Naquele dia,
Corri que nem um louco.
Como se pudesse vencer,
A distância,
O destino,
E o próprio tempo.
O tempo que tinha
Era pouco.
Tão pouco,
Que cada segundo,
Pesava como uma eternidade.
E cada passo,
Parecia nunca chegar ao fim.
Sinto raiva de mim mesmo,
De não chegar a tempo.
Raiva das estradas,
Dos relógios,
Do vento,
Da vida...
Raiva de tudo,
O que me afastou de ti,
Naquele derradeiro instante.
Mas já nada podia fazer.
Limitei-me,
A cair aos teus pés nus,
No silêncio,
Onde até as paredes choravam.
Agarrei-me a ti,
Com todas as minhas forças,
Como quem tenta impedir,
Que o amor,
Também morra.
Quase quebrava,
A fragilidade daquele último abraço.
Porque o meu abraço,
Era o último lugar,
Onde ainda te queria guardar.
Só à força,
Te arrancaram de mim.
E eu...
Nem sequer tive força,
Para lhes dizer,
Com a voz presa no peito,
Que ainda precisavas de mim.
Não te queria deixar.
Não queria deixar,
Que fechassem aquela porta,
Nem que o mundo,
Continuasse a girar,
Como se nada tivesse acontecido.
Queria apenas,
Beijar os teus lábios frios,
Acariciar o teu rosto sereno,
E guardar-te mais uma vez em mim,
Como se ainda te pudesse acordar.
Guardar na memória,
Cada traço,
Cada silêncio,
Cada despedida.
E lavar o teu rosto,
Com o meu dilúvio.
Chorei tanto,
Que o espelho deixou,
De me reconhecer.
Havia sal,
Em tudo o que tocava.
Chorei,
Até as lágrimas,
Já não saberem cair.
Até o peito ficar vazio.
Até a alma perder a voz.
Pensava eu que talvez,
Se chorasse o suficiente,
O Universo se condoesse,
E abrisse uma exceção para mim.
Que o tempo,
Cansado de me ver sofrer,
Voltasse atrás,
Nem que fosse por um instante.
Um instante apenas...
O suficiente,
Para ouvir a tua voz,
Mais uma vez.
Para sentir,
O calor das tuas mãos.
Para te dizer,
Tudo o que ficou por dizer,
Pois perdi-me no tempo,
E ficou preso,
Dentro do meu coração.
Perguntei ao casaco,
Ainda pendurado atrás da porta,
Porque continuava,
A guardar o teu perfume?
Perguntei à noite,
Se ainda se lembrava de ti.
Perguntei às estrelas,
Se agora brilhavas entre elas.
Mas todas,
Responderam,
Com o mesmo silêncio.
Cheguei mesmo a rogar ao tempo,
De joelhos,
Que voltasse,
Um instante,
Para trás.
Chamei por ele,
Curvado sobre a ausência,
Com a voz desfeita.
Mas o tempo,
Nunca escutou,
Quem ama.
Segue sempre em frente,
Levando consigo,
Os rostos,
Os abraços,
Os sorrisos...
E deixando apenas,
A saudade.
Uma saudade,
Intemporal,
Que não envelhece.
Que apenas aprende,
A esconder-se,
Dentro de nós.
E ainda hoje,
Quando o silêncio,
Entra pela minha janela,
Fecho os olhos...
E volto a correr.
Na esperança impossível,
De,
Desta vez,
Chegar a tempo.
Mas acordo sempre,
No mesmo instante.
No instante,
Em que te perdi.
E é aí...
Que o meu coração,
Volta a afogar o mundo,
No mesmo instante.
Diogo Cosmo ∞
Lisboa 1982/83
DIOGO Cosmo ♾