Quando eu nasci...
entregaram a minha alma.
Ao desprezo de uma mãe.
Sobre o descaso de um pai.
Eu lembro de coisas
que eu não quero lembrar.
O sofrimento
foi a minha primeira dose.
Eu viajava em minha solidão.
Acordava e dormia
na violência.
Sonhos eram como policiais
metendo o pé na porta.
Eu acordava de joelhos.
Com minhas mãos levantadas.
A única oração
que eu conheço.
Quando eu nasci...
entregaram a minha alma.
Sobre o descaso de um pai.
Ao desprezo de uma mãe.
O sofrimento
foi a minha primeira dose.
Eu me lembro apenas de coisas
que eu não quero lembrar.
O sofrimento
é a minha única dose.
A violência
foi meu parque de diversão.
Quando eu nasci...
entregaram a minha alma.
A minha alma.
A minha alma.
Foi a minha primeira dose.
Meu primeiro crime
foi chorar por ter fome.
Pelo frio.
Por dormir sujo
com minhas próprias fezes.
O nome que me chamavam
era moleque.
Depois me chamavam
de pisante,
sapato,
pivete
e menor.
Hoje me chamam
de trinta e três.
Quando eu nasci...
entregaram a minha alma.
Ao desprezo de uma mãe.
Sobre o descaso de um pai.
O sofrimento
foi a minha primeira dose.
Eu me alimento da dor.
E ela me dá
um enorme vazio na alma.
O sofrimento
foi a minha primeira dose.