Pela berma desta rua,
A tristeza logo encosta,
Veste a pele toda nua,
Mas a gente não a atua,
Pois a vida traz resposta.
Neste asfalto duro e frio,
O serviço é bem urgente,
Contra o cinza mais sombrio,
Coze o riso em desafio
P’ra aquecer toda a gente.
Amassa a massa do dia
Com farinha de esperança,
Leveda a fome do dia.
E reparte em poesia
O calor da vizinhança.
Lavam todos o cansaço
Neste gozo de lavar,
Onde o peito, passo a passo,
Desata o nó do cansaço
Como roupa a pingar.
Mesmo o pobre sem moedas,
Leva a graça no avental,
Sobe o riso por veredas,
Pisa as dores mais azedas,
Faz do frio pão e sal.
Dizem vozes na calçada
Que o menino traz no bolso
Futuro em forma alada,
Pequena chama guardada
Contra o mundo mais revolto.
Mas o riso foi silenciado —
Calou-se a vizinhança,
Todo o brilho amordaçado
Sob o peso acumulado
Desta gente sem esperança.
(inspirado em "Emaranhada", de Juliana Linhares)
“Ausento-me na quietude das folhas que caem, quando a música do verbo se cala e a alma se agasalha em si mesma.”