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Poemas, frases e mensagens de MargaridaRibeiro

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de MargaridaRibeiro

Não prometo!

 
Não te prometo que não vá ao mar
quando a água teima em me escapar por entre os dedos...

Não te prometo que não vá ao sol
quando inesperadamente se acende o dia.

Não te prometo não ter vontade de fugir
quando a avestruz encosta a cabeça na areia.

Não te prometo que não feche os olhos
quando a porta permanece fechada.

Não te prometo que não me incendeie de fúria
quando a sabedoria do sábio o abandona.

Não te prometo que não seja labareda
quando o seu halo se infiltra na minha mente.

Não te prometo sequer que sei onde vou
porque neste labirinto só sei o que brilha em mim
e o nome que tem.
 
Não prometo!

Apenas um sonho...

 
Que sonho eu?
Que és enseada
e adormeço sob as ondas
aspirando a terra que me recebe.

Que sonho eu?
Que és canto de Primavera
onde me estico e alcanço
o pólen das magnólias.

Que sonho eu?
Que dedilho os teus lábios
com o sabor a fruta almiscarada
do amor que me semeaste.

Que sonho eu?
Que sou a fonte alquímica
do manancial rosmaninho e manso
onde felino te apossas mestre.

Que sonho eu?
Que sou gaivota e andorinha
farol de prata num trovão
mãos de sol no teu rosto.

Que sonho eu?
Que sou em ti o que me és
que és livre em mim livre
e dois somos um junto ao rio.

Que sonho eu?
Que cicias o meu desejo
e aportas o meu corpo-alma
no embarcadouro do teu É.
 
Apenas um sonho...

Estaca

 
Pulseira perfurante descai
arrombo do súbito no denso
separa, rasga, desune, parte.
Estia o ventre, irriga o pão
das visceras flamejantes e remexidas
mão cravejada de adagas esferudas
quando lábios de metal sobrepujaram
as cartas do Mestre, perfídia do plano.

O desarranjo foi máscara da mente
o biltre é um lápis do xadrez
escritor de lápide drapeada de mapas
insolutos no seu enrugado esgar,
não se empedreite a cornija
sem dar o carvão à lareira do actor.

Ó urbe sem freio, rastilho de insanidade
és a faca que recorta e chacina
quando o maremoto do inferno eclode
pelas avenidas de orquídeas em avenças
de magnólias outonais.

Eleva-te ao cume
asa-barbatana e despranta-te à porfia
do açúcar polvilhado no azul.

O juiz que te deu poço
é rapaz, não douto de pranchas
que as cores emprestam à íris.

O cruel é espinho, o prego
um carimbo do misso com
pelo uno a escadar, às alv-luz…
a terra é ocre e escura.

Poema escrito em resposta a um poema com o mesmo título do poeta que neste site se denomina Azke.
 
Estaca

Perdição

 
Sei essa sensação
do abismo a abrir as goelas
para aspirar as presas.
Vou na sua direcção
incapaz de desviar
o meu olhar
do seu expirar.
Contaminada dos excrementos
no meu corpo fragmentos
de um ser negro.
Atrai-me a si
para devorar impiedoso
estraçalhar em prazer.
Sem cintilar de consciência
homem descoraçado
da humana tangencia.
O fascínio profere,
a lógica e sageza do eterno
lhe dão asas de anjo.
No seu verso encanto
insuficiente sou leiga
e cativa de fraqueza.
Nasci letra do chão
e ainda que esteja rubra
da vergonha de mim
aperto-me no seu peito
para abrir uma cova
e sob ele ser leito.
Perdição ao assombro
na hipnose do bravio
não sou luz.
 
Perdição

Dói!

 
Dói-me
a falta que não te faço
a vontade
que não te desperto
o fogo
que arde em mim tão belo
do teu rosto nulo.

Dói-me
o dia ser noite e a noite dia
e tu o mesmo ser sendo
num teclado frio e morto
sorvendo, mastigando, digerindo
enquanto eu definho
na fraqueza de ser viva
com as letras nas mãos
e a nascente do meu nome.

Dói
não teres nos cabelos
o toque dos sinos
que clamam por mim,
a miopia do sol
que me visse frágil lua
rodeando o meu sul fenecente
com a coragem da voz
que se imprime e revela.

Dói
não te ser
como tu és,
a doce sobremesa
do destino.
 
Dói!

Uma camélia

 
Trago dependurada a nascente
uma flor que me veste por inteiro
não é rio nem mar
mas encontra-se no abraço
da água do sal e do mel
tem a beleza do que surge
sem anunciar o que é
sem definhar nos maremotos
das perfidias que a desdenham
das cobiças que a desfolham
por entre cortes e negrume...

Trago no olhar a lua
desse folfido de prata
a aureola do meu vôo
a toada que me enamora
e onde me atraso
por não querer sonhar...
esta camélia flor
é talismã de marfim
e nele creio poder perder-me
para poder encontrar-me e ser.
 
Uma camélia

Como faço?

 
E agora como faço para gritar
quando me apetece morder as reinetas
e adoçar-me de goldens?

E agora como digo que sim
sem dizer sim porque quero esse sim
assim, sim, sim, sim...

E agora o que direi
quando a música dança
e são as roupas que tocam ao piano?

Não sei....mas hei-de inventar
como é soletrar sem traços nem letras
porque somente a prata do céu conhece
a doçura das cócegas nas orelhas.
 
Como faço?

Perdido

 
Amorável, perdi
o cântico do nove,
sorvi alcalina pelo ácido
de te cauterizar insensata,
amêndoas sem caramelo,
na tua boca o futuro
que o outrora me censurou.
Haviam rabelos
e eu comi peixe frito
em sonhos de náufragos
com pão lambuzado de algas,
partituras de ses
quando já não era
o que foste ser
doidivanas trampolineiro,
o ganho de um ilusório
à porfia de amar
a negra tontura do desejo.
E amanhã sofreu
no encontro do encostar,
ombro não sol,
queria o teu trinado cimbalino
entre os lençóis da surpresa
de te ver sobrescrito
na roupa da minha nudez.
Amor…queria ser a lua das tuas mãos
em vez de agasalhar o frio
que o casaco da tua meninice
me ofertou em logaritmo
na entrepalha da minha face,
a tua ré à proa
sem a razão no leme.
Ainda tu és praia
aquém da língua insana.
 
Perdido