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Crónicas : 

DA INTERPRETAÇÃO DE POEMAS

 
"Quando se pergunta a um autor
o que ele quis dizer, um dos dois
é burro."
(Mario Quintana)

Não há nada mais pretensioso e sem sal do que interpretar um poema. Acho uma invasão ao universo do poeta. Uma tremenda falta de educação. Ora, um poema é bom ou é ruim - mais nada. Assim como a pintura, a poesia, dita a mãe das artes, é a única forma de expressão que não tolera desaforo. E isto basta.
Quando alguém, ao ler um poema meu, ousa comentar que eu quis dizer isso ou aquilo, posso até concorar, por educação. Mas por dentro me rio todo. Porque, na maioria das vezes, não quis dizer absolutamente nada. Apenas gostei dos versos ou de uma imagem que me veio - e escrevi, sem me importar com o seu conteúdo. Posso escrever um poema tristíssimo estando alegre.
Claro, em alguns poemas o sentimento está expresso nitidamente. Não é preciso interpretá-lo. Está dito. E pronto.
De minha parte, dispenso as análises acadêmicas - são chatíssimas e presunçosas. Pior ainda são aqueles que comentam por metáforas, achando genial o besteirol que acabaram de dizer ou escrever. O tal papo-cabeça. Que saco!
Vou lembrar aqui um episódio ocorrido com Carlos Drummond de Andrade, que o próprio fez questão de levar aos leitores do extinto Jornal do Brasil, do Rio Janeiro, onde mantinha uma coluna.
Alunos do curso de Letras da PUC-RJ acharam por bem enviar ao poeta um estudo sobre alguns de seus poemas. Dissecaram os versos de Drummond como um legista disseca um cadáver. Enviaram a ele um ensaio cheio de figuras de linguagem. Inavdiram o universo do autor de E Agora, José?
Drummond conta que ao acordar pela manhã levou um susto imenso. Hipérboles. Anacolutos. Metonímias. E uma pá de baboseiras mais.
"Senti-me o pior dos monstros" - escreveu o poeta, em sua crônica. "Meus pobres poeminhas. Nunca pensei em nada dessas coisas que escreveram sobre eles. Apenas achei as imagens bonitas e quis escrevê-las."
Acho que me fiz compreender. Drummond quando escreveu "no meio do caminho tinha pedra", contrariando, propositalmente, a forma dita culta, que pediria havia uma pedra, quis apenas dizer que tinha uma pedra no meio do caminho. Mais nada. Mas críticos e "comentadores" - principalmente os de sites, cujo comenhecimento de teoria literária é pra lá de precário - adoram buscar chifres em cabeça de cavalo. Como papel e tela de computador aceitam tudo, paciência.
Também não creio em inspiração. Não vou ao extremo de João Cabral de Melo Neto, que separava a poesia da emoção. João Cabral, poeta estupendo, era um neurótico inconteste. A emoção é importante, sim. Mas bem dosada, como açúcar. Em excesso, há o risco do poema sair enjoativo. Mas tenho restrições àqueles que dizem escrever o que sentem. Quem só escreve o que sente, eu sinto muito. Poesia não é divã de analista. Como disse Mallarmé, "um poema se faz com ideias, não com sentimentos." Mas dizer aqui, neste espaço, é malhar em ferro frio. Então agradeço aos beijinhos que me enviam. E sigo em frente.

________________

júlio



Júlio Saraiva

 
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Julio Saraiva
 
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Enviado por Tópico
Tânia Mara Camargo
Publicado: 14/12/2010 20:08  Atualizado: 14/12/2010 20:08
Colaborador
Usuário desde: 11/09/2007
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Mensagens: 4263
 Re: DA INTERPRETAÇÃO DE POEMAS
Pois amigo Júlio jamais espere de mim
um comentário acadêmico. Sou do tipo que
lê e por vezes identifico-me com os versos,
ou leio e aprecio demais. Há poemas que
leio e sinceramente gostaria de ter tamanha
inspiração e categoria para escrever. Como
sou "pequena" acabo me conformando com minhas
pobres letras. bjs
e avante a poetar!
bjs


Enviado por Tópico
PROTEUS
Publicado: 14/12/2010 20:41  Atualizado: 14/12/2010 20:41
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Mensagens: 2612
 Re: DA INTERPRETAÇÃO DE POEMAS
Concordo!
Não desejo interpretar ninguém.
Não quero ser interpretado por ninguém...
Entendam o foi dito.
Sintam o que foi dito.
Ou não.


Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 14/12/2010 20:54  Atualizado: 14/12/2010 20:57
 Re: DA INTERPRETAÇÃO DE POEMAS
sabes as vezes um poema sem palavra mais cara diz tudo e as vezes um bem elaborado nada diz gostei deste texto muito verdadeiro
abraços

Se bem que discordo com o que disseste em relação ao perguntar esta palavra ou outra pois so assim se podera perceber o poema e o seu autor,abraços


Enviado por Tópico
arfemo
Publicado: 14/12/2010 21:04  Atualizado: 14/12/2010 21:04
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 Re: DA INTERPRETAÇÃO DE POEMAS
...pois, caro Júlio, basta o som e o sentido, como dizia o Valéry. bom trazer o assunto à colação... e um abraço, já agora!


Enviado por Tópico
Karla Bardanza
Publicado: 15/12/2010 00:03  Atualizado: 15/12/2010 00:03
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Usuário desde: 24/06/2007
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Mensagens: 3481
 Re: DA INTERPRETAÇÃO DE POEMAS
Sabe, Ju

Você é fantástico, Leão!!!

Ka


Enviado por Tópico
DomingosdaMota
Publicado: 15/12/2010 17:55  Atualizado: 15/12/2010 18:35
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Mensagens: 758
 Re: DA INTERPRETAÇÃO DE POEMAS
A propósito da interpretação do poema, e como também me sinto incapaz de o colocar na mesa da autópsia, é que em tempos publiquei neste espaço como "fogomaduro" o Destarte Poética - uma abordagem irónica ao tema.

DM




Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 20/12/2010 23:53  Atualizado: 20/12/2010 23:53
 Re: DA INTERPRETAÇÃO DE POEMAS
Caro júlio,
gostei do teu texto com o qual me identifico, descontando a absolutização.
Há comentários que pretendem descobrir o que o poeta diz, mas só descobrem quem o comenta.
Mera projecção psicanalítica ou burrice mesmo, segundo o quintana.
Mas também acho que aqui o luso-divã também tem as suas virtudes terapêuticas e, nessa perspectiva, relevo.
abraço
nuno


Enviado por Tópico
silva.d.c
Publicado: 21/12/2010 01:38  Atualizado: 21/12/2010 01:38
Super Participativo
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Mensagens: 165
 Re: DA INTERPRETAÇÃO DE POEMAS
Julio,

Nada como falar/comentar o que a leitura de um poema nos fez sentir, o que por si já é um bom sinal, quando o poema consegue causar diferença e reacção no leitor. Por outro lado tentar interpretar um poema é entrar no campo da adivinhação, da suposição, pois só o autor pode saber os significados, os sentimentos e os contextos que o levaram a escrever o poema.
Se o poema não causou nenhuma reacção no leitor, o melhor é não dizer nada.

Abraço




Enviado por Tópico
Antónia Ruivo
Publicado: 21/12/2010 02:18  Atualizado: 21/12/2010 02:18
Colaborador
Usuário desde: 08/12/2008
Localidade: Vila Viçosa
Mensagens: 3906
 Re: DA INTERPRETAÇÃO DE POEMAS
Essa é outra que eu acho ridícula tentar desvendar o que vai na alma do poeta, eu escrevo pedras e falo de pessoas, escrevo rosas e falo de bichos, do vento e sou eu tanta vez esse vento, ou o outro, ou até mesmo nada apenas pensei na palavra e saiu aquilo, como tu dizes falo de morte rindo e de vida chorando, ou melhor, nos dias que estou mais feliz é quando consigo escrever com mais dor, agora tentem entender se nem mesmo eu entendo por vezes,

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