Primavera infinitiva
Amar-me
e a esse momento,
corromper com um sorriso o cerne da dor,
dar o mel do meu nome rosáceo
à toda alameda sem flor,
deixar cair o beijo morno do sol
na pele absorvente da palavra amor.
Desalojar do peito
sentimentos cor de estanho,
preencher com os motivos certos
todo minuto de silêncio e desdém,
ter a textura doce e macia
que uma boca muito amada tem.
E jamais ser um vulto
na escuridão de alguém.
Sentimentalidades
Uma brisa cheirando a baunilha
agita preguiçosamente
a cortina que azula o quarto
- penso a noite como um traje de gala
que o dia usa para dormir.
Descobrirei amanhã
fragmentos de estrelas nos meus olhos
e saberei de cor o mapa do sossego.
Deixarei que meus lábios se imprimam
na multiplicidade do silêncio;
coberta de resoluções amenas,
hei de fazer-me nova
como uma semente
que adormece no escuro da terra
e sonha com o nome do sol.
Súplica em Ré Maior
Uma flor convertida em sorriso,
Dá-me que a vida já passa
E vejo a escorrer na vidraça
A dor pluvial do paraíso.
Nem comigo nem contigo;
Nas mãos de quem pousa a chave
Que há de demolir o entrave
De não ter-te sequer como amigo?
Uma flor, um poema delgado,
Sem perfume algum do passado,
Dá-me que a vida já passa
E sou eu a escorrer na vidraça.
Vinho barato
Na primeira vez que te esqueci
eu andei meio que tonta,
bêbada de entusiasmos,
enxergando a vida em dobro
e com um sorriso sonoro
que dançava no meu rosto.
Na segunda vez que te esqueci
fui tomada por um estranho torpor
e o mundo era meu quarto que girava
ao som do despertador.
Agora toda a vez que de ti me esqueço
jogo meu corpo na cama
e rezo para que nunca amanheça
- o amor é um vinho barato
que só me dá dor de cabeça.
Como quem rouba
Eu escrevo como quem rouba,
em silêncio,
com medo de ser apanhada
e na surpresa do momento
ter que me explicar
- e a quem?
Com medo de, tarde, me arrepender
escondo de mim minhas pegadas,
inutilmente.
- sempre me descubro cometendo o erro,
fomentando o crime.
Eu escrevo como quem rouba,
às vezes, de capuz, calculo o gesto;
às vezes, a passos lentos,
acendo a lanterna,
ilumino a alma,
tomo por meu o dom da palavra.
E escrevo sem flagrante
sobre dores que não são minhas
e amores que não pude ter.
Pequena Carta a um Amor tão Grande
Regados a lágrimas os meus olhos – sementes - amadureceram.
Detenho-me, amigo, em ser branca e pobre;
enquanto a sombra da juventude me passeia pelo corpo
com a pressa de todos os ventos.
Tenho dedicado um par de sorrisos às últimas horas da tarde,
é quando tenho-te quase afável dentro da memória.
Contudo,
ainda tramo insurreições amorfas que poriam fim ao calendário,
fugas frenéticas por sobre a planície d’água;
imaginando-te rijo do outro lado da madrugada.
No caminho de ir faço que volto,
presos os meus pés muito antes do precipício
- cálice vazio de onde transborda o medo.
Depois do verde da última serra
tenho exaustos os lábios por só dizerem de ti;
cantam hinos às flores maculadas pelo frio,
louvam rios que serpenteiam nus, debaixo do sol.
Tantas pedras em meu caminho
e é no teu silêncio, amigo, onde eu sempre tropeço.
Café com Saudade
Um dia provei do teu açúcar a leveza
na brevidade de um beijo de amor
- iguaria que no céu da boca se derrete,
qual estrela de polvilho.
Como lembrança de uma infância morna,
o teu gosto distante visita-me a língua,
à mesa do café.
A xícara também sofre,
quebrada na borda.
Modus Operandi (3)
À mercê da noite os meus olhos de palha,
estrelas de vidro que nunca se deitam.
E a minha luz que se deixa mover
e os meus passos no chão de azeviche
e o verbo amor que se veste de mim.
Canto a canção de ignorar
se sou a vertigem ou a fotografia,
se minha poesia é de sangue ou de ópio;
se o que me queima é desejo ou pavor.
De nada me vale acordar a palavra
e deixá-la estendida no vão da memória
onde minha boca não pode chegar.
Como quem morde a própria carne
é que escrevo um poema.
Lamento vespertino
Barbárie sem nome
a tristeza que a pedra faz
à vidraça da janela:
tantos sonhos virgens,
tantos sussurros perdidos,
tantos beijos pagãos
estilhaçados na calçada...
CASTELO
Oh amor, entre amores imperfeito!
Que varres dos meus olhos a certeza,
Que fazes de oficina o meu peito,
Deixa ruir essas paredes de tristeza!
Lança tua fúria em tempestade
Por sobre a noite que me acena,
Tira de mim as grades da saudade,
Liberta minha luz, já tão pequena!
Oh amor, entre amores escolhido!
Vê os meus passos sem destinação,
Sente o ardor do meu corpo ferido
Pelas profundezas da obstinação.
Que eu torno em flores tua aspereza,
Deixa ruir essas paredes de tristeza!