens: 111
 Re: Escrever ao som de... 2015 Aldina Duarte "A Despedida: A Maçã de Adão"
Dor

A dor de ser invadido pela angústia
A dor de falhar
A dor da rejeição

A dor de ser separado de alguém pela morte
A dor de não ser suficientemente bom
A dor de ter chegado ao fundo do poço

A dor de querer chorar e não conseguir
A dor de me sentir a envelhecer
A dor de viver à margem

A dor de achar que sou uma fraude
A dor de querer algo que parece não existir
A dor de presenciar injustiças

A dor de parecer inadequado
A dor de ficar distante e só
A dor de por vezes me faltar confiança

Qualquer que seja a dor que possas estar a sentir, por favor, acredita em ti e não desistas.

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