O vento tinha acabado para mim, o sol não o sentia, bem lhe via o brilho, as cores que brilhavam, o azul que projetava nas nuvens e refletia no chão. Os cheiros são coisa de que só tenho de memória, é desimportante aproximar-me das flores, daquelas bem floridas, disparatadamente floridas, a estoirar em cheiro, bem se vê, bem se adivinha, que nada. Que nada. Só uma pequena dor aqui no raio dos dedos, nos mais mínimos da mão esquerda. O gato, que me haveria de fazer, roeu-os entre a vida e a morte e foi a única dor física que trouxe. Bem os posso sacudir, passá-los por gelo, por fogo, pisá-los com uma pedra, que ela lá está, aguda, rápida, fugaz, uma dor mínima, insistente que o gato me deixou de memória de quando vivo. E digo-o assim abertamente que agora já não o estou. Há um certo sentido de omnisciência nisto tudo, um sentido de omnipresença que ainda não consegui captar por inteiro, que ainda sou novo no ofício. E lamento. Lamento tanto, Ana. Lamento não te ter aqui também, que sou preso aos factos da vida e preso ao ofício da morte. E ninguém me vê, nem eu te vejo. Nem sei bem onde é esse céu onde te meteste com a bicicleta e que andei a ver se via ainda no outro dia em sonhos, que era só um sonho, mas pareceu tão real. Perdi a capacidade para sonhar. Digo-te, encontrei no meio desta espécie de morte, sei lá mesmo morte se uma vida meio vida, se todos assim seriam, que se o fossem não os encontrei, até tive curiosidade, espreitei por todo o lado, garanto, aqui desde lado em que estou, mas falo ainda, possa parecer coisa estranha, inusitada (penso aqui nos usos que já dei a esta palavra); encontrei nesta espécie de morte, como dizia, uma forma de liberdade absoluta que nunca havia sentido, uma genica nos gestos que nunca tive em vida, talvez até tivesse tido, que julgo não ter trazido a memória toda agarrada ao crânio. Até parece que ela só aparece quando quer, a tonta, estou aqui a lembrar-me: nem sei se a memória me faz falta, porque parece tão caprichosa, como nem fosse produzida por mim, como um outro se ocupasse do assunto, uma espécie de oficial de memória, a escarrar as lembranças que entende quando solicitado, nem é que seja muito solícito, o tonto, digo-lhe Lembras-te do sítio tal, e ele lá me responde sim ou não, conforme ache por bem a resposta. Se calhar até é tontice por estar assim no meio deste estado, que um dia poderei vir a definir mas a que agora não tenho acesso, digo-o como houvesse uma qualquer porta que chegasse a mim e tudo isto me parece tontíssimo. E os sons. Os sons não são bem sons, bem os consigo ouvir, melhor dito, perceber tudo sem que haja qualquer forma de transformação sonora processada por tímpano humano. Humano. Humano. Repito-o de forma intencional, a ver se lhe capto o sentido. Ainda sou novo no ofício. Se me for permitido maior tempo, ainda que agora o tempo seja de estirpe diferente, haverei de lhe captar o sentido. Muitas coisas mudaram desde que morri, ainda hoje, ou ontem, nem sei, que o tempo neste estado se baralha todo. O que mudou foi a humanidade. Ficou presa algures entre a terra e o céu. Não fosse eu tanto desejar ver-te de novo, Ana, provável seria fazer transição serena, sem esta necessidade tonta de me explicar, de me saber e isso tudo. Estaria no céu ou no inferno, na pior das hipóteses, e seria tudo. É então que penso que a minha história já não tem vida, não tem personagens, não tem nada. Sobrevive à custa de sombras, de uma vida que observa do lado de fora mas da qual já não participa. E teria isto começado com a partida, Ana, ou remonta a um outro estado qualquer? Falo-te ainda, Ana, a ver se me sabes responder, se me faço ouvir, ainda que não tenhas dado de ti e pareça tonto insistir numa resposta que não virá. A minha morte não foi morte em sentido físico, muito mais que isso, foi uma consciência que me deu, já a morte me tinha apanhado há muito. E tu, Ana, és ainda a única forma de dar sentido ao fazer dos dias, por isso te recupero à luz desta quase noite, já o céu se adivinha pintado de estrelas pequeninas.