a rua às duas horas da noite
o silêncio certo, como desenhado a regra e esquadro
as casas de janelas voltadas para dentro
um carro ao longe como fugisse
a voz do sono no paralelo entre os passeios
um semáforo que alterna a cor, inútil como um urso sentado numa cadeira a ler o jornal
a cidade regula o relógio na perfeição nocturna desta rua comprida
as casas que se aproximam como se quisessem beijar-se
um beijo cínico de aranha
as luzes mornas dos lampiões
as sombras esguias
apagando-se em abandono
um coração lateja na forma de um grito no escuro
a mulher não se recolheu a tempo
de escapar à agenda da morte
outro grito outro coração
dentro das casas também se chora
murmuram-se nomes, avivam-se memórias
escorrem nomes nas sarjetas
velam-se os rostos
regressam os encobertos na baba das ratazanas doentes de peste.