A locomotiva parte sem destino e sem passageiros, simplesmente parte. Segue sem rota, sem norte aparente. Quando atravessa caminhos e vales, desperta nela um desejo ardente de nunca ter partido, de ter deixado a sua mente fechada numa gaveta sem respostas.
A locomotiva, quando para na estação que lhe foi destinada, sonha, ou melhor, desespera pelos passageiros prometidos. Mas parte, uma vez mais, com as carruagens mergulhadas em silêncio profundo.
Quando a noite já vai alta, deseja perder-se na imensidão daquela floresta tropical que, antes de renascer, já era suportada pela fé. Em momentos de crença, tudo seria perfeito, mas para a locomotiva tudo se tornara nu. Sem motivos para continuar o seu caminho de dor, angústia e melancolia, ela avança pelos carris sentindo um ódio carnal, uma raiva incontrolável sobre as injustiças aclamadas.