Poemas :
Histórias de amor inacabadas (8)

Uma história feita de páginas, folhas e balas.
Tudo começou com dois desconhecidos
a ler a mesma revista, Crónica Feminina.
Luís gostava da secção de anúncios pessoais, usada por leitores para procurar amizade, namoro e troca de cartas.
Um dia, resolveu também colocar um anúncio, que dizia:
“Jovem de 27 anos procura combater a solidão a dois, com uma amizade honesta.”
Fernanda sentiu uma breve empatia ao ler estas palavras e resolveu responder.
Durante três meses trocaram cartas, dia sim, dia sim,
e, a cada partilha, encurtavam a distância entre os seus corpos,
ceifando os sonhos.
Contudo, Luís guardava um segredo que nunca contou:
trazia uma cicatriz em vez do rosto,
herdada da Guerra do Ultramar,
e tinha medo de a convidar para um primeiro encontro.
Até que, um dia, Fernanda o convidou,
e ele não teve como recusar.
Decidiram encontrar-se junto à antiga fábrica de descasque de arroz, em Vila Franca,
hoje o edifício da Fábrica das Palavras.
O que poderia correr mal nesse primeiro encontro?
Será que Fernanda ficaria tão desapontada ao vê-lo sem o véu das palavras?
Será que poderiam ficar juntos para sempre, apesar da marca de um acidente?
Talvez, quando conhecemos o outro por dentro,
saibamos antecipadamente que a beleza tem mais sentidos
para lá da visão.
Tem a comunhão dos sentidos no toque da mão,
o perfume corado do baton em beijo,
o som do entusiasmo de um abraço,
tocando na porta do peito
para o coração entrar.
Continua...
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