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Carta 29

 
Cerceado pelas muralhas do meu quarto, em madrugada crispada, olhos uivos de minha alma.

Jolie,

Recebo nestas minhas frias mãos, mais uma dessas tuas escritas largadas. Ao cabo de teu finado verbete, recorro ao intróito, buscando alguns poucos outros que me façam renascer de minhas cinzas. Muito eu lamento, e, desde já me desculpo, pelo escassear destas e daquelas minhas palavras. Julgo que a distância possa tê-las tomado como refém, e, o resgate será a maior paga deste nosso atlântico amor. Tomo a largos goles desta maldita geografia alardeada, mas não vacilo diante suas faces, nem tão pouco ousaria condenar quem delas se valessem para conduzir o leme a outros mares.

Dizem da França a matriarca dos melhores espumantes. Deles se provam a toda hora, em ébria celebração à vida em seus mais insípidos dissabores. Mas, aqueles que se derramam em suas taças cristalinas desconhecem a verdadeira ambrosia recolhida na maciez dos lábios de um anjo. E nessa marca que é tão tua, absorvo-me de todos os pensamentos que memoram os mais doces beijos que tomei desta tua boca.

Recordo-me francamente de Michel, rapaz de tua idade, olhos vívidos, postura atlética e austera. Percebi ao cabo de poucos dias, que Michel acompanhava-te pelos corredores da Universidade, e, não poucas vezes, encontrei-o a espreitar-te pela biblioteca. Relembro agora que, uma ou outra vez, os surpreendi aos joviais risos e conversa animada aos fins de minha aula, que se estenderam por todo o campus, durante as outras semanas seguintes. Trocavam livros e sorrisos, muito mais do que palavras. E quando do ensaio semanal de nossa teatralização, não me escaparam aos olhos a tua preferência com quem dividir o palco e toda a cena, nem tão pouco o exímio entrosamento que exibiam, como se a vós Shakespeare houvesse escrito. E analisando, como os pude observar, creio eu que para o teu projeto melhor parceiro não há. Desejo-lhes estrondoso sucesso!

Discorro essas linhas no mesmo tom das saudades que me acompanham do crepúsculo dessas minhas velhas pálpebras ao alvorecer de mais um novo dia. E antes que este espumante me suba de vez à cabeça, peço a ti que, por Deus, não te esqueças, do quanto de amor tenho por ti.

Beijos de quem cegamente te ama,

Do teu Secret Passionné,

Victorio Pierre.


rody

 
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rody
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