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Poemas : 

Notas de Rui Oliveira e Sousa

 

Chile – Pablo Neruda e a Isla Negra

A visita que fiz a Isla Negra foi um dos momentos mais agradáveis, e, igualmente, mais emocionante, desta minha última deslocação à América do Sul.

Na ida até Isla Negra, a mais famosa das casas de Pablo Neruda, que, como já escrevi em anterior artigo, não é uma ilha, e se situa a cerca de 120 km de Santiago do Chile, fiquei quase que fascinado com tudo o que vi, mas, também com o que senti!

Encantou-me a beleza do lugar, o enquadramento paisagístico, a casa, a decoração interior, o porquê de certos pormenores que a vivenda possui, mas também julgo ter sentido a força, a ternura, o poder da imaginação e do amor desse Homem (sim, com letra maiúscula!) que foi, e é, Pablo Neruda, pois homens com esta dimensão são imortais.

Porventura, em outras "NOTAS DE VIAGEM" já terei escrito que não sou apreciador de Poesia.

Gosto muito de ler, mas, indiscutivelmente, prefiro Prosa.

Logicamente, que para afirmar que não gosto de Poesia, tenho de já ter lido diversas obras escritas nessa forma, e, de tudo o que li, apenas fiquei a gostar de Pablo Neruda, Sophia de Mello Breyner Andresen e Al Berto, bem como de alguns sonetos de Luís de Camões.

O escritor Chileno não possui somente uma obra poética magnífica, tem também uma vida muito rica e interessante

Logo, é perfeitamente natural que eu me sentisse particularmente bem naquele local de uma espectacular beleza, que é Isla Negra, e, simultaneamente, pleno de testemunhos do que foi a sua vida, uma vida apaixonada, e apaixonante, mas polémica!

O poeta, filho de um operário ferroviário e de uma professora primária, nasceu em 12 de Julho de 1904, na cidade de Parral, tendo como verdadeiro nome Ricardo Eliecer Neftali Reyes Basoalto.

Dois anos depois, muda-se para a cidade de Temuco, e, ainda na fase escolar, publica os seus primeiros poemas no jornal "La Mañana".

Mais tarde, em 1920, começa a colaborar na revista literária "Selva Austral", utilizando então o pseudónimo Pablo Neruda com que viria a alcançar fama mundial.

A escolha que fez deste pseudónimo, já espelha, claramente, a sua enorme paixão pela Poesia, se não vejamos: Paul Verlaine foi um importante poeta francês do século XIX, cuja obra era muito admirada pelo Chileno, e Jan Neruda, um poeta checo, também do século XIX, igualmente por si muito apreciado.

Logo em 1924, já em Santiago, para onde fora habitar três anos antes, publica uma das suas obras de maior impacto, e que ainda hoje em dia, é procurada por muitos admiradores da poesia de Pablo Neruda, "Vinte poemas de amor e uma canção desesperada".

Poucos anos mais tarde, em 1927, Neruda inicia a carreira diplomática, que se virá a revelar determinante para toda a sua vida, inclusive, no particular aspecto que serve de tema às "NOTAS DE VIAGEM" de hoje, a casa de Isla Negra.

O poeta percorre diversos postos diplomáticos, começando por Rangoon, na antiga colónia britânica de Burma, cidade que hoje se denomina Yangon e é a maior urbe do Estado Asiático, que em Junho de 1989, se passou a chamar Myanmar, em vez de Birmânia, seguindo-se Colombo, no antigo Ceilão, hoje Sri Lanka, Batávia, em Java, que presentemente faz parte da Indonésia, Singapura, Buenos Aires, Barcelona, Madrid, é ainda Cônsul para a imigração Espanhola em Paris, e, pouco tempo depois, Cônsul Geral no México.

É esta vida de diplomata, que lhe proporciona contactos e encontros com muitas pessoas importantes no mundo cultural, e que também lhe vai permitir conhecer Delia del Carril, 20 anos mais velha que ele, oriunda de uma abastada família de fazendeiros Argentinos, e possuidora de uma larga experiência na cena internacional.

Pablo Neruda, que se casara em 1930, em Batávia, com Maria Antonieta Hagenaar, e de quem se divorciaria em 1936, apesar do êxito que tinha em círculos prestigiados, mas de algum modo restritos, não conseguia que a sua obra se publicasse com a repercussão que merecia.

