Nasci de um silêncio que ninguém escutou.
Não chorei — engoli o pranto seco.
Fui costurado em uma pele que não me cabia,
e andei... andei até esquecer que tinha pés.
A cada porta, havia um espelho,
e em todos, eu era ninguém.
A cada abraço, eu sangrava por dentro,
como quem apodrece devagar, sorrindo.
Meu nome nunca foi dito com amor.
Fui um rascunho que o tempo riscou,
uma promessa quebrada antes de ser feita,
um quarto fechado cheio de vultos e poeira.
Tentei gritar —
mas minha voz era fumaça.
Tentei dormir —
e só sonhei com quedas.
O mundo me olhou nos olhos
e fingiu que eu não existia.
Tornei-me a sombra de mim mesmo,
um corpo que vaga
entre o ontem que não foi
e o amanhã que não virá.
Se há Deus, ele cochilou.
Se há salvação, passou sem me ver.
Tudo que me restou
foi este corpo que insiste em viver...
e esta alma que implora para morrer.