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Prosas Poéticas : 

Névoa

 
Tags:  amor  
 
A névoa do dia preenche a atmosfera como se fosse magia, como se quisesse esconder a paisagem em redor. O silêncio da manhã aconchega-se ao meu corpo como gotas de orvalho sobre as pétalas expostas de um malmequer que teima em ficar aberto no Inverno. Caminho, sentindo os pés molhados, as mãos geladas e o olhar perdido entre árvores e arbustos. Sigo sem rumo algum, sabendo que não o faço sozinho, sabendo que a tua essência me segue, como olhar atento que me ofereces.

Ando, rodeado de multidões invisíveis, de gentes desconhecidas, sem rostos. Não tenho medo, por que sei que te trago pela mão, qual menina, passeamos nesta imensa planura, como crianças em idade da inocência. Inalo o perfume desta brisa fresca, suave gosto silvestre que me adocica os lábios, como se teus lábios provasse. Ofereço-te uma flor, simples e singela como a nossa própria natureza.

Nesta bruma descortino o teu olhar, que fixamente me observa, como se nunca me tivesse visto, ou, quem sabe nesse teu jeito analítico, queira adivinhar-me o pensamento, meu próximo movimento. Não receio, porque a minha alma é de cristal e não se esconde detrás de nenhum corpo, não usa nenhum artifício, apenas se limita a brilhar, para que sempre que precises de mim, me possas encontrar.


 
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Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 22/12/2008 21:45  Atualizado: 22/12/2008 21:45
 Re: Névoa
O horizonte das palavras

Sem direcção, sem caminho

escrevo esta página que não tem alma dentro.

Se conseguir chegar à substância de um muro

acenderei a lâmpada de pedra na montanha.

E sem apoio penetro nos interstícios fugidios

ou enuncio as simples reiterações da terra,

as palavras que se tornam calhaus na boca ou nos meus passos.

Tentarei construir a consistência num adágio

de sílabas silvestres, de ribeiros vibrantes.

E na substância entra a mão, o balbucio branco

de uma língua espessa, a madeira, as abelhas,

um organismo verde aberto sobre o mar,

as teclas do verão, as indústrias da água.

Eu sou agora o que a linguagem mostra

nas suas verdes estratégias, nas suas pontes

de música visual: o equilíbrio preenche os buracos

com arcos, colinas e com árvores.

Um alvor nasceu nas palavras e nos montes.

O impronunciável é o horizonte do que é dito.



António Ramos Rosa
ACORDES, QUETZAL EDITORES, 1990, 2ª EDIÇÃO, P. 81



Este comentário é simplesmente a minha oferta de Natal.

Beijos

Feliz Natal

Enviado por Tópico
quidam
Publicado: 22/12/2008 22:29  Atualizado: 22/12/2008 22:29
Colaborador
Usuário desde: 29/12/2006
Localidade: PORTIMÃO
Mensagens: 1438
 Re: Névoa
Todo o cristal tem um raio de brilho que não sabemos bem de onde vem, nem conseguimeos explicar, só sabemos que é um reflexo da luz...
Jinho

Enviado por Tópico
deep felling
Publicado: 23/12/2008 14:21  Atualizado: 23/12/2008 14:21
Super Participativo
Usuário desde: 04/02/2008
Localidade: odivelas
Mensagens: 143
 Re: Névoa
Mais um brilhante poema teu, obrigado por nos brindares com os teus textos.