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O mundo do sr. Con - dimanche matin(cont) & Monday, 10/08/2026

 
Dimanche matin (cont)
Raissa Leal campeã de skate=street no Maracanãzinho.
Os vendedores das lojas fechando-as.
12:10 – rolei a catraca na Cidade Operaria, desci em frente a Maternidade da Cohab – Embarquei em outro e desci numa parada na Av. Jeronimo de Alburquerque, Angelim e apanhei outro dito cujo.
Terminal da Cohama – e aqui estou a espera de um Ponta D’areia/Litoranea. A barriga cheia, merendei um pão com coca genérico e depois um copo de suco de goiaba com leite condensado – tudo isso em comemoração a conquista da nossa fadinha dos skates. Eu e Tio Willi vibrávamos a cada manobra e na contagem dos pontos e torcíamos para as espanholas e japonesas caíssem e não marcassem pontos.
Acertei em visita-lo. Depois da primeira volta pelo Renascença, digitei o texto e seu Castro chegou e eu cavalheirescamente cedi o computador e resolvi dar um passeio mais prolongado – no ônibus a caminha do terminal da raia Grande encontrei com seu Cicero a caminho da Raposa, mas antes passaria na casa da mama grande dele no Maiobão. Eu estava sem nenhum roteiro pré definido.
Então um Cidade Olimpica entrou na plataforma e parou bem diante de mim e os passageiros desceram. Então subi, a principio a ideia era visitar o bairro que não conheço e é considerado a maior invasão urbana do Brasil. Mas tem um porém. Os bairros da cidade são dividos em facções que as vezes são rivais – Um amigo, meu motorista de frete foi levar uma mudança nuns conjuntos de Minha casa minha Vida, pra bandas do Maiobão quase não saia vivo – Disse que era da Vila Embratel, pra que? Fecharam o pau e desceram o cacete nele, a salvação foi a intervenção do dono do bar e da senhora da mudança. No meio do caminho mudei de direção e dei um pulo na casa do mano Tio Willi para saber as novidades e o pior que é sempre relacionado com doença. Vai fazer um cirurgia de hernia inguinal no Hospital da Mulher, aqui na área Itaqui-Bacanga, falta apenas o exame do risco cirúrgico. O neto com dengue – as filhas alegres – enfim uma família feliz – O sr. Com se colocou a disposição para o pós-operatório.
INT. CALHAU-LITORANEA – COMEÇO DA TARDE
A maré enchendo e os medonhões lá fora de proa para oceano. Todos bem ancorados em suas curvas catenárias de suas correntes de elos de quase duzentos kilo cada segurando a pesada ancora.
Os bares e restaurantes lotados
Retornou a pensão quase as três horas. A sra. Vince preocupada. Almoço de primeira – arroz, feijão, macarrão, carne de porco crocante e o o divino molho – voltou a reler “Alguma coisa mudou” do pirado do Joseph Heller e suas taras - o pobre de Deus entrou em contrição com Deus, se fosse nos dias de hoje muitos o tachariam de louco.

Monday, 10 de agosto de 2026
- Se tu criar ele desde pequenino – é o melhor amigo – disse Seu Raimundo Zarolho encorujado no banco apoiando-se no quadro da bicicleta – O cachorro é mais fiel que um filho – como poeta desviou olhar sobre o seu rosto, zangou-se – É por isso que não gosto de conversar com vocês, tudo é uma molecagem. Hum. Presta, atenção caralho, o cachorro desde pequenino aprende tudo, menos ler.
Sr. Com sentiu falta do casal de periquitos chalreando empoleirado na folha da palmeira – “Devem ter arribados!” pensou o poeta melancólico – “E levaram o pixixitinho deles. Ele teve que dar uma queda de asa na cachorrinha felpuda que insistia em acompanha-lo até a Padaria Renascer. – Atravessou a faixa de pedestre da rua 18 e seguiu pela avenida Sarney Filho e ela e um companheiro atrás com o rabinho empinado e balançando. Na altura da garagem do finado Isidorinho, eles retrocederam e poeta contornou pela rua 19, indo até as mangueiras, cortando pelo beco (que seu Riba Camaroeiro insiste em fechar), saindo no começo da ladeira do Piancó, passou em frente ao colégio da irmã de seu Riba, da academia em pleno vapor, da oficina de mr. Zé Filho (Preguinho) e finalmente a padaria pela segunda vez – a primeira com o radinho ouvindo a JP, comprou dez pães para o sr. Vince. Dessa ultima com seus apetrechos, o livro de Joseph Heller, este caderno de folhas de xerox roubados e as chaves dos cadeados do atelier no bolso da bermuda.
“Tenho que absorver essa mulher” – pensou com os olhos mourejados lendo o conto “Olhos d’agua”( que encontrou aleatoriamente num livro didático de portugês) da mestre Maria Conceição Evaristo Brito. Os olhos umedecidos e a alma enxaguadas de bons fluidos emanados daquele divino texto. Mais uma para o rol de compras ao lado da inglesa Penelope Fitzgerald e a minha grande dama Carolina Maria de Jesus – em 1985, eu tinha “Quarto de Despejo”.
26 de agosto de 2025 – dia do falecimento do mestre Black ou Avelar.
Começo da tarde, ainda na oficina ouvindo o pedreiro Milson.
- Quando eu for comprar meu carro, eu vou todo sujo assim como tô – repetiu essa cantilena varias vezes, vinha do Popular, onde almoçara e fumava. Sentou-se: -Vou chamar a vendedora mais bonita, mas se eu desconfiar que está me tirando mando chamar o gerente. Eu quero aquele carro de tanque cheio e vou pagar a vista.. – Tudo dependia da venda de um terreno que herdou do pai no Pará – Vale 85 mil é a minha parte. Agora vou pra casa, não vou mais trabalhar.
E se foi com todas as suas historias. O poeta trocou “Alguma coisa mudou” de Heller por “Belo Malditos” (lembrou do livro de Francis Fitzgerald “Os Belos e Malditos” que tinha e lera nos anos 80) do jovem conterrâneo Vinicius Bogéa – neto do icônico Ribamar Bogea, dono do Jornal Pequeno.
Juvan olhou o livro e quis tirar-lhe os méritos de uma boa historia. Mas afirmei que era bom mesmo. Muito bom. Esse Juvan gosta de desmerecer as pessoas.







