Olha bem para cada homem,
em cada um verás um devasso,
seja idoso ou seja jovem
já teve gula em cada abraço
e um braço que estrangula,
já teve peso e tem tara,
uma régua que mede ardor,
prossegue quando dizes: para!
que tem um lado mordedor
e morde estando calado.
Olha para o solene, o santo,
em cada um há um anjo caído
voraz, que procura o espanto
mesmo que já o tenha tido
e mesmo partido, não se estranha;
é um diamante em bruto
com sede de pele e desejo,
que ferve com estranho produto
chamado de beijo
e que vejo, mesmo de olhar fechado...
Sou fiel ao ardor,
amo esta espécie de verão
que de longe me vem morrer às mãos
e juro que ao fazer da palavra
morada do silêncio
não há outra razão.
Eugénio de Andrade
Saibam que agradeço todos os comentários.
Por regra, não respondo.