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Vergílio António Ferreira : O Meu Público
em 29/05/2012 15:49:22 (1135 leituras)
Vergílio António Ferreira

Quando escrevo, o meu único público sou eu. Depois é que me ponho à espera de que sejam também os outros. Não porque antes os menospreze: simplesmente porque não existem. Mas é evidente que me interessa que existam depois como público pelo desejo natural de me confirmarem a existência como escritor. Porque a existência como escritor implica a audiência dos outros. Não escolho porém o público - espero que ele me escolha. Seria duro que me não escolhesse, por todas as implicações que se adivinham. Mas não é impeditivo de continuar - excepto se me convencerem (quem se convence?) que não tinha nada a dizer. E no entanto, se nós exprimirmos o tempo que nos exprime, há um pacto indissolúvel entre o tempo e nós. Assim, o nosso público está aí sempre, ainda que tenhamos que ser nós a despertá-lo.
Esse público não desperta se nós de facto lhe não falarmos, ou seja, se realmente não houve pacto algum com ele. Todas estas questões, porém, são supérfluas para a necessidade de escrever. Cumpre-se um destino de artista como outros o de serem santos ou criminosos...
O resto não é connosco - é com os críticos, os hagiógrafos e os arquivos da polícia.

Sim, tenho um público restrito. Em todo o caso, há excepções. Há certos livros - a Aparição, por exemplo - que atingem uma camada mais vasta. Outros, não. O leitor de Aparição gostou e vai comprar, por exemplo, Nítido Nulo. E sentiu que esse livro não era, digamos, tão digerível como o primeiro. E então evita decerto comprar outro. Não sei se é isto mesmo o que acontece. Sei é que não tenho um grande público, embora não me lamente por isso.
Não vou alterar os meus interesses literários em função disso. De resto, nem eu nem, suponho, qualquer escritor escreve seja para quem for: escreve para si. O que acontece é que, depois, o público vem ou não ter com ele. Reconhece-se ou não na obra desse escritor. E passa a ser desse público porque se identifica com o escritor.

Vergílio Ferreira, in 'Um Escritor Apresenta-se'


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