Foi pois o mundo de relações e a inteligência da pintora Delia del Carril, que o conseguem tornar conhecido e familiar junto de todos os seus contactos.

É também Delia del Carril, que compra para Pablo Neruda o embrião da hoje mundialmente célebre casa de Isla Negra.

Contudo, não foi Delia que partilhou com Neruda este autêntico "ninho de amor".

Tal aconteceu com uma cantora chilena, chamada Matilde Urrutia, que em tempos foi contratada para trabalhar na casa do casal, em Santiago do Chile, a fim de tratar do poeta, que recuperava de um acidente de automóvel.

Neruda, apesar de continuar casado com Delia del Carril, casamento esse que tivera lugar em 1946, inicia a grande paixão da sua vida com Matilde, acabando por se divorciar de Delia, em 1955.

Dado que o tema deste artigo é a Isla Negra, a mais conhecida das três casas de Pablo Neruda, tendo em anterior artigo, quando escrevi sobre Valparaíso, mencionando uma das outras suas casas, La Sebastiana, que se situa naquela cidade portuária, agora que citei a terceira mulher do poeta, será oportuno referir que a outra das três casas de Neruda, está em Santiago do Chile e foi por si mandada construir para Matilde Urrutia.

La Chascona, localiza-se na base do Cerro San Cristóbal, na zona central que envolve o jardim zoológico da Capital, e foi assim baptizada por Pablo Neruda numa alusão clara a Matilde - chasca é uma palavra da Língua Quechua muito popular no Chile, que significa "cabelo emaranhado", sendo esta a raiz da ligação com a sua mulher.

Por curiosidade, é de notar, que após o sangrento golpe de estado de Pinochet, em 11 de Setembro de 1973, a ditadura mandou destruir La Chascona, e a outra casa, La Sebastiana, em Valparaíso, também foi pilhada e vandalizada.

Sublinhe-se, que quando o regime ditatorial executou mais estes actos de barbárie, já Pablo Neruda alcançara renome mundial, fundamentalmente como poeta, e tinha um extenso passado político.

Por vezes, existem pessoas, nos mais diversos domínios de actividade, mas, principalmente, no campo das artes, que só após a sua morte, se tornam conhecidas e alvo de admiração.

Porém, tal não foi o caso de Pablo Neruda.

Cedo se envolveu na actividade política, tendo sido eleito senador da República em 1943, pré-candidato à Presidência da República em 1969, e muitas vezes se manifestou pela melhoria das condições de vida dos mais desfavorecidos.

Este comportamento, nos tempos do Presidente Gabriel González Videla, que presidiu aos destinos do Chile entre 1946 e 1952, acabou por levá-lo ao exílio, caso contrário seria preso.

Curiosamente, González Videla foi conselheiro de Estado durante a ditadura de Augusto Pinochet - as coincidências que a vida nos traz...

Todavia, é conveniente destacar, que o activismo político de Pablo Neruda foi, muitas vezes, polémico e controverso, e, apesar de sempre se ter mantido fiel à mesma ideologia, por exemplo, a sua posição perante alguns dos principais intervenientes políticos de então, não foi sempre a mesma, visto que algumas contradições se verificaram ao longo da sua vida.

Ainda quanto ao passado de Neruda, mas agora no domínio literário, como poeta já publicara inúmeras obras, entre as quais me permito destacar, a anteriormente mencionada "Vinte Poemas e Uma Canção Desesperada" (1924), "Os Versos do Capitão" (1952), "Odes Elementares" (1954), "Cem Sonetos de Amor" (1959), "Memorial da Isla Negra" (1964) e "Cadernos de Temuco" (1996), tendo recebido o título honoris causa da Universidade de Oxford, em Inglaterra, e o Prémio Nobel da Literatura, em 1971.

Nas próximas "NOTAS DE VIAGEM" concluirei estes apontamentos sobre a Isla Negra, dedicando-me com mais detalhe à casa e ao local onde a mesma se situa.




Novembro de 2006
Rui Oliveira e Sousa







Pablo Neruda
( 12/07/1904 — 23/09/1973)
Autores Clássicos no Luso-Poemas

 
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Pablo Neruda
 
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Enviado por Tópico
Henricabilio
Publicado: 07/09/2009 18:20  Atualizado: 07/09/2009 18:20
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 Re: Notas de Rui Oliveira e Sousa
Apreciei ler este texto... Neste preciso momento, tenho na minha frente "Plenos poderes" que muito aprecio.
Grande abraçooo!
Abilio