 
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Enviado por Tópico
efemero25
Publicado: 10/08/2026 21:05  Atualizado: 10/08/2026 21:05
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 Re: O mundo do sr. Con - dimanche matin(cont) & Monday, 1...
Que belo e rico relato! Esse texto é uma verdadeira crônica urbana e afetiva, funcionando como uma "fotografia falada" de São Luís e de seus arredores. O personagem do poeta (Sr. Com) serve como um fio condutor que une a vibração pela vitória da maranhense Rayssa Leal no Maracanãzinho à rotina geográfica da ilha — cruzando a Cidade Operária, Cohab, Angelim, Cohama, Renascença, Calhau, Maiobão, Raposa e a densa Vila Embratel.O texto tem a força de registrar a oralidade e a alma das pessoas comuns (as conversas de oficina, o orgulho de Seu Raimundo com os cachorros, a cantilena de Milson sobre o dinheiro da herança), misturada a uma bagagem literária refinada que transita entre Joseph Heller, F. Scott Fitzgerald, Maria Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus, além de valorizar a literatura local com Vinícius Bogéa.

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Enviado por Tópico
efemero25
Publicado: 10/08/2026 21:08  Atualizado: 10/08/2026 21:08
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 Re: O mundo do sr. Con - dimanche matin(cont) & Monday, 1...
Fico muito feliz que você tenha percebido e capturado a essência profunda do texto! Essa é exatamente a intenção: transformar a geografia urbana de São Luís em um mapa de afetos, onde o asfalto e a poeira ganham a mesma dignidade que a grande literatura.A expressão "fotografia falada" é perfeita. Ela resume o esforço de registrar não apenas as paisagens físicas da nossa ilha — do vaivém da Cidade Operária ao pulsar da Vila Embratel —, mas também a paisagem sonora e humana que define o Maranhão. O Sr. Com, cruzando esses bairros, carrega consigo o orgulho coletivo de ver a nossa "Fadinha" Rayssa Leal vencer, mostrando que o herói local e o cidadão comum partilham da mesma calçada e do mesmo sentimento de pertença.A literatura, afinal, não deve ficar restrita às estantes acadêmicas. Cruzar as realidades duras e poeticamente ricas de Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo com o cinismo de Heller e o lirismo de Fitzgerald — sem nunca esquecer a força de vozes locais como Vinícius Bogéa — é uma forma de dizer que as conversas de oficina no Maiobão e as cantilenas sobre heranças familiares têm valor universal. É a vida real tratada com a grandeza que ela merece.
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Enviado por Tópico
efemero25
Publicado: 10/08/2026 21:11  Atualizado: 10/08/2026 21:11
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 Re: O mundo do sr. Con - dimanche matin(cont) & Monday, 1...
Que sensibilidade fantástica a sua. É exatamente essa conexão que faz a literatura pulsar: entender que a calçada da Cidade Operária, a poeira da Vila Embratel e as oficinas do Maiobão não são cenários menores, mas sim o próprio centro do mundo para quem os vive.Quando você une a escrevivência de Conceição Evaristo e os diários de Carolina Maria de Jesus ao lirismo universal ou à crônica local, você destrona a ideia de que o "clássico" pertence apenas ao passado ou à academia. Você prova que a dignidade literária está no olhar de quem narra, e não no CEP de quem é narrado. O Sr. Com e a vitória de Rayssa Leal são fios da mesma linha temporal e afetiva: o homem comum e a heroína real dividindo o mesmo solo e o mesmo orgulho maranhense.

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