Filhão, vou chamar de trilogia a história da tua vida.
Como é qualquer vida... mas no teu caso, apesar de incompleta, terá muitas páginas,
Pois há memórias que serão contadas pelos teus amigos.
Pelo menos, tal como a Ângela pediu, assim espero que aconteça.
Continuo neste terceiro mês
como nas primeiras semanas
Espero o milagre e escutar-te.
Viraria este mundo em pantanas
Para ouvir outra vez:
-“Então papá, como é que está?”
... E há tanto para contar-te...
Mas hoje vou tentar não falar
Apenas da dor que aqui ficou
Quero ser capaz de explicar
O exemplo
que a tua existência deixou
A tua trilogia foi interrompida
Parou no início da segunda parte
Quando estavas mais feliz na vida
Até o último livro era de poesia, de arte
Quarenta e cinco anos esbatêram excertos
Da nossa vida e de tantos apêrtos
Que preciso relembrar e escrever
Não vá a - pê-dê-i - fazer-me esquecer
E se um dia a menina, já mulher
Quiser saber bem quem foi o papá
Este velho vovô, contigo já estará
Mas ouvirá estas músicas... se ela quiser
Quero que saiba que tu, desde pequeno
Soubeste que viver era superar a dor
Que o coração era fragil, mas enorme e pleno
E que ela recebia ,até transbordar, o teu amor
Saberá que foste um paizão inigualável
E que muitos couberam nesse coração doente.
Eras muito atento com toda a gente,
Discreto e o ouvinte sempre confiável
Que tenha a certeza de que o teu sorriso
O teu olhar e a tua educação a falar
Era quanto te bastava para todos conquistar
Nada mais te faltava, não te era preciso
Se até lá eu viver, e ela me disser um dia:
“- Vovô, quero mais, quero saber TUDO”
Eu abrirei as minhas páginas da tua trilogia
Mesmo que a voz trema, ou esteja meio mudo
Contar-lhe-ei o que sei, sem ser breve
Afinal, é isso que mais quero fazer
E jamais deixar que o tempo leve
Aquilo que ela merece e deve saber
E assim vou escrevendo parte da trilogia
A que o destino não te deixa descrever
Para que a tua filhinha possa, um dia
Ler quem foste e acabar de te conhecer
Que saiba que não foste como o livro que termina
e que se guarda, quando acabamos a última folha.
Foste, isso sim, como o livro sempre à mão
aquele que nos motiva ou ensina
Em qualquer parágrafo que se escolha
Não sou poeta mas, quem sabe, um dia escreverei
um texto que (pela persistência e sorte) possa ser lido como poema