Qualquer ruído, qualquer palavra
Há falhas naquilo que faço,
quase já posso ouvir meu próprio grito.
Há falta em quase tudo que falo.
Poderia evitar a perda,
mas qual seria o motivo?
Cheguei a esperar a tempestade,
precisava pousar.
Ela não veio, sem referência.
Sabe aquele momento no qual dizem ou escrevem,
“opera por instrumentos”?
É que a derrota chegou em dia de frio e chuva.
Calma, um silêncio triste.
Até estava preparado,
mas não foi fácil.
De certo modo, a chuva até ajudou,
escondeu meu rosto molhado,
abafou qualquer ruído, qualquer palavra.
Todo dia
Incerto parecia já cedo,
chega a frente fria,
quase não há pássaros,
vento no portão, neblina na rua de cima.
O velho Ford não pega, pinga óleo,
cantam as crianças da vizinha,
barulho na casa dos fundos,
o alarme dispara, o ladrão dispara.
O que sinto e não deveria
O que sinto, sei que não deveria,
Pois de olhos fechados ainda vejo,
Ainda que me cegue o desejo,
Não há escolha, nem poderia.
São traços, farrapos, não desisto,
Pois sei, não deveria, nem mereço,
Mas suas mãos e pele ensejo,
E em seus olhos e boca, insisto.
Há de fazer Sol amanhã,
Hei de esperar a luz cair,
Espero ver o vento correr.
Seu rosto novamente nesta manhã.
Seu olhar, o meu atrair,
Espero o momento de correr.
O pensamento que não controlo é dela
É o que faz respirar.
Nem queria mais,
luz, ar, som, morena
largo, leve a lembrar.
Faço o tempo todo.
Mantenho controle,
sempre que minha mente
já não me pertence.
É que quando a tenho,
a mente, o pensamento.
Ela surge e domina.
Fato é os dois saberem.
É o mais completo desvaneio.
Nunca sou dono do que penso.
Um choque absurdo,
contra qualquer lei.
E o fruto de sonho,
ilha em água doce
e você cercado de grades.
Liberdade só no pensamento
aquele mesmo que não controlo.
Abandonado
Há coisas que não têm valor algum
O sentimento de alguém que erra é um deles.
Só há abandono, tristeza, rejeição.
Eu sou isso. A lembrança do que eu poderia ser.
A total falta de felicidade,
A mais completa ausência de paz ou caminho para ser feliz.
Este sou eu.
Sem qualquer rima, a tragédia anunciada.
Só quem foi abandonado sabe.
Só quem foi deixado para trás sente.
Só quem tem como única força viva a prece.
Gente que foi embora, gente que não venceu
Sobre a mesa empoeirada,
Sem arrumação há dias,
O quadro de moldura nova:
Reprovado.
As fotografias em papel:
Envelhecidas.
O caminho não mostra o tempo,
As escolhas não determinam ninguém,
neste processo de coisas,
Nada importa se não brilha,
Não funciona se não vence.
Aquilo que ignoro e sou
Apenas deixo de lado no tempo,
Ainda assim não esqueço.
Pois se me perco em linha reta
É porque sou eu capaz de me redefinir.
Deixo de lado também, ainda que por agora,
Aquilo que erro, mente ou levar a enganar.
Pois já nem doem mais os joelhos de tanto sangrar.
Sou aquele que se engana e convive com a consistência de cada erro.
Devo também ignorar o reverso de cada verso ou frase,
Pois se aquilo e isto que penso e escrevo define quem sou,
Melhor ainda fala por mim o que pensei e calei.
De sua maneira, resguarda cada trecho do caminho que refaço.
Sozinha
Nada mudava sua forma de ver,
Mesmo entre tantos, sozinha.
De fato, já se acostumara,
No que se é e o que se parece,
Às vezes, nem sabia,
Mas um se mistura no outro,
E já não se sabia o que era verdade.
Pensa em aceitar, ser, de fato, sozinha...
Mas precisa da aparência,
Ou ainda, já não se lembra como era,
Não se imagina sem a mentira.
Fora dos campos
Desenganos sopram do fim da tarde em grandes
Campos de vacaria, carros que passam, em teu horror.
Trânsito insuspeito, travados, reles, deselegante.
Descuidado, estância de ressacada de rio, raio de temor.
Acaba com um sentir, desprevenido, solto,
Fala de fins soprados em sol penetrou vermelho
Derrota flagrante, loucos de vinho morto.
Seus olhos disseram não, acenava casaco negro.
Com vento, balança, na boca, canta, o fogo, o corpo.
Deságua rio, pois diz eterno, ainda que não vida.
Voa com direção, mas baila sem chegar ao porto.
Andavas, tropeçavas na lentidão da avenida.
Era normal, suas subidas, raras ruas, paradas de sinal.
Os jornais, bancas, bancos das praças, o fim da tarde.
Lutam, ladeiras, preces perdidas, caminho tão leal.
Já não chora, não leva de volta, às 13 horas em parte.
Fabiano Reis
Atormentar a dor
Apesar dos perigos,
Apesar do medo,
Ao passar do tempo,
Ao ler o já lido,
Acertar a testa,
Aceitar o carinho,
Atormentar a dor.