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Machado de Assis : Manhã de Inverno
em 04/07/2013 00:35:58 (2664 leituras)
Machado de Assis

Manhã de Inverno
Coroada de névoas, surge a aurora
Por detrás das montanhas do oriente;
Vê-se um resto de sono e de preguiça,
Nos olhos da fantástica indolente.

Névoas enchem de um lado e de outro os morros
Tristes como sinceras sepulturas,
Essas que têm por simples ornamento
Puras capelas, lágrimas mais puras.

A custo rompe o sol; a custo invade
O espaço todo branco; e a luz brilhante
Fulge através do espesso nevoeiro,
Como através de um véu fulge o diamante.

Vento frio, mas brando, agita as folhas
Das laranjeiras úmidas da chuva;
Erma de flores, curva a planta o colo,
E o chão recebe o pranto da viúva.

Gelo não cobre o dorso das montanhas,
Nem enche as folhas trêmulas a neve;
Galhardo moço, o inverno deste clima
Na verde palma a sua história escreve.

Pouco a pouco, dissipam-se no espaço
As névoas da manhã; já pelos montes
Vão subindo as que encheram todo o vale;
Já se vão descobrindo os horizontes.

Sobe de todo o pano; eis aparece
Da natureza o esplêndido cenário;
Tudo ali preparou co’os sábios olhos
A suprema ciência do empresário.

Canta a orquestra dos pássaros no mato
A sinfonia alpestre, — a voz serena
Acordo os ecos tímidos do vale;
E a divina comédia invade a cena.

Machado de Assis, in 'Falenas'


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Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 04/07/2013 01:31  Atualizado: 04/07/2013 01:32
 Re: Manhã de Inverno / Aos Poetas
Pequenino sou, diante de tamanha grandeza poética.
Vejo na madureza de nosso talentoso Machado de Assis,
um intercâmbio, uma harmonia, sentimentos agregados
a vida cotidiana, experiencias cotidianas poéticas.
Que propício momento poético.
Muito agradecido Poetisa Helen.

Do AmigoMenino!

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